^*K i >} MM- / //^i-/2:3. KfsSaJSo****''' '2^^4^-?r-~^ . 4's>^'i ^ ' -^ ' s^ft !^ MEMORIAS ECONOMICAS D A ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS D E L I S B O A, PARA O ADIANTAMENTO D A AGRICULTURA, DAS ARTES, E DA INDUSTRIA EM PORTUGAL, E SUAS CONQUISTAS. Nift utile eji quod facimus ^ Jluha ejl gloria. T O M O IIL L I S B O A NA OFFICINA DA MESMA ACADEMIA. ANNO M. D C C. X C I. Com licettca da Real Meza da Commi(fao Geral fobre o Exa- me , e Cenfura dos Livros. / rlivsE BRITAN liwwuLBuu i LWiaLig jMadj a uj t muam uiMuia M E M O R I A S(fi>re a utilidade dos conhechnentes da Chymica em quanta applicados d Arte de conjhuir Edijicios, PoR Alexandre Antonio das Neves Portugal* TRatar hoje de utilidade de Sciencias he fazer in- juria ao feculo em que eftamos j apenas para mof- trala fern cahir nefle vicio fo podc permittir-fe o fazer applicajao de alguma Sciencia a certos tins. Defta forte pois Jie que eu Jembrarei a neceffidade da Chymi- ma na Arte de Edificar : mas come efte allumpto leja mui vallo para difcorrer , eu direi fomente das coufas que ha para attender a refpeito do terreno em que fe edifica -, da efcolha dos materiaes i e das madeiras , de que fe ha de fazer ufo. I. O primeiro cuidado de quem dirige a obra , alnda mefmo antes de fazer abrir os aliccrces , ha de empre- gar-fe em conhecer as vantagens que do terreno podc tirar ( fe o lugar o permitte , e niuito mais fe a obra he de grande cufto , e confideracao , como o edificar hu- ma Pra^a) : e porque em hum inftante com a 'vcrrtima da terra fe Ihe patenteao os diverfos bancos de terras que formao efle chao , fabendo conhecer a natureza del- las J pode evitar , ou abrir alicerces em hum terreno n:ao , onde feja neceflaria huma avultadiilima defpeza ; ou aproveitar-fe competentemente das gredas , areas j pc- dras J carvoes biiuminofos , cu de outros prcdudos que en- 6 Memorias encontnr : poisque aifMi como imprudencia feria an- dar minando moiites fern alguma piecifao ; alHrn , quan- do diflb ha opportunidade , convem nao fe ignorar quaes fejao OS produdlos que fe defcobrem , e as luas utilida- des ; e que talvez por ellas merejao tirar-fe da terra pelo mefmo lugar , ou por outro que pare^a mais op- porruno , fegundo as regras que enuna a Geometria Su- bterranea (i) . Mas ainda mefmo he neceffario conhecer os bancos de terra inferiores ao que faz a bafe do alicerce , para poder-fe julgar da fua refiftencia em fupportar o pefo de grandes fabricas ; ou fe ha algumas cavidades , cujos te- (flos poflao abater (2) , &c. Se he barrofo o chao , fo- bre que fe ha de edificar , precifos fao na bafe engrada- mentos •, fe areofo , as eftacadas : e porque os pregos dos engradamentos , e as pontas de ferro , que fe uncm as eftacas para penetrarem melhor a terra , fe destazem na humidade , tornando-fe em hum p6 negro {ethiope mar- cial) , util he que effas pontas de ferro nao fejao mui- to groffas , e que exacftamente aflentem fobre as das ef- tacas , para nao medlar va6 , por que ellas pofla6 aba- ter com o edificio , a nao ballarem desferradas : e tam- beni em rafao da confiilencia do terreno precilao ir-fe mettendo de tal arte , que o mefmo nao grete pela for* ca com que ellas como tantas cunhas procurao lepara- lo (3) . Nos engradamentos fiquem os pregos embebidos na (i) Merecem ver-fe Kdcnlg , e G en [fane , e principalmente D:th nnel fobre efti mareria. (2) A-fr. Blondel refere , que hum confideravel edificio pot faka defta cautela abateo todo igualmenre na altura de 6 pes 110 mefmo dia em que fe abrira hum P090 , por onde puderao fahir as aguas comprelTas na cavidade , fobre que fora editi- cado, (5) He nefta parte admiravel a difpori9ao com que JVfr. Per- ronst fez merter a eftacnria para as pontes , de que tem diri- gido a conftru:9a6 (^ Defcript. des ponts de Nemlles ^ Sec. t. i 5 veja-fe a eft. 18) . ECONOMICAS. 7 na madeira ( a cabeca perdida , como dizem ) ; alias fera melhor em lugar delles ular tambem de tornos de madeira. Quando o cha6 tem a neceflaria firnieza podem fa- zer-fe arcadas em lugar de alicerces mocifos ; fe comtu- do nao he enorme o pefo que hao de iuftentar , pelo perigo de abater alguma columna : e por efta caufa pa- ra as muralhas , zimborics , e outras ohras de dclmelu- rado pefo , fe forma no alicerce hum folido de ( ao me- nos ) igual diameiro ao que hao de ter as mefmas cbras ; que de ourra force a ceder o alicerce de algum arco , ou das paredcs lateraes he a ruina inevitavel •, lendo efta mais ainda de terrier nos terrenos pouco reliftentes , como os de barro. E em fim , fendo neftas excavayoes frcquente achar veas de agua que muito embarajao o trabalho , inutil he a diligencia que alguns (4) aconfelhao de que- rer feccalas com cinzas , e cal viva ; pois nem ha ra- fa6 alguma chymica , por que nos perfuadamos que ifto pode fazer fempre cemento capaz de conter as veas de agua ; nem , quando aflim accontecefle , fe poderia impe- dir o irem rebentar em outra parte , onde laivez follbm mais defcommodas. n. He tambem de neceflidade indifpenfavel o attcnder i qualidade dos materiaes com que ie edifica. Mereccm huma attenjao geral os cdificios que nos reftao da An- tiguidade , e em que admiramos fer a argamafla ainda de duracao maior que as mefmas pedras : he verdade que huma tal rijeza parece fer devida a diuturnidade do tempo , por que tem exiftido , como alguns dizem ; mas fe affim he , efles edifieios nao deverao exiftir hoje , pois fe teriao arruinado quando efta forca Ihes faltava , no tempo em que contavao muitos feculos menos da fua du- C4) Na Encyel. Method, fobre efta pontp. S M E M O R I A S durajao. Seja o que for , he innegavel que os edificios em humas mefmas circunftancias fe demulem com mais facilidade, ou menos , fegundo o difFerente cuidado com que fora5 conftruidos ; e fe ifto para alguns he duvido- dofo , a Chymica enfina a eftar nefta parte fern heil- tacao. Hum todo he tanto mais robufto , quanto mais for- tes fao as fuas partes , e as ligaduras que prendem eftas entre fi : he pois neceflario que as pedras feja6 as mais duras , e que menos cedao as injiirias do tempo ; e que a argamafla feja a mais capaz de unir todas ellas pe- dras em hum corpo fobre maneira firme. As pedras pe- la fua rijeza melhores para edificar fao por efta ordem as {i^) filiccas , arenatas , bafalticas , as c ale art as nao fendo gej^ofas , e osfaxos que nao tern miiluradas par- ticulas tie qualidade diverfa deltas j mas de nenhum modo as que tern particulas barrofas , pois embebendo a agua , fe ha grandes geadas , geiando-fe tambem elTa agua , as pedras dilatao os poros tanto , que fe fendem. As fchiftojas iao mui tenras de ordinario ; e he precifo de tal forte attender a ifto , que ate convem deixalas todas no edificio com a mefma poftura que tinhao no cabouco , porque afiim fuftentao maior pelb , como a el- le acoftumadas pela naturcza com a oppreiTao que foffrem peios bancos de terra fuperiores : e nifto fao os France- zcs por extremo cfcrupulofos. Mas fe he neceflario aproveitar de quaesquer pe- dras , quando nao |;6de haver efcolha , precilb he ufar femprc da inelhor argamajfa , pois a bondade della pen- de da noilli eicollia de ordinario , vifto que os deicu- brimentos , e as theorias Chy micas dao hoje nefta parte todas as hazes defejaveis. He evidente fer tanto melhor a argamaj[a quanto mais puros fao os componerites , a cal digo J e area , ou barro cozido que fe Ihe miftura. A pe- ( 5 ) Segunuo o modo com que as clalTou Walerio ao Syjf, Mineral. ECONOMICAS. 9 pedra calcar'ia, ao tempo que fe coze pcrde a quantida- de de acido aerio que continha , tornando-fe hum alca- le puriflimo , e fummamentc cauftico ; o que a faz ter tao extraordinaria tendencia a combinar-fe com qualquec acido , e humidade que primeiro cncontra , que ate da atlimosfera os attrahe em mui prodigiofa quantidade , pois ainda no efpaqo de hum dia augmenta confidera- velmente de pezo , e de volume. A area combina-le tao fortemente com a cal , porque provavelmente contem principio acido (6) ; e he maior a combinajao que faz com ella o p6 de tijolo , ou telha , porque ainda tern maior porjao de acido ( 7) : e affim i"e manifefta o engano , de que fe perfuadirao Mr. Belidor Scienc , des Ingou 1. 3. c. 5. quando para dar razao difto admitte na area faes volateis , e na cal partes fulfureas que fermentao , e Mr. Fotircroy de Ramecourt , Art du Chaufornier , Cull, des Arts torn. 4. em crer que a pedra da Lore- na , de que fe faz huma exceliente cal , he a que abun- da em mais enxofre. Per aquella raza6 pois de proceder a rijeza da ar- gamalTa da uniao da cal com o acido da area , fe fe- guem tres neceflarias conl'equencias : I. que a coheren- cia he maior, quanto a cal , e area , ou p6 de tijolo ti- Tom. III. B ve- (6) Eu nao digo tao dicifivamenre como alguns , por exem- plo Ainikembrock^i Elan. Phyf. torn. i. cap. 19. , que a area abunda em nciiio , mas parece-me nao podc negaffe-lhe de to- do , i.°porcjue nao ha virrificafao com fimples ii/c^/c , e a cal com area da vidro ; e z.° porque efta con^.bina^iao he com menos for9a a proporfao que a cal lie laturada de acido Mvio. (7) Nos barros he fern diivida a exillencia do acido vitrio- lico. A^r. Mncqucv Did. Chym. palavra Arplle diz , que exa- minou immenfas variedadcs : e em nenhuma pode negar que o fiouvefTe , quando Air. Baume affirmava que todas o contt- nhao. E que na cozedura fe nao evapora he evidence ; da pe- dra hume , c do colcothar , ainda depois de tirado o oleo de vi' triolo glacial , o fogo mais forte nao bafta para evaporallp lodo. 10 Memotiias verem ir.enos partes heterogeneas j II. que tambem fuc- cede o mefmo , quanto mais eiliverem mifluradas entre ii as fuas pardculas ; 111. que ellas podem eftar mais mifluradas quanto forem mais fubtis. Quanto a I. confequencia. Dev^e haver o maior cui- dado que a cal nao perca a fua for^a extinguindo-fe ao ar ; peJo que , como ufavao os antigos , fc deve cubrir de huma grofla camada de faibro , que Ihe embarace a fua communicagao ; e fe fe extinguio ao ar , efle p6 le deve de novo calcinar : e Jie ilio mais util , pois quan- do as pedras da cal viva fe piTao para le ufar do p6 , efte prejudica aos trabalhadores notavelmente , o que af- ' iim le evita , como advertio Mr. Morveau. A area de- ve fer de rio , branca , e que nao contenha partes de outra terra , pois ellas , cubrindo a fuperficie dos feus graos , como lao as areas amarellas de que fe fazem os edificios em Lisboa , ellando mifluradas de ocra de fer- ro embarajao o contadio , e combina9a6 com as parti- culas da cal ; quando a tocarem-fe he tao forte a fua co- hefao ainda mefmo em razao da fuperficie lifa , que nos vidros o fedimento da cal de nenhum modo pode fepa- rar-fe , nem mefmo rafpando-fe , porque parece penerrar- ihe os poros , como primeiro obfervou Baume (8) . Da area foffil tambem fe pode fazer ufo , mas nao da do mar , em quanto nao for bem lavada pelas chuvas (*) . O argamaflar com agua falgada he igualmente mui pre- judicial , nao pela razao que aponta Belidor ( obra cita- da 1. 3. cap. 5".) illudido da extravagante theoria que mifturados dous faes dijferentes fempre hum fe conver- te na fubftancia do oittro ; ajjim fendo os faes da cal abundant es at tr ahem os que contem a agua falgada , e OS difpoem a concorrer para a cuagulacao da arga- maf- (8) Manuel de Chym. artig. Mortier de chaux et de fable. (*) Referva-fe para outro lugar o fallar do ufo , que poderia fazer-fc para iflo da pitzzolana dos volcoes extindos ^ue ha no Reino. ECONO MICAS. 11 mafla ; mas fe os faes da cat fao em pequena quantida- de , fal marino domina , e faz hum ejfeito todo oppof- to : porem he iiocivo , porque a cal decompoc o fal ma- rino , uniiuio-le avidamente ao feu acido , e alTim nci;- tralizada em parte nao pode combinar-fc tao bem com "a area ; a bafe alcalina mineral que fe I'epara , fica em- bara^ando o contad:o entre a area, e cal j e a outra Z-^- fe terrea de mais dillo e(hi attrahindo de conriiiuo a hu- midade , a qual damniiica muito os edificios. For taiuo , ainda que fe diga (9) que nos portos de Franja fe ul'a da agua ialgada para argamalfar, fern nifto fe ter acha- do prejuizo , os que ediiicarao , talvez cedendo a neeef- fidade , como nos edificios no mar , fe haviao fervir de muita cal viva : e ainda que efte inconvenience ponderado ha de fer tao fenfivel em Franca , como em Portugal a pefar da Latitude ; pois que o fal marino , tendo a proprie- dade de nao dlllolver-fe mais a quente {10) , fe acha dilTolvi- do em igual abundancia nos noflbs mares , e nos daquelle Reino : com tudo , eu fallo do como fe pode fazer a me- Ihor argamaffa ; c da mefma forte que a urgcncia modi- fica eftas regras , affim tambem fem cUa fe nao devem defprefir. QiKinro a II. confequencia. Eu diffe , que a cal , e area lerao tanto mais mifturadas , alem do bem arga- malTadas que devem fer , quanto menos inquinadas efti- verem de heterogcneos : e com effeito efta reflexao ccn- duzio a Air. Loriot (11) a defcuberta da fua famofa argamafla , que endurece , e pode pulir-fe como marmo- re , e he impenetravcl a agua (12) j e iguahnente con- B ii du- (y) Na Encyclop. Mcth. Arts et Metiers ^ nuz,. Aiiiconncne ^ pag. 289. (10) Bem fe ve co-iforme elb rnzao que nao fuccedc o que fiippoe Pott ^ Elem. Ac la Natur. Sett. 2. ch.ip. 10. (11) Memoir, (w tnic deconverte dans l^art de hdtir , pitbl. par ordre de S. Mai (12) Vcja-fe Letin de Mr. Patte a Air. *** fobrc. efl^T 12 Memorias duzio a Mr. Etienne , o qual compoz huma argamafia ( da mefma natureza ) tao fina , que chegou a ficar de mcnos de i linha de efpeflura , e inalteravel com a agua , e OS tempos mais rigorofos (13). Quanto a III. confequencia. Para a cal conftar de mui iubtis particulas , he necefliirio fer mui homogenea a pedra de que ella fc nzer : a film para ella as rae- Ihorcs pedras fa6 alguns marmores {{chve xmi^o o nob He y de que afFortunadamente abunda eftc Reino ) . Para fe ufar fo de area fina , preciib he joeirar-fe. O p6 de telha J fendo muito bem cozida , e do melhor barro ( ao. menos de ordinario he melhor que o tijolo , e mais cozida , e por ifTo fe Ihe prefere ) ,. efte p6 ^ digo , he mui util, por fr^cilitar pelos feus poros a enirada as par- ticulas de cal , fiipprindo aflim a fubtileza que nas fuas nao pode ter. Por illo os tijolos bons fe empregao da. mefma forte que a pedra (14) j com a ventagem de nao pefarem tanco. Mas para fe fazercm em p6 precifao moinho aproprlado ; nao lendo para iiTo lugar o modo ,. que eu propuz nefta Academia , de moer o vidro para a louja (15) . III. preparafno. Ha annos o fez experimcntar em Coimbra o Egre- gio Socio defta Academia o Sr. Domingos Vandelli com affor- lunado fuccefTo. (i?) Encyxl. Meth. Jrts ct Metiers, artig. Ciment. (14) Belidor Archit. Hydr. 1. i. § ^56. (15) He o mefmo mode ordinario de pifar o (]u^rt7,o , que confifte em Ir;n9ar cm pias cheas de :igua os potes com o vi- dro {fritta') ainda em braza , pois na agua fe faz qiiebradi90, e fe pode dahi lanjar logo no moinho ; fern que ifto prejudi- que a lou9a no iuftro, ou ourra circunftancia , como verifiquei em huma Fabrica por benignidade do Correfpondente o St. Pedra Celellino Scares : ( as pias nao hao de fer de pedra calcaria , ou outra ccufa que fe quebre , ou queinie com O- calor do vi- ooo r. de lenha ; mas para huma caldeira de doze pipas fera baftante 3(|)ooo r. ; e deftilando duas vezes no dia 4 ate 5'(|)ooo r. por tudo. Ora para dedilar vinte e quatro pipas de vinho nos 1am- biques ordinarios precifamos pelo menos de i6(|)ooo r. de lenha ; ifto he, i2(|)ooo r. mais do que nos de Bau- 7ne. E fendo neceflario deftilar oito pipas de vinho pa- ra huma de agua-ardente , obteremos efta por 4(|)ooo r. menos , fo na defpeza da lenha. A perda do tempo , e jornaes nao he menos fenfi- vel ; porque hum lambique de pipa das noflas Tabricas nao pode fazer mais do que huma lambica§:a6 por dia ; e quando pertendemos outra coufa he em prejuizo da quantidade , e qualidade da agua-ardente : pois o tra- balho ,"* b cuidado com eftes lambiques pequenos nao he menor , ja para trajar a lenha , ja para regular o fo- go , &c. de forte que os mefmos dous obreiros preci- fos a deftilagao em hum pequeno , aHiftem com menos trabalho a hum grande : affim para lambicar vinte e qua- tro pipas de vinho , pelo noiTo methodo ordinario , pre- cifamos de quarenta e oito jornaleiros , a cuja defpeza de jornaes devemos ajuntar a do vinho , e agua-ardente que ECONOMIGAS. 33 que bebem , e teremos outra parcclla afsas notavcl nas defpezas. C A L C U L O. Defpezas da lenha , e dos jornaes dos Obreivos com OS Lambiques antigos. Por lenha de 24 lambicaqoes nos lambiques de pipa , cada huma lambica^ao a 700 r. i6<|)8oo r^ Por jornaes no efpago de 24 dias a doiis obreiros , cada hum 200 r. , por dia 400 9(^600 Por vinho , e agua-ardente , que os ditos dous obreiros gaftao nos 24 dias das 1am- bicagoes a 60 r. cada hum ,120 - - - 2(|)88o Somma 29 (|) 280 Defpeza da lenha , e dos jornaes dos Obreiros nos Lambiques modernos, Por lenha de duas lambicagoes nas caldei- ras de 12 pipas , cada huma lambica- ' jao a 4(|)ooo r. ----*--- 8^^000 r. / Por jornaes no efpajo de dous dias a dous obreiros , cada hum por dia a 200 r. , 400 ------------- 800 Por vinho , e agua-ardente j que os ditos obreiros gaftao nos dias das lambicajoes , a 60 r. cada hum, 120 ------ 240 Somma 9<|)C40 Differen^a total de huma a outra lambkagao 20^240 Tm, IIL E Tu" 34 M E M R I A S Tudo ifto fe poupa , iifando dos lambigues a/Tim mefmo imperfeitos , como efte de que tne fervi ; de modo que fe deftilamos vinte e quatro pipas de vi- nho para fazcr tres de agua ardente , teremos cada hu- ma deftas por G^ji^o reis menos , fo nas defpezas da lenliHS , e dos obreiros. Porem fe a qualidade do vi- rho permittir , que os lambiques ordinarios fa^ao duas deftilacoe'j por dia , os de Baume farao tres , ou qua- tro ; porque a deftilajao he igual a evapora^ao , efta he proporcional a fuperficie expofta do fluido , e a fua altura dentro do vafo ; de modo , que a brevidade da deftilacao do vinho efta na razao direcfla da fuperfi- cie livre , e fuperior , que elle tern dentro da caldei- ra , e na razao inverfa da altura , que o mefmo vinlio tern dentro da dita caldeira : affim da eftrutlura do lambique , e nao da quantidade do vinho que contem , he que eai iguaes circunftancias dcpende o tempo da deftilacao. O caior do Sol , e da Athmosfera no Eftio faz evaporar dentro em huma hora mil pipas de agua , que huma nuvem carregada efpalhou em hum terreno qualquer ; mas nao evapora no mefmo tempo hum co- po de agia expofto ao mefmo calor. Eftes feno- menos , que lao verdadeiramente das deftilajoes em grande executadas peia natureza , provao a minha theoria. He verdade que por algumas Fabricas das tres Pro- Yincias Beira , Minho , e Tras-os Montcs , achao-fe iambiques de quarenta ate felTenta almudes ^ e o pre- go das lenhas he ordinariamente menor de oitocentos reis por carro. Comtudo o confumo inutil deftas le- niias fempre fe verifica , e chega a muitos mil carros em cada hum anno nas Provincias. Tambem he mui- to notavel , e maior ainda o numero dos fabricantes^ em.pregados fern urilidade alguma. A perda das aguas- ardentes , e ma qualidade das mefaias , fao objet^los que E C O N O M 1 C A S. ^S que merecem particular attengao. Por eflcs , e cutros refpeitos a Junta da Companhia Geral do Alto-Douro eila na refolufao de reformar as Fabricas das dilas Pro- vincias em beneficio feu , e do Publico. Sejfao de 33 de M^r^o de i7<)i* EH P]ES- 36 M E M Q R I A ^. DESCRIPgAO EGONOMICA Do Territorh que vulgarmente fi chama Alto-Douro.- POR FRAtf^ISGO PeREIRA. ReBELLO DA FONSECCA. C A P I T U L O L Defcrip^ao Geral. Territvorio , que faz o objetflo della Defer ip^ao\ he todo o dedrifto das correntes dos lados Se- tentrional , e Meridional do rio Douro , desde o licio do S. Joao da Pefqueira ate o em que defagua no mefmo Douro o rio 'Teixeira : fao duas elevadas coftas , que eftao lltuaias de Norte a Sal entre Villa-Real , que efti em 11 graos e 2 minutos de longitude , e 41 graos e 19 minutos de latitude , e Lamego , que ella em 10 graos e 5'i minutos de longitude , e 41 graos e 5 minutos de latitude : todo efte Territorio eila forma- do em muito eieyados outeiros , e profundos valles , de forte , que em todo elle lia muito pequenos efpacos de terra plana : por entre eilas duas coftas corre o rio Dou- ro , que nafce na Serra de Urbion em a Hefpanha , cor- rendo de Nafcente a Foente perto de noventa leguas- aic defemboccar no Oceano em S. Joao da Foz : o icu ai" hr. temnerado na eftacao do Inverno , porque iica cer- cado de Serras muito niais elevadas , em que os ventos quebrao. ; e nas outras eftajoes he ardente , principalmen- te nos valles em que a refracjao dos raios do Sol faz t0.da a fua acfao : as fuas povoacoes fao pouco diftan- tes ... E C N O iM I C A s. 57 tes , e grandes , de forte , que na proporgao da fua cx- tenfao he a terra mais pcvoada do Rcino : cs feus ha- bitadores fao vivos , muito faceis cm percebcr , ligeircs , iuperficiaes , e pouco profundos , muito vaidofoi- , akj- vos , e inclinados ao luxo , e ao faufto ; fao naturalmen- te generolbs , e liberaes , inimigos do trabalJio, e de to- das as applicajoes , que os obrigao a muita meditacao , zelofos ainda mais da confervacao dos direitos da hon- ra herdada , do que de applicarem os meios de a adqui- rir ^ fogem de tudo o que oficndc o ccio , que iempre procurao confervar : as muJheres ho fcrtcis , e o terre- ■no proprio para a procreacdo : a terra nao he muito fer- til : fern o inceffante trabalho com que fe cuJtiva , ella produziria frudlos em pouca abundancia , e ainda a mui- ta com que parece frutflificar , confiderando a pouca ex- tenfao do terreno , nao he excelTiva : 7C(|)coo pipas de vinho , fern fallar de muiros cutros frudtos , parece Jm- ma produccao prodigioia ; porem attendtndo a configu- raqao do terreno todo formado em profundas cavida- dcs , e muito elevados outeiros nao he exceffiva , fendo a fuperficie da terra muito multiplicada a refpcito da diftancia do terreno mcdida por linhas reClas : prcduz alguma caca miuda , como fao perdizcs , galinholas , e coeJhos , mas em pouca abundancia ; e tambam alguns porcos bravos em poucos fitios ^ em que ainda fe con- fervao extenfas mattas incultas , nas quaes , e ainda em outras pequenas , fe achao alguns lobos , rapofas , e cu- tros pequcnos animaes de preza , que fe alimentao da caca J e das avcs , que apanhao das quintas , e das al- dcas , como fao martrs , papalvas , teixugos , e foinhas : tern pouca crcacao de gados , que he incompativel com a natureza da mnior parte do terreno , fuftentando apc- nas OS bois , e beltas , que fao necelTin-ios para o fervi- 50, e. OS porcos para o confumo da terra. Nas ribeir^s que atravefi'ao efte territorio fe pefca o peixe cm pou- ca quantidade , e pequeno , as fiias cualidades fao bar- bos y efcaiios , bogas , e eirczcs , c algumas trutas , e as ^8 Memorias vezes fe acliao nellas lontras ; na diftancia do Douro , que fe comprehende nefle tenitorio , le pefcao em mais quantidade, mas nao em muira abundancia barbcs , bo- gas , efcallos , e irozes ; mugens de hum gofto delicado , i'aveis , e lampreas de melhor gofto , do que de outro quaiquer rio do Reino , alguns Ibllios , entre os quaes fe pefcao de extraodinaria grandeza , porem fao rams , e tantbem appareccm lontras. As vinhas fao a principal producfao do terreno ., as excellentes qualidades do feu vinlio fao muito conhecidas , para que feja neceifario fa* zer a fua defciipcao , a fua forca efpiricuofa , a deiica- deza do feu fabor , a viveza da i'ua cor , a adiividade do feu cheiro , o fazem prefirir a quaiquer cutro nos paizes do Norte j falta-lhe a do^ura , que enjoa , e a afpereza , que molefta ; conferva-fe dilatados annos lem fe corromper , nem fe Ihe alterar a fua natural bondade , e refifte mais tempo embarcado , que quaiquer vinho de outro paiz ; produz tambem excellente azeite em tanta quantidade , que fobeja ao confummo do terreno , e fe conduz huma muito confideravel porjao delle para o Porto , que faz hum feguiido ramo de Commercio defte territorio ; tambem produz algum trigo , centeio , ceva- da , e milho , mas em muito pouca quantidade , porque o terreno he improprio para efta producjao , e falto dos meios neceflarios para a cultura deftes generos ; abun- da de frudas , que excedem muito no gofto as das ou- tras terras , principalmente os figos , pecegos , e peras , das quaes ha huma variedade adrairavel , tanto das que amadurao de verao , como das que amadurao de inver- no ; e gsralmente produz com muito fucceflo todas as frutflas que fe plantao. Padece huma grande falta de ma- deiras de conftrucgao , que fe fazem vir das Serras a grande cufto , affim como as lenhas para o fogo , nao havendo de propria produc^ao mais que as vides , que fe corta6 na poda das vinhas , e a lenha de algumas mattas , que em pouca quantidade fe acha ainda entre as^,terras culciyadas , e do mefmo mgdo fe fazem con- Economical. ;9 duzir de f6ra defte Terrltorio grandes quantidades de ef- tacas de urze , e giefta para crguer , ou empar as vi- nhas. Ha nefte Territorio baftante quantidade de aniorei- ras efpalli.idas aqui e alii , e fe faz huma boa crea^ao de feda , para a qual a maior parte das povoagoes he muito accommcdada por cftarem agazalhadas dos ven- tos , e prefervadas dos frioa tao damnofos aquella deli- cada creacao : tudo ifto podia receber hum grande au- gmento fern prejuizo alguin das outras producjoes. To- do efte Territorio he clieio de ribeiras , as margens das quaes de ordinario fao defprezadas , e andao cheas de filvas ; nellas , e nas bordas das fazendas , e em miiitos outros fitios , em que a fua fombra nao podia preiudi- car , le podia plantar hum prodigiofo numero de amo- reiras , com qne grandemente le adiantafle efta impor- tantifllma creajao , augmentando-fe muito por meio del- la a riqueza , de que he fufceptivel o Territorio : pa- ja ifto fe animar leria neceflario facilitar-fe o conium- mo da feda nas proprias terras da creacao ; o que po- deria confeguir-fe pelo eftabelecimento de algumas Fa- bricas de meias de feda , de fittas , e de algum outro tecido de feda na Cidade de Lamego , e nas Villas de Villa-Real , Mezaofrio , e Alijo , por haver neftas ter- ras toda a commodidade para efte eftabjelecimento , tan- to pela abundancia de viveres , e aguas , e barateza de ■alojamentos , como por nao haver em todas ellas efta- belecimento algum de manufaduras. Tambem produz por entre as vinhas , pclos mattos , e ribadas muita abundan- cia de fumagre , algum do qua! fe aproveita , e fe tranf- -porta para o Porto. Efte genero , que os donos das fa- zendas defprezao , he o ramo do commercio dos pobrcs menos perguigofos , e que podia ampliar-fe muito , fe Jiouvefle mais cuidado de acceitar efte dom , que a na- tureza efpontaneamente offerece. Produz alem difto efte paiz muitas outras plantas , e hervas lilveftres , de que ie poderia tirar alguma utilidade , como he da Tamar- gucira , de que abunda toda a margem do Douro , da San- ■40 M E M O R i A S Sangradeira ^ ^zSalicaria , e outras mai's que nafcera nefte Territorio , e que fervem para medicamentos , e para tintas. ■ j, • 'I C A P I T U L O IL I Continuacao da mefma materia., \ A Terra he naturalmente fecca , a maior parte ver* melha , e pegada quafi como barro , e efta he a mais propria para abundante producgao de vinho ; por- que , recebendo em 11 as aguas do Inverno , fecha com o Sol a fua fuperficie \ e nao deixando penetrar o calor , , conferva por mais tempo a humidade proxima as raizes das vides : em outras partes he de c6r como cinzenta , | e he menos pegada ; efta produz o vinho em menos \ quantidade, e de melhor qualidade , porque ^ calor pe- netra mats a raiz , e faz que os fuccos fejao em menos j quantidade , e mais purificados , e perfeitos : cm outras | partes he quafi preta , e folta ; efta j por falta de faes pfoprios J produz pouco vinho , e mao > e as plantas fao nella duraveis : todos os outeiros , em que he formado o terreno , fao desde a fua raiz abundantilTimos de pe- ara , a que vulgarmente chamao louzinha > muito pro- pria para facilitar a plantacao das vinhas , porque facil- mente fe fepara da terra e'm pequenas porjoes de figu- ^a irregular, accommodada para fe conftruirem os geios de parede , em que fao formados quafi todas as vinhas j o que he necelTario para nao correr a terra aos valles , attendendo a inclinacao do terreno, e faz todo o terri- torio mais viftofo , porem muito pouco capaz para edi- Jicios , porque he muito mole : toda formada em folhas , que lem difficuldade fe apartao humas das outras : he psquena , e difficultofi/hmamente fe reduz a figura rcgu- iar J porque ao picar aparta , quebra , ou fe desfaz , e Ae reduz tacilmente em terra : nao liga bem com a cal , e pof ECONOMICAS. 41 # por 1(^0 tios cdificios fe aflcnra toda com barro nmaA fado , ficando os edificios de liuma mediana durajao , e inuito fujeitos a ruina , fe falta o cuidado de Ihe evitar a agua das cliuvas. Ha tambem nefte mefmo Territorio niui- tos mineraes ileferro , e caparroja , de que fao indicio as ir.uitas fontes marciaes que nelle fe er.contrao , algumas das quaes fao de muito preftimo , como fe dira nos feus Jugares : tambem alguns de azougue , e outros de enxo- fre , e falitre , como o indicao as aguas thermaes , de que em feu iugar fe fara menjao. Algumas memorias an- tigas dlzem , que no leito , e margcns do rio Douro ha abimdancia de ouro ; porem hojc nao apparece indicio ai- gum , per onde fe poifa ter iflo como certo , fuppofto que no Gabiuete do Conde de Aliumar , primeiro Marquez de Alorna , fe moftralTe hum grao de extraordinaiia grandeza , que fe dizia fer produzido nefte rio : o certo he que , fe o o ha , he impollivel aproveitalJo , porque a fituacao do rio , a fua profundidade , a precipiraga6 da fua corrente, e as muitas ribeiras que o engroffao , fazem im.praticavel o eftancallo : o acafo tern manifcftado algumas pedras ti- nas J como em feu Iugar fe dira : o cryjlal tambem ap- parece , principalmenie nas extremidades delle Territorio junto as i'crras ; acha-fe em pequena grandeza , porem muito claro , e brilhante , de maneira , que ainda mef- mo antes de puUido moilra muito fcgo , e luzimento. Suppoito que efte Territorio he todo atraveflado por mui- tas ribeiras , he muito falto de aguas , terdo apenas as que Ihe baftao para o ufo dos viventes. As que correm nas ribeiras de pouco mais fervem do que para algims moinhos , e para algumas pequenas porcoes de pomarcs , e hortas , o que ainda he raro , porque correm tao fun- das , e defpenhadas , e as margens fao ta6 inclinadas , que nem a fitua5a6 do terrcno , nem a precipiiajao das aguas dao Iugar a indullria para as aproveitar. As fon- tes nao fao frequentes , e quafi todas em ma ordem , porque os habitadores fe contcntao de as receber como a natureza Ihas ofFerece , fabricando-ihe ao muito hum lorn. 111 F re- 4i Memorial refervatorlo cavado na mefma terra , e gusrnecldo de lajes , em que , a maneira de pofo , eflao depofitadas as aguas que vao fahindo ou do fundo , ou de algiuii lado do mei\no refervatorio ; por iflb fao de ordinario as aguas pouco Jimpas , porem a excep^ao das que naf- cem proximas a huma e outra margem do Douro, fao" faudaveis , e de bom fabor. Se a induftria , e cuidado , com que na Provincia do Minho fe tern procurado def- entranhar as aguas da terra por meio de extenias mi- nas , palfalle aos habitadores do Alto-Douro , teria o feu Tcrrltorio abuiulancia de agua , e teria com ella o que Ihe falta , para competir em belleza , e agrado com qual- quer bom paiz da Europa. A fituajao do terreno diffi- culta muito o haver boas eftradas ; porem os meios , com que a induftria poderia emendar muito efte obftacu- lo da narureza , tcm-fe ate efe anno de 1782 defprezado to- dos : he verdade que os grandes , e fucceflivos declivios em- baiafao que haja boas eftradas, devendo fer quafi todas mui- to inclinadns J mas he certo que fe podia adofar efta incli- nagao por meio de grandes voltas ; ifto he , o que fe nao tern feito , e a intentar-fe , eneontraria a refiftencia dos fenhores das terras , que nao quereriao os feus predios divididos pelas eftradas , antes , quando os tern planta- do , tern hido lancando as eftradas ao lado que ihe fica nienos incommodo , e que de ordinario he o mais incli- nado , deixando-as ao mefmo tempo tad eftreitas , que em grande parte delias nao podem pallar no mefmo tempo Juun carro por outro , nem ainda huma cavalga- dura por iium carro , o que faz muito penofo , e diffi- c.il o tranfporte necelUirio dos vinhos : alem difto ,. nao fao caliy'adas ;, e por iiTo as que fao ladeiras , pela conti- nuacao das correntes das aguas , fe fazem quafi impra- ticaveis y e alguns pequenos efpacos , que le encontrao pianos , turmao aroleiros , que nao fervem de mcfios em- bara^o. Huuia providencia que emendafle eftes defeitos das eftradas , difficultoia , mas poiTivel , e que facilitai- fe OS tranfportcs ,, feria de gra'nde vantagem para os la- vra- ECOMOMICAS. 43 vradores , e para os commerciantes , que todos padeccm pela necefHiria retardajao das carre/rajoes dos vinhos , e pela difficuldade de conduzir com largueza miiitos ge- neios que da Cidade do Porto fe podiao navegar pelo rio Douro , c que nao podem ficar a bom preco pelas difficuldades da condujao de terra. C A P I T U L O III. Defcrip^ao particular do terreno , que fica entre os rios Teixeira , e Sermanba. OTerrcno , que fica entre os dous nos Teixeira , e Sermanha , he o ultimo da Coda Septentrional do rio Douro , em que ao Poente l"e termina o dellricio de- marcado para o negocio da adminiflrajao da Companliia Geral da Agricultura das vinhas do Alto-Douro , que pe- ja mefma parte do Poente fica terminado pclo rio Tei- xeira , que tern a fua origem na Serra da Teixeira , e corre quatro leguas , vindo defemboccar no Douro abai- xo de B.irqueiros : do Norte pela Serra da Teixeira , que he hum lamo da do Marao , e pelo rio Sermanha, que nalce na Seira de Vinhoz , ramo da meima , e que , formando huma curva , o vem cercar pela parte do Naf- cente _, ate fe metter no Douro defronte do Moledo , depois de ter corrido mais de quatro leguas ; da parte do Sul fica confinando com o rio Douro : tem de Naf- cente a Poente huma Icgua na fua maior extenfao , e do mefmo modo de Norte a Sul legua e meia. Comprchen- de efte deftricfto as Freguezias de Barqueiros , Villa Jo- zao , S. Nicolao de Mezao-frio, Villa Marim , Gidade- Ihe , Sediclos. Barqueiros he a primeira Freguezia , que fica na ponta que faz o rio Teixeira com o rio D('U- ro ; e ficando cercada por ambos , fo do Norte cnrfina com a de Villa Jozao : produz vinho de ramo inferior , algura azeite , caftanha , e pa6 ; a cultura do qual fe po- F ii dia 44 M E M O R I A S dia adiantnr : (e:n i(|)090 almas em ^70 fogog. Ao Nor- te de Barqiieiros fica a Freguezia de Villa Jozao , que do Naicente confiiia com o rio Doiiro , do Poente com o rio Teixoira , e do Norte com a Freguezia de S. Ni- colao de Mezao-frio : produz para a parte do Douro vinho de feitoria ordinario , e para a parte do Teixei- ra algum d^ ramo : iiefta Freguezia a borda do Douro fica fituada a quinta chamada do Chaves ^ aonde , andan- do-le a poucos annos abrindo a terra para plantar bace- lo , fe achou hum pequeno receptaculo , em que eftava huma porjao de pedras miiidas , que tinhao diatanidade , e moitravao cor azul , as quaes depois de puIJidas fica- vao em tudo femelhantes a fafiras : tem efta Freguezia 134 almas. Ao Norte de Villa Jozao fica a Freguezia de S. Nicolao de Mezao-frio , que do Poente confina com o rio Tejxeira , do Norte , e do Nafcente com a Freguezia de Santa Chriftina da mefma Villa de Mezao- frio : produz para a parte do rio Douro algum vinho de feitoria ordinario , e para a parte doTeixeira de ramo de huma mediana bondade j produz azeite , e algum pao : tem 407 almas em 118 fogos. Ao Norte, e Nafcenre defta Freguezia fica fituada a de Santa Chrillina da mef- ma Villa , que defcendo ate o Douro comprehende o lu- gar da Rede , e parte do da Ribeira : confina pclo Nor- te com a de Villa Marim , e tambem pelo Nafcente j pelo Sul com o rio Douro , e pelo Poente com a Serra Varge : produz vinhos de feitoria de boa qualidade , e em muita abundancia , fendo a terra tao forte , e tao fertil , principalmente no lugar da ribeira junto ao Dou- ro , que meiW) por entre as vinhas fe femea com pro- veito milho groflb. Parte defta Freguezia he hum dos fi- tios mais agradav^eis , que fe encontrao no Alto-Douro : ella tem junto a borda do rio huma confideravel exten- jao de terra quafi plana , toda plantada , e fobre efta fe entra a elevar huma cofta nao muito inclinada , e em que eftao os lugares da Ribeira , e da Rede, e em que ic vem muitos pomares de efpmho , regados com baf- j tan- E C N O M I C A s. 45^ trr.te 3,?Jiia de huma ribeiva , cue delce de Villa Marim , OS quaes produzem fruclas , que em nada cedem as de Loures , e das bordas de Liiboa , e alem difto mui- tas arvores de frurtas de pevide , e de carogo , de ex- cellente labor . tern tanibein rauito clival , em que fe co- Jhe baftanre azeite : tern 512 almas em 124 fogos. Ao Norre de Santa Chrillina tica liruada em hum elavado outeiro a Freguezia de Villa Marim , que tambem def- ce ate o Douro , e comprehende ametade do lugar da Ribeira : ccmfina pelo Norte com a Freguezia de Sedie- los , pelo Nalcente com a de Cidadeliie , pelo Sul com o rio Douro , e Freguezia de Santa Chrillina , e pelo Poente com a de Teixeiro ; produz muiro vinho de fei- toria de boa qualidade para a parte do Douro , e para a do Poente algum de ramo : produz azeite , caftanha , pao , e tern creacao de gados ; tem i(|)oi2 almas em 211 fogos. Ao Norte de Villa Marim efta a Freguezia de Sedielos , que pelo Poente confina com a de Teixei- ro ; pelo Norte , e Nafcente com o rio Sermanha , e pe- lo Sul tambem com a Freguezia de Cidadelhe ; para a parte do rioSerm-anha produz algum vinho de ramo bom , rodo o mais he verde , produzido em chantoadas : pro- duz tambem caftanha, e pao , na cultura do qual pude- ra haver maior cuidado ; tem creajao de gados , e tem i^jK} almas em 627 fogos. Ao Sul de Sidielos efta a Freguezia de Cidadelhe , que do Nafcente coniina com o rio Sermanha , do Sul com o rio Douro , e do Poen- te com a Freguezia de Villa Marim : produz vinho de feitoria de boa qualidade , bom de ramo , e algum azeite j tem 390 almas em 114 fogos. CA- 4^ M E M b R I A s C A P I T U L O IV. Defcrip^ao particular do Terreno , que fica entre OS rios Sermanha , e Corgo. PEgado ao fobredito terreno para o Nafcente na mef- ma cofla Septentrional do Douro fe fegue o que efta lliuado entre o fobredito rio Sermanha , e o rio Corgo , que peJa parte do Poente confina com o dito Sermanha, e com as raizes da Serra do Marao , pela parte do Nor- te com a PVeguezia de Trogueda , com o rio Sordo , e com o rio Corgo , que correndo obliquamente , o cerca pelo lado do Nalcente ate defemboccar no Douro , e pelo Sul he terminado pelo Douro : nefte terreno fe in- due toda a terra de Penaguiao , que tem de Norte a Sul na fua maior extenfao mais de duas Icguas e meia , e de Nafcente a Poente mais de legua e mela. Comprehende as Freguezias de Fontilas , Oliveira , Moura-morta , Me- droes , Pontes, Fornelos , Cumieira , Cever, S.Miguel, Lobiigos , Pezo da Regua , Godim , Loureiro , e Sa- rhoane. A primeira Freguczia , que fica ao Nafcente c o rio Sermanha a borda do Douro , he a de Fontclas , to- da montuofa ; he fitio muiro quente , a terra he muito apertada , e de pouca producjao : produz vinhos de fei- toria finos , e iiiperiores a quafi todos de Penaguiao : tambem produz algum azeite , e boas fruftas. Na mar- gem do Douro , fora da quinra chamada do Granjao , ha huns banhos de aguas Caldas , que vulgarmente fe chamao do Moledo , tomando o nome de huma }X)voa- fao , que fica quafi defronte na outra parte do Douro : em quanto efte rio vai cheio , ficao os banhos cubertos de agua ; depois que diminue o rio no verao , fica def- cuberto o fitio dos banhos , e brotando por entre o caf- calho aquellas aguas thermaes. Aonde brotao cava-fe a terra para formar os poj os , em que fe hao de toniar os ba- E C N O M I C A. S. j^J. hrnhos , fazendo-fe fobre ellc? cabanas para a ccmrnodl- dade , e reparo de qiicm os toma. De ordinario fe abrem tres banhos , hum ballantemente quente , porem Ibffrivcl para banho , outro menos quente , e outro morno : as fuas aguas fao de muito preflimo , principalmente para queixas de nervos , e rheumaticas , e ainda mefmo para a gotta : eu lei com a maior certeza quern experimen- tou nellas Jium inefperado beneficio , pois , fazendo ufo deftes banhos por caufa de hum rheumatifmo , de que fe achou bom , fentio rcpentinamente reflabeiecida a vil- ta de hum dos olhos , em que desde tenra idade expe- rimentava falta della : a muita concorrencia de gente , que fe aiunta a eftes banhos , tem feito cuidar de algum modo na commodidade, que totalmente faltava para os enfermos , fendo aquelle fitio defpovoado , muito diflan- tc de povoajoes , e muito ardente ; e nao havendo nel- le mais que duas cafas de quinta pequenas, e incommo- das : na quinta do Granjao fe fez hum hofpicio com do- ze quartos feparaJos fobre fi , com huma cozinha para cada feis , para fe alugarem ; e como efte , fuppofto te- nha a commodidade de ficar muito proximo aos banhos , fica muito expoilo ao Sol , e padece muita falta de agua boa , por efta caufa fe fez outro em huma quinta da outra bai^da do Douro , que compenfa o incommo- de da paflagem do rio com as commodidades de eftar em hum fitio frefco , e agradavel , e ter perto huma muito boa fonte de agua ; tendo ao mefmo tempo por conta do dono do hofpicio huma barca fempre prompta para a paifagem , e i'ervico dos hofpedes ; mas em hu- ma , c oucra he neceifario mandar vir de longe todas as provisoes necelTarias , por nao haver perto aonde fe comprem. Efta Freguezia , que pelo Norte confina com a de Oliveira , pelo Naicente com a de Godim , pelo Norte com. o Douro , e pelo Poente com Sermanha , tem 603 almas em 156 fogos. Ao Norte defta Fregue- zia fica a de Oliveira , que da parte do Poente confina com rio Sermanha , pela do Norte com a Freguezia de 48 Memorias de Moura-morta , e pela do Nafcente com a do Loii- reiro : efta fituada no principio de Jiuma pequena Ser- ra , que corre at6 Moura-morta , e a divide de Lourei- ro : produz para a ribeira do Sermanha , e para a par- te do Douro algum vinho de feitoria de huma mediana bondade , e tambem produz vinhos de ramo ordinarios , algum azeire , callanha , e boas frucftas de toda a quali- dade : tem iiuma grande extenfao de terra inculta , que i'6 produz hum pequeno matto , e que , fendo femeada de pinhaes , poderia remediar a grande falta que pade- ce de lenhas , e madf^iras de conltruccao : tem 515' al- mas em 130 fogos. Ao Norte da Freguezia de Olivei- ra fica a de Moura-morta , que do Poente confina com o Sermanha , do Norte com a Freguezia de Medroes , e do Nafcente com a de Loureiro : eda fituada na mef- ma Serra , no principio da qual efta Olivdra i para a ribeira do Sermanha produz vinho de ramo , no reUo produz azeite , caftanha , e algum pao : tem crea^ao de gado , que podera augmentar-ie muito , fe nos monra- dos que tem incultos fe femearem algumas boas pafta- gens , como fao o trevo , a larica , a fenradela , que ie produzem muito bem fern agua , ou quaesquer outras da mefma natureza , e proprias para alimento dos ga- dos : tem 398 almas em 120 fogos. Ao Norte d efta Fre- guezia de Moura-morta efta fobre hum alto fituada a de Medroes , que do Poente confina com a Ser- ra de Vinhoz , do Norte com a freguezia de Fontes , e do Nafcente com as de Sanhoane , e Cever : he mui- to montuofa ; produz vinhos de ramo de huma mediana bondade , algum azeite , caftanha , e pao : tem 5^00 almas em 140 fogos. Ao Norte de Medroes efta fituada a Fre- guezia de Fontes na ladeira de hum monte : confina pe- Jo Poente com a de Fornelos , pelo Nafcente com a de Cever , e pelo Norte com o rio Banduge : he muito montuofa ; os vinhos da fua producjao forao demarcados para ramo , porem muitos delles fao finos , e muito bem podiap fuftentar o embarque : alem de huma confidera- vel ECOHOMIC AS. 49 vel colhelta de vinhos , produz azeite , caftanha , e boas frudas : tem i^i5'4 almas em 287 fogos. C A P I T U L O V. Continua^ao da mefma materia, * A O Poente de Pontes fica a Freguezia de Fornelos X\. fituada na baixa de hum alto monte , efta confi- nando com a Serra do Marao , e com a Freguezia da Comieira : produz bom vinho de ramo , algum azeiie , e caflanha : tem 380 almas em 105" fogos. Ao Nordelle de Fornelos fica a Freguezia da Cumieira , que pelo Poente confina com a Freguezia de Torgueda , pelo Nor- te com a ribeira do Sordo , que tendo o feu nafcimen- to na Serra do Marao , depois de correr pelas extenlas planicies da Campeao , fe efconde por hum grande ef- paco debaixo da terra , e torna a apparecer , banhando hum lado defta Freguezia , ate defemboccar no rio Cor- go \ pelo Nalcente com o rio Corgo , e com a Fregue- zia da Hermida , que comprehende ainda algumas terras da Gaivofa j e pelo Sul com o rio Banduge , que nafce en. huma ponta da Serra do Mara6 , e correndo por cn- tre as Freguezias de Forndos , e Fontes , Cumieira, e Cever , vai defemboccar no rio Corgo : produz huma grande quantidade de excellentes vinJios de embarque , OS quaes fe deftinguem pela fua fortaieza , e cor : alguns terrcnos ficarao excluidos para ramo, que produzem vi- nlios finos , e capazes de embarque : produz tambem abundancia de azeite , principalmente na coda desde a ribeira do Sordo ate ao lugar de Silhao : nos alros pro- duz alguma caftanha. Junto a ribeira do Sordo tem pra- dos fertiliflimos , regados com agua da mefma ribeira, que no inverno fe occupao com hcrva molar para o? g^- dos , e de verao fe coljie nelles abunda;icia de millio grolTo : do lado do Sul tem huma extenfa planicie jun- Tom. IIL G to 5*0 Memorias to ao rio Bandage , em que efta fituado o lugar da Vel- ga , que produz huma abundante colheita de todas as eipcjies , na qual eftao algumas vinhas , que produzem vinho iiiFerior , e que deverao arrancar-fe para nellas fe cultivar pao : nefta Freguezia ha baftanre cuidado de aproveitar o iiimagre que a terra efpontaneamente pro- duz : tern 866 almas em 225" fogos. Ao Sul da Cumieira efta a Freguezia de Cever , que do Poente confina com as de Fontes , e Medroes , do Nafcente com o rio Cor- go , e do Sul com as Freguezias de Lobrigos , e S. Mi- guel : produz vinhos de embarque de boa qualidade , al- guns de ramo , c azeite : tern 6^^ almas em 181 fo- gos. Ao Sul de Cever efta iituada a Freguezia de S. Mi- guel , que comprehende a Villa de Santa Martha , ca- bsfa do termo de Penaguiao ; confina pelo Poente com Medroes , e Sanhoane , do Nafcente , e Sul com a Fre- guezia de Lobrigos : os vinhos que produz , fuppofto que licdrao todos dcmarcados para embarque , a excepjao dos que fe produzem para a parte do lugar de Santa Comba , todos os mais fao vinhos inferiores , principal- mente os do Valle de Santa Marta , que ate feriao maos para ramo pela fiia froxidao , e infipidos ; e no cafo de fubfiftir a demarcacad , deveriao cortar-fe as vinhas bal- fcir/is defte Valle , por nao haver outro meio proprio para evitar a miftura defte mao vinho com o outro me- nos rnim , c porque efta terra podia utilmente deftinar- fe para a cultura do pao , do azeite , e de pomares : tern 428 almas em 114 fogos. Ao Sul de S. Miguel ef- ta fituada a Freguezia de Lobrigos , que pelo Poente confina com a dc Sanhoane , pelo Nafcente com o rio Corgo 5 e pelo Sul com a Freguezia do Pezo da Regua : tern efta Freguezia huma grande producjao de vinhos de embarque , os quaes para a parte do rio Corgo , e lugar de Villa-maior fao linos y os mais fao ordin<.uios , e os que fe produzem no grande Valle, que corre pelo meio defta Freguezia , fao muito inferiores , e quali ef- tao nas raefmas circunftancias dos que fe produzem no Val- EcoNOMicAs. ^r Valle de Santa Martha : tambem produz cfla Freguezia algum azeite , e muito boas fruflas em abundancia : tcm 750 almas em 185" fogos. Ao Sul de Lobrigos efl;;i fi- tuada a Freguezia do Pezo da Regua , que pelo Poc )te coniina com a de Godim , pelo Nafceiue com o rio Cor- go , e pelo Sul com o rio Douro : produz muitos vi- nhos de embarque finos, e de graiide eftimajao pela fua fortaleza , groftura , cor , e madureza temperada , e tam- bem produz algum azeite ; padece grandc falta de aguas para o ulo , e muitos annos he necelFario no ve.ao ir bufcalla ao Douro : tern hum grandc caes na borJa do Douro , que he onde fe embarcao a maior pane dos vinlics de todo o Penaguiao , e aonde fe defcarregao mui- tas fazendas , que vao do Porto , para o que ha muitos armazens que eftao no lugar da Regua , junto do mefmo cacs : tern 1(^040 almas em -^i^ fogos. Ao Pocnte do Pi zo da Regua efta a Freguezia de Ciodim leparada pe- la ribeira de Jugueiros , que do Sul confina com o rio Douro , do Poente com as Freguezias de Fontelas , c Oliveira , e do Norte com a de Loureiro : o fitio he o niais agradavel que tern toda a beira do Douro nefte Terrirorio , e fe aproveita por muita genre pelo feu agra- do , commodidade , e boa temperatura do ar , para to- mar os banhos da agua do Douro no tempo do verao , jia cofta que fobe para Font<^las , e para Oliveira : pro- duz bom vinho de embarque ; o que fe produz nas bai- xas he inferior , e ainda o era mais o que fe produzia nas baixas para a parte da ribeira de Jugueiros , que pe- lo § 2 do Alvara de 16 de Dezembro de 1773 ^^ m-^ri- dou arrancar ; tern muitos olivaes que produzem abun- dancia de azeite , e nos lodeiros do rio Douro , que de "verao ficao defcubertos , fe produz com grande fertilida- de milho groflb , milho ruivo , e feijoes : tem 98;^ al- mas em 282 fogos. Ao Noroefte de Godim efta a Fre- 'guezia de Loureiro , que confina pelo Poente com a de Moura-morta , pelo Norte com a de Sanhoane , e pelo Nafcente , e Sul com a de Godim : produz bom vinho G ii ^ . de S'l Memorias de ramo , cadanha , e algum azeite : tern 85'6 almas em 228 fogos. Ao Norte de Loureiro flea a Freguezia de Sanhoane , que do Nafcente confina com a de S. Mi- guel , do Norte com a de Cever , e do Poente com as de Medroes , e Moura-morta : produz vinhos de embar- que de huma mediana bondade , e de ramo quafi tao bom , como os de embarque ; algum azeite , caftanha , c boas frudas : tern 513 almas em 123 fogos. C A P I T U L O VL Defcrip^ao particular do Terreno , que fica entre rio Corgo , e Ceira^ PAra o Nafcente do fobredito terreno do mefmo la- do Septentrional do rio Douro ella fituado o que jaz entre os rios Corgo , e Ceira , que ficando limitado do Poente pelo primeiro , e do Nafcente pelo fegundo , con- fina pelo Norte , desde Villa Real ate Roalde , com as Freguezias de S. Martinho de Mattheos , Royos , Con- llantim , e Andraes , e pelo Sul com o rio Douro : tem de Norte a Sul na fua maior extenfao mais de duas le- guas , e de Poente a Nafcente quafi o mefmo : compre- hende as Freguezias de Folliadella , Hermida , Nogucira > Abaffas , Gnaes , Galafura , Covelinhas , Poyares , Vilia- rinho dos Freires , e Alvagoes do Corgo : pdde affir- mar-fe feguramente , que efte terreno he o que produz OS vinhos mais fnos , e delicados de todo o Alto-Dou- ro ; a fua terra he menos produdtiva , porem a natureza compenfa com a bondade dos frudlos a falta de abun- dancia. A primeira terra que fica ao Norte defle terreno junto ao rio Corgo he a Freguezia de Folhadella , que pelo Poente he toda banhada pelo mefmo rio ; peJo Sul confina com a Freguezia da Hermida ; e pelo Nafcente com a Freguezia de Nogueira , c com terras que nao en- trad nefta defcripjad : produz para as beiras do Corgo vi- E c N o M I c A s. .5'3 -vinlio de embarque bom , e nos altos , e no liigar de Sabroib produz vinhos de ramo , alguns dos quaes fao bons : produz pao de todas as efpecies , e caftanhas : tern algum gado miudo , e largueza para os paflos : tern 806 almas em 2:55' fogos. Pclo Sul de Folhadella fica a Fre- guezia da Hermida , que pelo Poente confina com a da Comieira , comprehendendo ainda da outra banda do Cor- go o firio da Gaivola ate a foz do rio Banduge , da parte do Sul com a de Alva96cs , e pela do Nafcente com a de Nogucira : produz vinhos de embarque muito finos , efpecialmente os dos fitios da Gaivofa , e da Mou- rifca : os vinhos que fe produzem nos altos do lugar da povoacao , e nos lugares do Valle , e Carrazedo , que fo- ,ra6 deftinados para ramo , lao linos , e muito capazes de embarque: produz azeite , e frudias mui delicadas , que fe anticipao as das outras terras em amadurar , e tern huma grande extracfao para Villa-Real : aproveita- fe nella Freguezia o fumagre com todo o cuidado ; e ha no lugar dc Carrazedo huma atafona para fe moer, e prcparar , que ferve de feitoria , onde os compradores fazem as fuas carrega^oes : tem algumas pequenas por- q6es de mattos incultos , que fo fervem para plantacao de vinhas : tem 494 almas em 127 fogos. Ao Nafcente dcfta Freguezia fica a de Nogueira , que pelo Norte con- lina com a dc Folhadella , pelo Sul com as de Alvaf- soes do Corgo , e Villarinho dos Freires , e pelo Naf- cente com o rio Tanha , que a divide da Freguezia de AbafTa : tem huma abundante produccao de bons vinhos de ramo : a terra he muito fertil j produz azeite , que fobeja muito do confammo da terra , principalmente no lugar de Tanha : produz algum pao , caftanha , e fuma- gre , que fe aproveita : tem 5-^4 almas em 160 fogos. Ao Nafcente de Nogueira , feperada pelo rio Tanha , lica a Freguezia de Aballas , que do Norte confina com la de Andraes , do Nafcente com a de Guiaes , e do Sul ■com a de Poyares , na cofta que defce para o Tanha , efpecialmente' na ribeira , em que efl^ o lugar dc Villa- ri- 5*4 Memorias rinho , produz vinhos de ramo muito fuperlores em bon- dade a muitos dos que ficdrao na demarca^ao de embar- que , nas ribeiras mais do alto produz vinhos de ramo ordinarios , e nos altos dos lugares de Abaflas , FontL- lo , e Bujaos produz vinhos verdes , e inferiores , que a Companhia toma a 6(i)^\oo reis cada pipa , e muitos del- Ics carrega para as tavernas do Porto , que lotados com cutros de maior bondade , Ihe produzern baftante lucro. Ainda por clle pequeno pre^o faz conta aos lavradores defta Freguezia a confervajao das vinhas dcfta qualida- dc pelo methodo de cultura , que permitte a fitua^ao do terreno. Eilas vinhas fao plantadas em bardos \ iflo he , carreiras de vinha com difiancia de duas varas , ou mais de humas carreiras as outras ; fao lavradas com arado , e na terra dos claros fe Ihe lemea pao : as vides andao levantadas em chantoes altos , e produzern copiofifTima- mente , de forte , que fe a terra foife toda plantada de vinha no modo ordinario , e cultivada ao enxadao , fe- ria muito maior a defpeza da cultura , e menor a pro- ducjao. Produz muito azeite , que fobeja em grande quan- tidade do coniummo da terra , baflante pao , e caftanha , e tern creajao de gado : efta , e a cultura do pao fe poderia augraentar muito , fe os mattos , que rem com baftante largueza , foifem femeados de bom tqjo , que he bom pafto para os gados , e da mais ahundancia de ef- trumes. Para executar-fe cfte projciflo , de que fe tiraria baftante utiiidade , feria necelfario apartar o gado por alguns annos , por fer damnofo a efta fementeira em quanto o tojo nao efta fenhoreado da terra com abun- dancia de raizes , e nao tem iido cortado ao menos hu- ma vez- Alguns deftes mattos podiao fer femeados de giefta mifturada com o tojo , ou feparada , porque tam- bem produz muito , e bom eftrume j e ifto he de que carece efta Freguezia para fomentar a cultura do pao : o fumagre aproveita-fe , e no lugar de AbaftTas ha huma atafona para fe preparar. A muita largueza de terras in- cultas , que tem efta Freguezia , permittia que efte gene- ro EcoNOMicAs. 5'5r ro fe niigmentaffe pcla fementeira , e culiura : tem 682 alinas em 208 fogo?. C A P I T U L O VII. Continua^ao da mefma materia. AO Nafcente de Abaflas efta a Freguezia deGuiacs, i]iie pelo Norte confina tambem ccm a melma , do Narcentc com o rio Ceira , e do Sul com a de Galafu- ra : produz vinhos de embarque , dos melhores do Alto- Douro , efpecialmentc nos fitios chamados Parareita , Val d'amieiro , e Caflello. Muitos vinhos ficarao ex- cluidos para ramo , luperiores em bondade a maior par- ; te dos de embarque de Penaguiao , principalmente os que fe produzem a vifta do rio Ceira da quinta de Muro para fima ; os que produz nos altos lao muito bons : produz muito azeite , que fobcja do confummo da ter- , ra , callanha , e baftante pao , que para augmento da i'ua cultura neccflitava da mefma providcncia para eflrumes, que fe lembrou para a Freguezia de Abaflas : tambem ' aqui fe aproveita o fumagre. E havia nefta Freguezia , conimodidade para huma grandc crcajao de bichos da jfcda, fe houveffe o cuidado de fazer planta^ao de amo- reiras , que podia fazer-fe em grande niimero pelas bor- das de ribeiras , fern damno de outra alguma producjao. O lugar de Guiaes lie falro de agua , podendo ier abun- dantiffimo, fc cs feus habitadores rivelTem o cuidado, e a coragem de a procurar na encolla do monte de Nofla Senhora da Guia , no fitio que chamao Barros iwgros , onde ha todos os indicios de haver grande copia della. A cxecujao defte projetfto feri'a baftante difpendiola , porem o intcrefl'e excederia muito a proporjao daqueJla defpeza ; porque daquelle fitio ficava cobrindo huma muito grande cxtcnfao de boas terras , e conduzida at6 ao poYO , fiiria que elk , pellas excellentes hortcs;, e po- rn a- $6 Memorias mares que podiao formar-fe , ficafle fendo o jardim do-: Alto-Douro. He , proporfao guardada , huma das terraS;, mais producftivas do Reino. Para executar-fe efle proje- (fto fern rifco de fruftrar-fe grandes defpezas , deveria abrlr-le hum pogo no fitio da maior probabilidade do nafcimenro da agua , e delle extender-fe alguns brafos de ttiina para todos os lados a encontrar as veas de agua ; e achando-fe que a quantidade correfponde ao que fc prefume pelos indiclos , profeguir nas mais operacoes necelTarias para applicalla as terras mais convenientes , e conduzilla ate ao povo , porque a altura do fitio , em que devera fer bufcada , pcrmitte huma utiliffima appli- cacao. As fruiflas defta treguezia fao de hum excellen- te fabor , e a terra he fertil : no fitio que chamao Rel- "va , tern huma fonte que brota da terra , e efta muito mal tratada ; as fuas aguas fao ferreas , e de huma for- 5a extraordinaria ; lancando-fe a galha , em menos de dous irinutos faz tinta C3paz de efcrever ; a fua virtude para corroborar , e defobftruir a fvz digna de fer procurada , e tratada com decente beneficio : tem 5'97 aimas em 187 fogos. Ao Sul de Guiaes eili a Freguezia deGalafura, que do Nafcente confina com o rio Ceira , do Sul com a Freguezia de Covelinhas , e do Poente com a de Poya- res. Pdra a parte do rio Ceira , no fitio chamado Sider- ma , produz vinhos de embarque finiilimo j no rello pro- duz vinhos deftinados para ramo , muiros dos quaes fer- vem muito bem para embarque : produz mais ozeite do que o neceflario para a terra , pao , c alguma callanha : tem crea^ao de gado ; e a refpeito dos mattos para ef- trumes , efta nas mefmas circunftancias da Fieguezia de Abafi^as. Aproveita-fe o fumagre , que produz: e tem ca- pacidade para plantagao de amoreiras. Neita Freguezia fe acha azougue ate mefmo ao abrir dos alicerces para as cafas , porem nao fe aproveita. No monte de S. Leo- nardo ha humas cavernas de grande altura , que moftrao fer abertas a mao ; nenhuma memoria exifte do fim pa- ra que foi feita efla obra , para que liaviao de fer ne- cef- I I E C O N O M I C A S. (^7 ceflarias grandes defpezas , he de prefumir que foi para extracjao de algum mineral , de que hoje nao apparc- cem vefligios : rem 390 alma? em 120 fogos. Ao Sul de Galafura Hca a Freguezia de Covelinhas , que do Naf- cente confina com o fitio da Sidcrma , e foz do Ceira , do Sul com o rio Douro , e do Poente com a Fregue- zia de Poyarcs. Produz muito bons vinhos , parte dos quaes forao deftinados para embarque , e parte forao cx- cluidos para ramo com muita injuftija : produz algum azeite , e frud:as deliciofas- Tern baftantes porgoes de mattos incultos , que id iervem par.i vinha , e nao faz conta aos donos plantallos })or eftarem nos Utios exclui- dos para ramo , e a iua produc^ao nem chegaria para as defpezas da cultura , attendendo aos pequenos prejos , e a pouca fertilidade. Tem hum caes , em que fe carre- gao muitos conduzidos por huma eilrada , que parece impraticavel para carros. Tem 165" almas em 5-0 fogos. Ao Poente de Covelinhas efla a Freguezia de Poyares , a qual comprehende em fi a Villa de Canellas , pelo Sul confina com o rio Douro , pelo Poente com o rio Cor- go , e a Freguezia de Villarinho dos Freires , pelo Nor- te com as dc Abail'as , e Galafura. A' borda do Douro, desde a ribeira de Covelinhas ate a foz do Corgo , pro- duz OS vinhos melhores , e mais finos de todo o Alto- Douro : OS altos das coftas que aviftao o Douro ficarao excluidos para ramo , produzindo vinhos finos , e capa- zes de embarque : nos mais fitios altos produz vinhos de ramo ordinarios , e alguns infericres em bardos para o lugar de Villa-fecca : produz baftante azeite , muito pad , para a cultura do qual feriao neceflarias as mel- mas providcncias , que ficao lembradas para a Freguezia de AbalTas : produz caftanha , e tem gados : tem 1(^)^67 almas em 397 fogos. Ao Poente de Poyares fica a Fre- guezia de Villarinho dos Freires , que pelo Norte con- fina com a de Alvajoes do Corgo , pelo Nafcente , e Sul com a de Poyares , e pelo Poente com os rios Cor- go , e Tanha. Nos lugares da Granja , e Prezegueda- Tom. III. H pro- 5-8 Memohias produz vinhos de cmharque bons , e fortes : as vlnhas dos lugares de S. Xifto , e Alvacoes do Tanha ficarao excluidas para ramo , e a maior parte dos feus vinhos fao finos , e excellentes para embarque : os que fe pro- duzem nos lugares da Seata , e Efcavedas fao muito bons vinhos de ramo : produz ballante azeite , e boas frudlas : tern 6i6 ahnas em t86 fogos. Ao Norte de Villarinho dos Freires fiea a Freguezia de Alvacoes do Corgo , que do Norte confina com a da Hermida , do Nafcen- te, e Sui com a de Villarinho dos Freires, e do Poen- te com o rio Corgo : produz vinhos finos de embarque , e OS de ramo tambem ferviao para embarque : produz muito azeite , boas frudas : tern 396 almas em iid fogos. C A P I T U L Q VIIL Defcripcao particular do Terreno , que Jica eutre OS rios Ceira , e Pinhao. PRoximo ao fobredito terreno para a parte do Naf- cente , do mefmo lado Septentrional do rio Douro ,. efta fituado o que jaz entre os rios Ceira , e Pinhao , que pelo Norte confina com as Freguezias de S. Mar- tinho de Anta , e S. Lourenqo , do Nafcente com o rio Pinhao , pelo Sul com o rio Douro , e pelo Poente com o Ceira : comprehende as Freguezias de Paradella de Guiles , Gouvinhas , Covas do Douro , Goivaes , S. Chri- ftovao , Provezende , Celeiroz , Villarinlio de S. Romao, Pafos , Sabrofa , e Souto-maior : tem de Norte a Sul na fua maior entenfao mais de duas leguas , e de Poente a Nafcente mais ,de legua e meia ; dentro deile terrena he que ie produzem os vinhos brancos do Alto-Douro na cofta do rio Pinhao , desde a foz ate d ponte de Sa- brofa. A primeira Freguezia que fica ao Norte defte ter- treno da parte do Ponte iica feparada da de Guiaes pelo rio ECONOMICAS. 5-5 lio Ceira ; pelo Norte confina com a de S. Martinho de Anta , aonde no lugar de Roalde tern o feu nafci- mento o rio Ceira em huma fonte tao copiofa , que iem fe Ihe ajuntar mais agua alguma faz moer moinhos ; do Nafcente com Serras que a feparao da de Provczende , e do Sul com a de Gouvinhas : produz bom vlnho de embarque nas quintas de S. Cojme , e do Barreiro , que para iflb forao demarcadas : o mais viiilio que produz he de ramo bom : produz muito azeite , que fobeja do confumo da terra , e ciiftanlia : tem Jiuma grande exten- fao de terras de pao , e crea^ao de gado niiudo , e ne- ceflita para feu adiantamento da n-.eima providencia , que fe lembrcu para a Freguezia de Abaflas : aprovei- ta-fe o fumagre , que pudera adiantar-fe iruito , culti- vando-o em muitas terras incukas , proprias para efte ge- nero , principalmente as que ellao nos fitios da Jlguiei' ra , e Val da 'vide : tem 237 almas em 70 fogos. Ao Sul defta Freguezia efta a de Gouvinhas , que do Poen- te corre ao longo do rio Ceira , confinando com a de Galafura , do Sul confina com o Douro , e do Nafcente com a de Covas do Douro. Produz excellentes vinhos de embarque , principalmente os que fe colhem as bor- das do rio Ceira , e do Douro : ;ambem alguns ficarao demarcados para feitoria em terras balfeiras , que apenas feriao bons para rarno : a maior parte dos que ficarao excluidos para ramo tem muito merecimento para embar- que : produz muito azeite , que fobeja em grande quan- tidade ao confummo da terra , mel branco de huma ex- cellente qu^lidade , e de que em muitas partes fe faz grande aprejo , e fumagre que fe aproveita , e pudera adiantar-fe femeando-o nas terras incultas : tem 361 al- mas em 102 fogos. Ao Nafcente de Gouvinhas efla fi- tuada a Freguezia de Covas do Douro , que pelo Sul confina com o rio Douro , e do Nafcente e Norte com a de Goivae . Para a borda do Douro produz vinhos li- nos , a maior parte dos quaes injuflamente ficarao ex- cluidos para ramo ; no refto produz bons vinhos de ra- H ii ino 6b M E M O R T X's mo , multo azeite , e mel da mefma qualidade do de Gouvinhas : no lugar de Donello teni lavoura de pao , e ereajao de gados ; aproveita-fe o fumagre , que tam- bem podia ter o adianramento que fica apontado , per cilar nas mefiiias circunftancias : tern 468 almas em 150 fogos. Ao Nalcente de Covas efta a Freguezia de Goi- vaes , que do Norte confina com a Freguezia de Prove- 2ende , do Sul com o rio Douro , e do Nafcente com a Freguezia de S. Chriftovao , e com o rio Pinliao. Pro- duz para a borda do Dotiro , e do Piniiao bons vinhos de embarque , e nas mefmas codas que aviftao eftes dous rios ficarao 1cm razao alguma excluidos para ramo mui- tos vinhos finos , el'pecialmente os do fitio cliarnado Sagrado ; e de toda a cofla , que defce pelo lugar do Pezinho ate ao Douro , todo o mais que produz he ra- mo de boa qualidade , excepto o branco que le produz |>ai-a a parte do Pinhao no fitio de Vailongo , e dahi para baixo , o qual he para embarque : produz muito azeite , e boas frudlas : tern 32B almas em 86 fogos. Ao Nalcente da Freguezia de Goivaes fica a de S. Chrifto- vao , com quem tambem confina pelo Sul , do Norte con- fina com Piovezcnde , e do Nafcente com o rio Pinhao. Produz vinhos brancos finos de embarque , e os tintos forao excluidos para ramo: produz bailante azeite: tem 1:57 almas em 48 fogos. Ao Norte de S. Chriftovao ef- "ta a Villa , e Freguezia de Provezende , que do Poente confina com a de Paradella , do Norte com as de Ce- leiroz , e Villarinho de S. Romuo , c do Nafccnce com o rio Pinhao. Produz bons vinhos brancos , que fao de /embarque, e os tintos , que fe produzem nas mefmas "vinhas em que fe produzem os brancos , fao excluidos para ramo : produz algum azeite , e algum pao : tem 630 almas em 194 fogos. Ao Norte de Provezende ficao as Freguezias de Celeiroz , e Villarinho de S. Romao , que fazcm hum fo corpo com huma fo pia Baptifmal , confinao do Poente com^ a Freguezia de Palfos , do Nor- "te com a de Sabrofa , e do Nafcente com o rio Pinhao, alem ECONOMICAS. 6l alem do qual comprehende ainda a ccfta chamada Alcin-Pinhao , que confina com Samfins , Favaios , e Val de Mendiz. O vinho branco que produz he de cm- barque , e o time he de ramo : os que fe pioduzem nas ribeiras del'cendo para o Pinliao la6 de boa qualida- de : OS que Ic pioduzem nos altos de Celeiroz , e no lugar de ViUarinho fao inl'eriores , e de ma qualidade : OS que fe produzem na colla de Alem-Pinhao iao finos , c de embarque , tanto os brancos , como os tintos. O lu- gar de ViUarinho he hum dos mais apraziveis do Alto- Douro : tern muitas aguas de rega , que correm peio lu- gar abaixo ; e por ilFo abunda de excellentes tiudias , excepto dc efpinho , porque a terra he fria : produz baf- tante azeite , que Ibbeja do conlummo da terra , e algu- ma caflanha , e pao. Os habitadores de ViUarinho, obri- gados pela faka de lenhas , tern femeado alguns pinhaes , o que podia extendcr-i'e muito por ter grande largueza de montados proprios para iilo. No fitio dos Levados tern huma fonte de aguas ferreas , que nos annos feccos fe fepara bem da agua de hum regato , em a margejn do qual ella nafce : nao he muito forte , mas he bailan- te para com muita continuagao defobftruir , e corrobo- rar ; e tern fervido de bencficio a muita gente. Tem 772 almas em 2^0 fogos. Ao Norte de Villarinlio de S. Ro- mao efta a Freguezia de PalTos , que pelo Poente confi- na com a de S. Martinlio de Anta , pelo Norte, com a de Sabrofa , e pelo Nafcente com a mefma , e com a de ViUarinho de S. Romao. O vinho que produz he de ramo , e a maior parte delle muito inferior , e fo capaz para delHllar. Grande parte das vinhas fao plantadas em terras planas , muito fortes , e que podiao regar-fe , por liaver abundancia de aguas para il1o : feria conveniente que eftas vinhas fe arrancalfem , para na fua terra fe cultivar pao , que produziriao com muita abundancia : tem muita largueza para creajao de gados , que poderia augmentar-fe muito , no cafo de fe melhorar a produc- jao dos mattos , por meio de fementes efcolhidas para pal- 6z Memorias pall-igens , e eftrutnes : produz caftanha , algum azeite , e baas fru«fl.is , principalrnente as do inverno. Tern no lugar de Fermeiuoes huma fonte de aguas ferreas mais forte do que a de Villarinho de S. Romao : muitas pef- Ibas eiifermas concorrem a fazer ufo dellas ; e a expe- riencia tein confirmado a fua for^a , e viitude aperien- te. Tern 809 almas em 184 fogo?. Pelo Norte , e Naf- cente de Paflbs fica a Frcguezia de Sabrofa , que pelo Poente confiiia com a de S. Martinho de Anta , e pelo Njrte com a Freguezia de Souto-maior. Produz vinhos brancos de embarque , alguns dos quaes iao finos , principalrnente os que le produzem para o iitio de /W da porca \ e para a Ribeira do Pinhao os tintos que produz iao de ramo bons : produz algum azeite, e pao. nefta Freguezia efta o pomar de efpinho chamado da Sancha , muito conhecido no Aito-Douro pela fua gran- deza , e excellencia da fua frudla : rem 686 almas em 195: fogos. Ao Norte de Sabrofa efta a Freguezia de Souto-maior , que do Poente confina com a de S. Lou- renjo , do Norte com a de Parada de Pinhao , e do Naf- cente com o rio Pinhao. Para a ribeira defte rio produz bom vinho de ramo : o que produz nos fltos he infe- rior : quanto a produccao de pao , e creajao de gados efta nas mefmas circunftancias que a Freguezia de Paflbs , e pede as mefmas providencias : produz algum azeite , muita caftanha , e muitas frudlas excellentes , efpe- cialmente as de inverno , das quaes fe extrahcm mui- tas para outras terras : tem 472 almas em 150 fogos. C A P I T U L O IX. Defcrip^ao particular do terre?to , que fica entre rio Fitihao , e rio Tua. AO Nafcente do fobredito terreno do mefmo lado Septentrional do rio D^ uro fica immediatamente (i- tuado o que efta entre os rios Pinhao , e Tua , que pe- lo EcONOMICAS. 63 lo Norte fica confinando com as Serras de varlas Fregue- zias , que nao entrao nefta Dejcripcao : do Nafcente he limitado pelo rio Tua , do Sul pelo Douro , e do Focn- te pelo Piahao : tern de Norte a Sul na lua maior ex- teniho mais de duas leguas , e o melVno de Nafcente a Pocnte : contem as Freguezias de Villar de Magada , Samfins , Alijo , Favayos , Vallarinho de Cotas , Calle- do J S. Mamede de Riba-Tua , Amieiro , e Carelao : a primcira Freguezia , que fica ao Norte defte terreno da parte do Poente , he a de Villar de Macada , fronteira a de Souto-maior , Icparadas pelo rio Pinhao : confina pelo Norte com a Freguezia de Trcsminas , pelo Nal- cente com a de Villa-chao , pelo Sul com a de Sam- fins , e pelo Poente com o rio Pinhao. Produz vinhos de ramo excellentes , muitos dos quaes ferviao para embar- que , principalmente os que l"e produzem do lugar de Cabeda para o Pinhao , que alem de ierem finos , iao notaveis pvla iua cor muito cuberra : produz muito azei- te , alguma caftanha , e baitante pao : tern creaca6 de ga- do em aiguns lugares : tern i^ooj almas em 347 fogos. Ao Sul de Villar de Macada efta a Freguezia de Sam- fins , que do Nafcente conhna coni a de Alijo , do Sul com a de Favaios , e fitio de Alem-Pinhao da Fregue- zia de Celeiroz , e do Poente com o no Pinhao* Para as collas que deitao para o Pinhao produz bons vinhcs dc ramo : os que produz nos altos fao muito infei lores , e OS mais delles 16 fervem para deftillar : produz tambem muito azeite , alguma caftanha > e pao : tem 943 almas em 260 fogos. Ao Nafcente de Saaifins fica a Villa , e Freguezia dc Alijo , que do Norte confina com a de Vil- la-chao , do Nafcente com a de Amieiro , do Sul com a do Cartedo , e do Nafcente com a de Favaios. Pro- duz efta Freguezia vinhos de ramo inferiores , e os mais dclles em terras , que fe tem tirado a lavoura do pao : ■ efta Freguezia podia ter hum augmento muito confidc- ravel : a Ilia terra he muito fertil , e cm muita exten- fao : tem aguas de rega , que com alguma delp.cza po- diad 64 M E MO R r A s diao augmentar-fe muito , fazendo-as aproveitar , e buf- car em hum morro , que Ihe fica fuperior, c donde po- diao conduzir-fe para qualquer parte que conviefle , po- dendo abrir-fe muitas terras incultas para i'e empregar nellas a agua., que tambem feria muito util para outras ja cultivadas , a que nao he fufficiente a que ja tern ; pois produzindo com muita fertilidade ainda as mel'mas terras que nao fao regadas , fendo-o , duplicariao os feus frud:os: as terras que nao foirem capazes de Javoura de- veriao fer todas aproveiradas , femeando-lhe bons mattos para eftruraes , e boas paltagens para os gados , que alli le podiao crear em grande quantidade , e em algumas mais afperas pinhaes , para fegurar as Jenhas necelTarias para o ufo. A terra oiferece todas as commodidades pa- ra hum grande augmento de povoajao : a abundancia , e bom pref o dos viveres ; a bondade do ar ; a commodi- dade dos prefos das materias para edificar ; e a bonda- de , e abundancia de aguas , tern capacidade para huma conflderavel plantajao deamoieiras, a/Tim como quafi to- das as terras defte terreno , para a creagao dos bichos da feda : para animar tudo ifto feria conveniente eftabe- lecerem-fe alli fabricas de meias de feda , fittas , e algum outro tecido de feda , e aJguma de lanificios grof- fos para confummo das Jans da terra , e feus contornos : deveria a Camera pallar logo a aforar todas as terras baldias por foros moderados, a quern fe obrigalTe a rom- pellas dentro de tres annos, ou aproveitallas com algum beneficio : os propiietarios que dentro de tres annos nao fizelTem o mefmo is fuas , deveriao fer obrigados a fa- zer aforamentos dellas , como os dos baldios , a quern as houvelTe de romper em termo breve. Havendo abun- dancia de agua de rega , e de eftrumes , e gados para fo- mentar a terra , podia produzir-fe quantidade de linho , para fe empregarem as mulheres da terra na fua manu- fa(^ura : para efte beneficio deveria concorrer o Collegio de S. Pedro da Univerfidade de Coimbra , como in- terelTado nos dizimos , que percebe de toda aqueJla ter^ ra ECONOMICAS. 6f ra , e por ifTo Ihe competia procurar o augmento dos feus fruClos , fazendo por ilia conta a deipeza ncceffa- ria para a extraccao , e conduccao das aguas do morro , que fica apontado , ate afTima daViIJa, e aprontando a lua cufta as primeiras fementes necelTarias para os iiiat- tos , e paftagens , e os graos neceilarios para as primei- ras lementciras , que fe fizcfieui nas terras que de novo fe roinpeflem , as quaes deveria tambeni ifentar de dizi- mos OS primciros dez annos que fe cultivafl'em : e de- veria tambem o mefmo CoIIegio animar o eftabelecimen- to das fab:icas coin alguma ajuda de cufto aos fabrican- tes , que alli quizelfem ir eftabelecer-fe. Para execucao defle projeifto poderia nomear-fe para aquella Villa hum Juiz de Fora com os talentos neceflarios , para fe Ihe encarregar , pagando-lhe o dito CoJlegio para ilTo algum ordenado ; porque o lugar he de lium rendimento mui tenue , e para o auxiliar nefta execujao , ferviria muito o Reitor da mefma Villa Joie Bernardino Botelho , Fi- lofofo muito habil , e intelligente , dotado das luzes ne- ceflarias , e de hum exadio conhecimento do terreno : ambos juntos poderiao procurar todos os meios necefla- rios para que fe augmcntafle muito a povoajao ,' e a agriculrura , e induftria com utilidade piiblica , e do di- to Collcgio , na grande riqucza do qual cabem muito hem eftes avanjos. Produz efta Freguezia algum azeite , baftante pao , e cartanha , e tern creajao de gados : rem huma feira rodos os mezes muito a propofito para Ihe trazer o necelTario , e gaftar o fuperfluo , e em que fe poderia dar fahida as manufatluras das fuas fabricas : tern 925- almas em 315- fogos. Ao Po?nte de Alijo efta a Villa , e Freguezia de Favaios , que pelo Norte con- fina com a Freguezia de Sam fins , pelo Poente com o rio Pinhao , e pelo Sul com as Freguezias de Val de Mendiz, c Cotas. Produz no iitio chamado Alcm-Pi7ihad , i beira do mefmo rio , algum vinho de embarque bom , o que produz nas coftas dahi para fima ate o lugar do Soutelinho he de ramo bom , e o que produz nos altos Tom, III I he 66 Memorias he inferior : produz muito azeite , caftanha , e pad , e tern creafao de gados : fao-lhe applicaveis as providen- cias , que ficao apontadas para Alijo , a refpeito da cul- tura , porem os dizimos lao da Mitra de Braga : tern 900 almas em 284 fogos. C A P I T U L O" X. Continuacao da mefma materia, PElo Sul da Freguezia de Favaios ao longo do Pi-- nhao fica a Freguezia de Val de Mendiz , que do Poente confina com o rio Pinliao , e pelo Sul com as de Cafal de Lobos , e Villarinho de Cotas , e pelo Naf- cente com o iitio de Alem-Pinhao da Freguezia de Ce- leiroz. Produz bom viiiho de ramo , e muito azeite , aproveita-fe o fumagre : tern 74 almas em 14 fogos. Ao Sul de Val de Mendiz efta a Freguezia de Villarinho de Cotas , que produz algum vinho de ramo ordinario , e muito azeite , tern huma feitoria de fumagre : tem 66 alma^ em 27 fogos. Ao Sul de Villarinho de Cotas ef- ta a Freguezia de Cafal de lobos , que do Poente confi- Jia com o rio Pinhao ate onde fe metre no Douro , do Sul com o rio Douro, e do Nafcente com a Freguezia de Cotas , da qual a fepara a ribeira da Povoa. Produz vinho de ramo fino , e muito azeite , aproveita-fe o fu- magre que produz a terra : tem 221 almas em 85" fo- gos. Ao Naicente de Cafal de lobos efta a Freguezia de Cotas , que do Sul confina com o rio Douro , do Naf- cente com a Freguezia do Caftedo , e do Norte com a de Favaios. Os vinhos que produz na cofta da borda do Douro fao de ramo de boa qualidade ; os que produz para o alto fa6 infcriores : produz grande abundancia de azeite ,. algum pao , e callanha , e fumagre , que fe aproveita. Para a parte do Douro tem ainda baftantes mattas incultas , em que as vezes fe vem lobos , e por- cos ECONOMICAS. tj COS bravos , as quaes fe podiao aproveitar para vinhas , e oiivaes , pois que a melma natureza produz nellas mui- tas oliveiras bravas. Nos altos tambem ha terras incul- tas , que podiao aproveitar-fe para pao. Nefta Frcgue- zia , e della para fima ha hum modo particular de plan- tafao , e cultura de vinhas : ellas fao todas formadas em geios de parede , e fo nelles he que fe planta vinha met- tida na parede : o piano de terra que fica de geio a geio nao tern vinha plantada , e tern largura competen- te para poder lavrar-fe ao arado : as vinhas plantadas defte modo produzem ainda mais vinlio , do que fe a terra do pLino dos geios tivelTe tambem vinha , e a cul- tura he mais e de menos difpendio ; mas o vinho que produzem he muito menos bom. Tern efta Freguezia 200 almas em 6^ fogos. Ao Nafcente de Cotas fica a Freguezia do Caftedo , que do Norte confina com a de Alijo , do Nafcente com a de S. Mamede de Riba-Tua , e do Sul com o rio Douro. Produz para as coftas do Douro vinho de ramo fino , e de hum gofto delicado , porem de pouco corpo , e de pouca dura^ao ; nos altos produz vinho de ramo inferior : produz baftante azeite , e algum pa6 , a cultura do qual podia adiantar-fe : tam- bem tern algumas mattas nas coftas do Douro , como a Freguezia de Cotas : tcm 294 almas em iii fogos. Ao Nafcente do Caftedo fica a Freguezia de S. Mamede de Riba-Tua , que pelo Norte confina com as de Alijo , e do Amieiro , pelo Nafcente com o rio Tua , e do Sul com o rio Douro. Produz vinhos de ramo finos , e de gofto exquifito , porem fao pouco ei'pirituofos , e de pou- ca duracao : produz muito azeire , a!gum pao , e tern creacao de gados : tern 841 almas em 287 fogos. Da outra parte do rio Tua na ponta que faz com o rio Douro ha ainda huma pequena porfao de vinhas , que fao da mefma produc^ad. Ao Norte da Freguezia de S. Mamede a beira do Tua fica a Freguezia do Amieiro , que do Poente confina com a de Alijo , pelo Norte ccm a dc Carlao , e pelo Sul com o rio Tua , produz vi- 1 ii nhos ^8 M E M O R I A S nhos de ramo maduros , mas fracos , algiim azeite , c tern culrura de pao , que algum tanto podia augmenrar- fe : tern 256 almas em 62 fogos. Ao Norte do Am.iei- ro efta fituada a Freguezia de CarJao , que pelo Poente confina com a de Alijo , pelo Norte com a de Santa Eugenia , pelo Nafcente com o rio Tiniiella , que no ifim defla Freguezia fe mette no rio Tua. Produz vinlios de ramo femelhantes aos do Amieiro , produz azeite , e tern lavoura de pao , que podia melhorar-fe : produz mui- tas fru(ftas de excellente labor : tern 746 almas em 243 fogos. Ao Norte de toda eda cofta Septentriongi do rio Douro , que acaba de defcrever-fe , ficao muitas terras , em que I'e produzem vinhos inferiores , e yerdes , de que a companhia fe nao ferve para as fuas c^arregacoes , mas compra grande parte delles por muitd* diminuros precos para os deftilar nas fuas fabricas de aguas-arden- tes ; o refto ferve para o conlummo das terras , e com- mercio interior. Para fe ver com mais facilidade o efta- do da povoacao de toda efta cofta , fe junta no fim def- ta Defcrip^ao Econoniica hum raappa della , extrnhido exad:amente dos regillos da Quarefma do anno de 1781 , em que fe declara o niimero de fogos , e de almas de cada Freguezia ; e fe ajunta a nota do eftado de algu- mas Freguezias no anno de 1733 , tirado da Geografia de Lima, pelo qual fe conhece proporcionalmente o gran- de augmento que tern tido a povoacao. C A P I T U L O XL Defcr'ip^ao particular da Cofta Meridional d» rio Douro. A Cofta Meridional do rio Douro nao tern a mefraa largura de cerreno , que contem a cofta Septentrio- nal. Ella nao entra para o centro , nem comprehende mais do que os terrenos que aviftao o rio Douro. Por if- ECONOMICAS. 69 iflb na Defcrlpcao delia fe nao pode guardar a inefma ordem , que na outia fc guardou : nem i'eria facil niof- trar o eftado da povoagao della , pois que nao compre- liende mais que huma pequeiia parte da cxrrcmidade do mais das Freguezias , que tern vinhas nella cofta : por ilTo a fua delcripfao lera feita por fitios , e terrenos de hum rio a outro com rclacao a fua producjno de vi- iihos tad fomente. Dcfrontc da Freguezia de Santa CJhrif- tina de Mezao-frio do lado Meridional do rio Douro fica fituada a Frcguezia do Penajoia , que he a primeira cm que ao Poente dcfta cofta comeca o deftricfto do Al- to-Douro , deflinado para o commercio da Companhia : nclla fe produz vinlio de ramo inferior , e algum me- Ihor para as vizinhanfas ; e nos altos doMoledo, pouco abaixo do Moledo , comefa a demarca^ao de vinho de embarque , a qual continiia ao longo do Douro pela Fre- guezia de Cambres ate ao rio Barofa , para os altos de Souto-covo , Sande , e Portelo he o vinho de ramo de muito boa qualidade : fodo o que fe produz na cofta do Moledo , e na de Cambres , que he de feitoria , he fi- no , e de excellente qualidade : desde Samodaes ate o rio Barofa fica huma grandc extenfao de terra quafi pla- na , que chamao o fitio de Touraes , que he de feitoria. Nao ha em todo o Alto-Douro terra de tao fertil pro- duccao , e ao mefm.o tempo o vinho que produz he de feitoria da maior eftimacao : elle he de huma cor mui- to cuberta , e de huma fortaleza , e groilura fuperior a todo o mais vinho de feitoria , e de hum excellente gof- to : na mefma terra as margens do rio Douro fe produz muito azeite : fobre efta planicie fe eleva huma cofta pa- ra o lugar de Rio-bom ate ao fitio da Corredoura , que produz vinhos de embarque finos , e de muita fuftancia : nefte lugar de Rio-bom fe produzem muitas fruCks das mais faborofas do Alto-Douro , que fao muito eftimadas, e tem grande extracjao : em todo efte deftridlo fe coUie baftante azeite. Do rio Barofa ate ao rio de Mil-lobos fica huma cofta; de mais de legua e meia de comprido 70 M E M o R r A s ao longo do Douro , que he muito viftofa , por eftar to- da matizada de bonitas cafas de quinta , que he o que fe comprehende nefte deftrklo , havendo nelle fomente a Villa de Valdigem , que he fitio deftinado para vinhos brancos de embarque , e os produz de huma mediana bondade , e tintos de ramo nao muito bons ; e a Villa de Parada , que produz algum vinho de ramo ordinario nos altos. A maior parte de vinho de embarque produ- zido lias quintas defta cofta he fino , porem nao tanto como o que Ihe fica fronteiro da parte Septentrional do rio. Desde o rio Mil-lobos ate o rio Tedo fica Imma colla nao muito extenia , que pelo Tedo aflima compre- hende huma confideravel extenlao de vinhas. Nefta col- ta poucos vinhos fe produzem de feitoria ; a quinta dos Padres de Salzedas , e algumas vinhas mais junto no lu- gar de Falgofa he que ticarao demarcadas para embar^ que , OS mais fao de ramo de excellente qualidade. Do rio Tedo ate ao rio Tavora efta outro pouco maior ef- pajo de cofta , que a borda do Douro ficou deftinada para vinho de ramo , e por fima de huma faxa de ter- ra , que ficou para efte deftino , cor re outra faxa de hum ao outro rio deftinada para feitoria , e pelo alto da cof- ta torna a fer excluida para ramo. He digno de raparo , que fendo em todo efte Territorio o vinho mais fino , quanto as vinhas em que elle he produzido eftao mais proxiraas ao rio Douro , fe excluiffe nefte fitio para ra- mo o que fe produz a margem do rio , e fe demarcaf- fe para embarque o que fe produz mais para o alto : nao he facil de comprehender a razao difto. Pelas ri- beiras do rio Tedo alfima de huma e outra parte ate ao lugar da Granja , e pelas do rio Tavora , ate a Villa de Tavora fe recolhe huma copiofa colheita de vinhos de ramo , que fao de hum particular , e exquifito fabor. Nao ha em todo efte Territorio vinhos mais agradaveis , e delicados para meza , porem falta-lhe o corpo , e for- taleza , que Ihe feria necellaria para refiftir a embarque fem le damnificar ; que a poderem levar-fe aos paizes- ef- ECONOMICAS. 7t eftrangeiros no mefmo cilado em que fa6 pfoduzidos : elles melmos por fi procurariao o feu confummo : cm' Lisboa fao conhecidos pelo nome de vinhos de Taboa- co. Nas ribeiras do Tavora produzem-fe fru(flas de hum labor em proporgao ao dos vinhos : tambem ncfte dei- tridlo fe produz baftante azeite. A' borda do Douro ain- da ha muitos pedajos de mattas inculras , que pela fua pouca producgao nao faz conta plantar para vinho de ramo , e nao fervem para outra cuhura I'e nao he para clival cm alguns bocados. Junto a quinta dos Cardofos ha muitas pequenas nalcentes de aguas todas marciaes, e de baftante for^a ; porem a defordem , e pouca quan- tidade em que nalcem , e o fitio remoto , e ardente em que efta6 , faz que fe nao tenha obrervado pelo feu ufo qual feja a fua utilidade , e os feus effeitos. Entre o rio Tavora , e o rio Torto medeia hum pequeno efpago de cofta , que da Villa de Valenga para baixo produz vi- nhos muito bons , dos quaes a maior parte dos que fe produzem nas quintas , que eftao a borda do Douro fo- rao demarcados para feitoria : o refto he ramo de excel- lente qualidade : tambem nefte deftrido fe produz baf- tante azeite. Desde o rio Torto ate o rio Fanzide rica a ultima parte da cofta Meridional do rio Douro para a parte do Nafcente : tern mais de duas leguas de com- prido , porem grande parte della fao mattas incultas , "entre as quaes fe criao lobos , e porccs montezes , que muitas vezes atraveffao o Douro a nado para a outra ban- da , e vao fazer confideravel damno em as vinhas. O que ha cultivado nefta cofta fao quintas de vinha com algum clival : toda ella foi deftinada para ramo ; por ilto a plantajao fe nao augmentou confideravelmente depois da inftitui5a6 da Companhia. Os vinhos que produz a bor- da do Douro , desde a Fez do rio Torto ate ao fitio da Arrueda , ferviao muito bem para embarque ; dahi Sara fima ja nao fao tao bons , excepto os da quinta de .oriz , que nao eftando em fitio mais vantajofo , fao de cxcellente qualidade j e nella fc conhece por expericncia que jz Memorias que produz mais de 150 pipas d« vinho de excellente qiialidade , e em tudo muito fuperior ao que fe produz nas vinhas que Ihe iicao proximas. A ede homem deve o Alto-Douro muito no adiantamento da cultura , e fa- brico dos feus vinh'os : os bons refultados das fuas mui- tas oblervafoes nao tern fido defprezados , e ainda hoje aos lavradores mais judiciolbs ierve de modello a quinta de Roriz. Nefte deftriilo collie-ie baftante azeite ; e mui- to mais fe pudera collier , fc muitas das terras incuitas foflem plantadas de olival , para o que fao muito pro- prias. Ifto he o que me pareceo proprio para fe notar na coda Meridional do rio Douro com relajao a fua prin- cipal producjao , e ao meu principal objeclo Economico : c para que nao fique inteiramente defconhecido o eftado da povoajao defta cofla fe ajunta hum Mappa das Fre- guezias defta cofta Meridional, a imitacao da que para a cofta Septentrional le apontou no Capituio antecedente. ME- ficONOMICAS. M E M O R I A Sobre o ejlado da A^ricultura , e Commetc'io do Alto-Douro ■(*). C A P I T U L O I. £;« que fe refere o eft ado aHual da Agricultura , e Commercio do Alto-Douro , dssde a amio de i6Si ate o a^mo de ij^6. NO anno de 1681 nao rinlia o Alto-Douro Inima tao Jarga pIanta§:ao de vinJias : o gofto da Ingla- terra incjinado nelTe tempo a vinhos doces , fazia que OS lavradores , alem das vinhas iufficientes para o confuinmo intcrno , fo plantaflem vinhas em fituajoes efcolhidas em as coftas das ribeiras mais cxpoftas a for- §a do Sol : ifto comprehendia pequenas por^oes de ter- ra dc-ftacadas por entre os mattos. Nao havia as grau- des quintas que hoje le vem 5 os Jagares de 3, 4, at6 5 pipas ao muito , que naquelle tempo havia , e os tu- neis das mefmas medidas moftrao as pequenas porjoes , cm que confiftia a colheita de cada lavrador. O refto das terras pcla maior parte eflava inculto , e de annos em annos i'e Ihe cortava o matto , e fe queimava fobre a terra para nella ie femear centeio j com bem pcuco lucro dos lavradores que faziao eflas fementeiras. Outras ter- ras fe traziao femeadas de fumagre ^ que fe cultivava com cuidado ; e cite era hum ramo dc commercio , de que OS lavradores tiravao utilidade. Os olivaes occupa- vao outra parte da terra , por^m como nem toda he « Torn. III. K pro- (*) Teve Accefjit en ere as Memories que concorre^o fobre efte affunifto em 1782. 74 M E M O R I A S* propria para efta plantajao , fe viao muitos lavradores obfigados a efperar oito , e dez annos por Iiuina colhei- ta regular de azeite , paiTando-fe outros rantos fucceffiva- mente , em que nao o tornava a haver , como ainda ho- je mefmo fe pbferva em alguns olivaes antigos , que el- ta5 plantados. em as terras de ribeira feccas , e menos tortes ; e como deltas he que Te compoc o Territorio , muitos lavradores fe fora6 pouco a pouco defanimando, ate o ponto de dejxarem ir a raonte os feus olivaes. Nas terras altas fe produziao caftanheiros , e em outras havia pouco maior cultura de pao , do que aquella que ainda hoje fe conferva. E defte modo era efte Territorio iios tempos antecedentes hum dos mais pobres do Rei- no , o que [c prova da pobrcza , com que antigamente fe edificava em- todo. elle- , nao fe vendo hoje nem ain- da vefligios de hum fo cdificio antigo magnifico , e fum- ptuofo ; porque fuppofto fe ciicontrem agora nclie a ca- da paflo cxcellentcs cafas com magnificencia , e muito. bons Templos, tudo ifto he de fabrica moderna , e tern it do ediiicado Jia poucos tempos , achando-fe difficultofii- fimamente hum deftes cdificios que pofia contar cera annos. Efte era o eftado do Alto-Douro no anno de 1681 , cm que , por induftria , e direcpo do immortal Conde da Ericeira , fe eftabelecerao em Portalegre , e na Co- vilha fabricas de pannes , e bactas , e fizcrad tao rapi- dos progrelfos , qte baftando os noflbs pannos para o confumm-o do Rcino , e Conquiilas , como o conlelfao OS mefmos papeis publicos de Inglaterra , fe prohibio nos annos de 1684 , e 1685" a entrada dos pannos ^ far- ges , e droguetes-panna eftrangeiros , coarclando-fe com ilto de tal modo o commercio adivo de Inglaterra fo- bre Pormgal , que as fazendas da exportajao daqttelle Reino para cile chegarao a nao montar mais de 400(i)ooo L. flerUng por anno. Ellas fabricas de todo fe arruinarao com o tratado do Commercio cclebrado entre as duas Cortes de Portu- gal , e'^Inglaterra 110 anno de 1705, em que fe deo aos In- E C ON'O' At I C A S. JS Inglezes franca liberdade da importagao dos feus la- nificios , com a condifao de que os vinhos de Portugal pagariao a Inglaterra menos huma terja parte dos direi- tos de entrada , que pagaflem os vinhos de Franja. C A P I T U L O II. Continua^ao da mefma materia. NA6 fe tirou defte tratado para Portugal o efFeito __ delejado , todo o proveito foi para Inglaterra ; porque fendo a fua exportacao para Portugal anteceden- temente de 400^^000 L Jlerling em fazendas , logo fuc- ccifivamente ao tratado montava a 1:300(^000 h Jlerling per anno , fegundo os regiftos das luas mefmas Alfan- degas. Nao aconteceo o mefmo aos vinhos de Portugal com a diminuicao dos direitos , porque fendo a expor- tacao para Inglaterra nos quatro annos antecedentes ao tratado de 3i(|)p4 pipas , e nos quatro annos feguin- tes ao tratado de 32^022 , fegundo confta dos mefmos regiftos , le augmentou foraente a extrac^ao depois do tratado em quatro annos 698 pipas , o que na verdade correiponde muito pouco ao grande augmento da impor- tajao das fazendas de Inglaterra. Ella falta da extracjao dos vinhos conteve a pjan- ta^ao. das vinhas do Alto-Douro \ porque merecendo a preferencia os vinhos mais doces , e excedendo os vinhos de Lisboa em dofura aos do Douro , daquelles he que fe fazia maior extraccao , fuppofto que os do Douro ti- veflem reputajao maior pela fua forja , que os fazia conlervar por mais tempo : ifto fez que os vinhos do Douro pouco a pouco foffem adquirindo maior eftimacao C4n OS paizes do Norte. Como a quantidade da produc- ^ao era pouca , augmentarao-fe os precos , e os Com-, miffarios Inglezes chegarao a dar 6o(|)ooo reis , e m^is K ii poi* 76 Memorias por cada pipa , o que fizerao induftriofamente para me- Ihor hirem aos dous fins de eftabelecer inteiramente a ruina das fabricas do Reino pela introducgao das fuas fazendas nas tres Provincias da Beira , Minlio , e Tras- os Montes , e do baiateio dos vinhos pelo augmento da plantajao , que animarao com os grandes prejos. Com efFeito ambos os fins confeguirao ; as fabricas inteira*- mente fe perderao em pouco tempo, fendo excefliva a introduccao das fazendas de Inglaterra peJa barra do Porto y e a plantacao de vinhas no Aho-Douro crefceo com tanto exceflb , que poucos annos fe fuftentou o pre- 50 dos vinhos , diminuindo tanto , que os Commiflarios Inglezes chegarao a comprar pelos annos de 17^0 ate o de 1755* vinhos dos mais finos do Douro a ic^coo r^is y. e menos cada pipa , chegando a ral cftado o barateio , que OS mefmos negociantes da Feitoria Ingleza , receo- los de que huma tal decadencia fofle ruinofa ao feu pro- prio commercio ^ fe juntarao na cafa da mefma Feitoria do Porto para fe ajuftarem entre fi a augmentar os pre- 90s ao vinho , por conhecerem que aquelie nem ballava para a defpezu da cultura. Efte projecflD nao fe cffeituou pelas contradicjoes de Diogo Stuart , negociante Inglez , muito alhito , e ca- vilofo , que ioube com artificioias perluasoes fazer mu- dar de parecer a toda a Feitoria Ingleza , fazendo antes voltar todos os feus cuidados para arruinar o negocio de D. Bartholomeu Pancorvo , negociante Helpanhol , que havia pouco tempo tinha apparecido no Porto , e publi- cado hum vaflo projeiflo de commercio de vinlios do Al- ro-Douro para os portos do Baltico. Efte Commerciante , rico de ideas , e pobre de ca- bedaes , entrou em grandes compras de vinhos , dando , 1 ou offerecendo por elles raaiores prejos : os hivradores , can^ados da efcravidao Britanlca em que viviao , Ihe con- fiavao fra»camente as fuas novidades. O principal pro- je(fbo do dito Pancorvo era abrir novos caminnos para a extraccao delle genero , fuzendo-o navegar para os por- 1 tos I ECONOMICAS. 77 tos das na^oes do Norte , conhecendo que efl:e era o jneio mais proprio para cxcitar a cmu'a^ao Bntanica , e para felicitar a lavoura , e coinmercio adiivo do Reii o. Para cxecutar efte projecfto nao baftavao leus poucos ca- bcdaes j e no tempo em que procurava ail'cciar alguns commerciantes Portuguezes , e lavradores do Alic-Douro para efla im porta nte empreza , falio , por nao poder lui- ter ja o empate dos muitos vinhos , que para efte iim tinha comprado, fcbrevivendo pouco. a ruina que Ihe mo- tivou a ailucia Britanica , e delconfian^a Portugucza. Sobre a ruina defte commerciante , e fobre os feus projecflos fe formou a Companhia Geral da Agricultura das vinhas do Ako-Douro , que , a pezar dos leus mui- tos defeitos , foi a redempjao daquelle Territorio , c hum freio a illimitada cubija dos commerciantes Ingle- zes , que ate ciiegou a arruinar a pureza , o credit© , e a grande reputagao que tinhao tido cm o Norte os vi- nhos do Alto-Uouro , m.fturando-lhes vinhos verdes , fracos , fern cor , e de menos bondade do Vale de Bef- teiros , S. Migiii2i-4-c Oatciro , Anadia , e ounos fitios , querendo fupprir efta faita de bondade natural com ba- gas de labugueiro , pimenta , alTucar , e outras mifturas , e confeijoes , que , em liigar de os melhorar , os fazia chegar ao Norte lem gofto , fem forca , fern cor , e fern bondade alguma ^ de forte , que tendo alii tido preferen- cia a todos os mais vinhos pcla faa forca, cor, delicade- za , e labor , chegava a preferir-fe-lhe nao f6 qualquer vinho , mas ate qualqucr outra bebiba. Eis-aqui o eilado , cm que fe achava no anno de IJS^ a Agricultura , e o Commercio do Alto-Douro : o grande abatimento cm que fe achavao os precos dos vinhos , fazia que as vinhas nao pudelTem cultivar-fe bein , por falta de dinhciros ; e ifto tinha reduzido a producjao da maior parte das vinhas a tao pouca quan- tidade , que cada vez mais fe impofnbilitava a cultu- ra , e ainda efta mefma diminuta producjao fe nao extrahia pela ma reputacao , que tinha concebido em o Nor- yS "M E M O R I A s o Norte com as mifturas de maos vinhos de outras terras. C A P I T U L O III. Em que fe refere o ejlado da Agricultura , e do Commercio do Alto-Douro desde o anno de lyS^ ate de 1781. ESte anno de I75'6 foi a epoca do eftabelecimento da Companhia Geral da Agricultura das vinhas do Alto-Douro , e aqui principiou a reftaurajao da decaden-, te cultura , e commercio defte Territorio : nefte anno he- que fe inilituio a dita Companhia , fervindo de inftru- mento para efta inftituijao alguns lavradores , e alguns negociantes da Pra^a do Porto. As fuas Inftituijoes formadas em fincoenta e tres pa- ragrafos forao confirmadas por Alvara Regio de 10 de Setembro do dito anno ; fe alias tiveflem lido mais hem meditadas , e conformadas ao projecfto de D. Bartholo- meu Pancorvo , e nao follbm tao defeituofas , teria fern diivida tido muito maior augmento a producjao , e ex- tracfao dos vinhos , e conlequentemcnte feria muito maior o commercio adlivo , e a utilidade do Reino , a que tambem tem fervido de embarajo o abufo com que tern fido executadas. Eftas Inilituifoes , m.uitas Leis , que a refpeito del- las fe tem pronuilgado , muitos Avifos , Decretos , e Reaes Refolujoes particulares , muitas peiToas , e mui- tas cafas arruinadas , e vinte e feis annos que tem paf- fado de pratica , e obferva^ao , nao tem fido baftantcs para fe aperfeijoar efte negocio em completa vantagem da lavoura , e do commercio. O augmento do .genero , procurando-fe que a terra produza o mais que poder fer ; o augmento do confum- mo , procurando-fe ao genero a maior extraccao que pu- der E c o N o M I c A s. yg der fer , parece que fao os doiis unices objeiflos que po- dem levar o commercio , e a agricukura ao nielhor efta- do po/llvel : mas elles nao rem Jido o ponto de vifta , a que Te rem dirigido efta inftituifao ; e parece que a maior parte do grande melhoramento que desde o anno de 1756 tern recebido a lavoura , e o commercio , fe devc mais ao acafo , e a emulajao dos commerciantes , do que a to- das as medidas , que para ilTo fe rem tornado. O melhor eftado pofTivel de qualquer territorio con- fide na fua maior riqueza poiTivel ., jfto he , na maior itiafTa pofFivel de valores : ella nao p6de refuitar fcnao da maior abundancia pofTivel das produccoes da terra , e do melhor pre^o poilivel dellas : nao fe conhece ou- tra origem de riqueza fenao a terra : procurar que toda a de hum territorio feja cultivada , e que feja cultivada com o iiiaior cuidado , he o meio de exiiahir della a ri- queza ; porcm feiido o confumo a medida da produccao^ degenerando em fuperBuo lem utilidade , e fern valor as producfoes que ficao fern coniummo , he neceflario procurar-lhe todos os raeios pofTr/eis de coniummo por pre^os que o facilitem , e animem a cultura : nada dif- to tez o primeiro obje^^to. Nao fe propoz ella o augmeii-' to da producjao , e adiantamenio da lavoura , antes pe~ lo contrario Ihc preparava o mais forte grilhao para nao- podcr adiantar-fe. No tempo da cria^ao da Corapanhia eilava a Agiiculrura das vinhas , e a fua producjao no decadente eltado que fe tcm dito , e nefte mefmo a que- ria conlervar a companhia. No § 29 das Injlituicoes cftabelece : „ Que com a „ maior brevidade fe faca Ijum Mappa , e Tombo geral „ das duas Coltas Septentrional , e Meridional do rio l3ou- „ ro , no qua! fe demarque todo aquelle territorio , que ;, produz OS verdadciros vinhos de carrega^ao , que fao „ capazes de lahir pela barra do mcfmo rio. Eipccifican- ,5 do-fe cada huma per fi as grandes , e pequenas fazen- „ das defte genero , e declarando-fe por huma eflimacao ,, commua , ou media , calculada pelas produccoes dos'ul- ^, ti- So Memorias „ timos finco annos proximos preterites o que coftuma „ dar cada huma das ditas fazeadas , para que os donos „ dellas nem pofTao vender fem manifeftarem a Gompanhia J, o que vendem , nem polTao fer admittidos a vender „ maior niiinero de pipas a Gompanhia , ou aos ellran- „ geiros , do que aquelle que no duo regillo Ihe for de- j, terminado , Ibbpena de que excedendo nas vendas as „ ditas quantidades , pagarao anoveado o exceflb , e fica- 5, rao inhibidos para mais nao venderem vinhos para fo- „ ra do Reino. „ Aqui temos feito crime o augmentar a producjao , c ao que deveria prop6r-fe hum premio , fe eilabelecem penas : e eis-aqui a prova de que as primeuas intensoes nao era6 o augment© da producfao , e adiantamento da agricuitura : muitas terras incultas , e que fo fao pioprias para a plantafso de vinhas , ficavao fendo fundos elle- reis , de que ie nao tirava a riqueza poilivel : muitas vinhas arruinadas por falta da competente cultura fica- vao prohibidas de reparo , e beneficio i porque deyendo fer a fua produc^ao calcuJada pelo efla.lo de ruina ante- cedenie , ficava fendo crimiiiofo o leu augmento , e os donos dos predios impoflibiluados a tirar deiles a riqueza poilivel. Eile raio , que fe prepnrava fobre o Alto-Douro, ef- teve fuipenlb por muitos annos , em que houve lugar de reparar muitas vinhas arruinadas , adiantando por meio da boa cultura a produc^ao , que tambem fe augmentou por muitas novas plantafoes de vinhas, de forte, que, regularmente fallando , fe tern adiantado muito a cultu- ra das vinhas desde o tempo da creacao da Gompanhia. CA- EcOiroMicAS. 8z C A P I T U L O IV. Contlnua^ao da mefma materia* SUppofto que a produccao dos vinhos fe tenha augmen- tado grandcmente , ifto nao fc deve aos cuidados di- redlos da Companhia , que tendo-fe queixado fempre do augmento do genero , tern procurado todos os meios de diminuir a producqao , como Te tern dito , e em outro lugar fe dira : e affiin devia neceflariamente fer , porque nao havendo outra medida para a producjao que nao feja o confuuimo , he ruinofo o augraento da produc- gao. Efte objedlo do augmento do confummo he o que tambem nao aviftou dirediamente a Companhia ; em lu- gar de tomar por leu principal objedo tentar alguns no- yos caminhos para o coniummo , levando os vinhos •aquelles paizes , que ainda os nao gaftavao , e de quein reccbemos generos iniportandfliinos , e neceflarios, fern re- torno de fazendas nolTas , como era o piano de Pancor- vo , fe contentou de feguir os caminhos ja trilhados , arrogando a fi o prover o confummo da Cidade do Por- to , e feu deftridlo , e o dos portos do Brafil , que an- tecedentemente faziao igual , ou maior confummo , vin- do defte modo a Companliia a fubflituir fonicnte o lu- gar de muitos interpollos , que compravao os vinhos no Douro para os vender no Porto , e remetter para o Bra- i\\ , fo com eftas notaveis differengas , que fazendo aquel- les interpcftos as opera^oes do feu commercio com mais fimplicidade , e menos defpezas do que a Companhia , podiao beneficiar nos pre^os aos ultimos compradores , e aos primeiros vendedores ; e que fendo pelos §§ 19, e 28 das Inftituicoes da Companhia concedido o privi- legio exclufivo do Commercio dos vinlios , aguas-arden- tes , e vinagres carregados na Cidade do Porto para as lorn. Ill, L qua- 82 Memorias quatro Capitanias de S. Paulo, Rio de Janeiro, Bahia , e Pernambuco , e o dos vinhos que fe vendeflem ataver- iiados na Cidade do Porto , e tres leguas em circunfe- rencia , cellava a concurrencia dos ditos interpoftos , que podia I'cr util a beneticio dos prc^os da extraccao , e do coniummo ; dilFerenjas eftas , que , fe produzem utilida- de , como na verdade produzem , fo relpeita aos inte- reffados na Companhia , e nao aoEftado, tanto pel a par- te da producjao , como pela parte do coniummo nacio- nal. Difto fe conhece , que eftes privilegios exclufivos fao fern diivida prizoes da liberdade do commercio ; e fen- do evidentemente a maior liberdade poflivel do commer- cio o unico meio de conciliar o intereffe particular dos Gommerciantes com o interefle commum dos proprieta- rios , e do Eftado , he ceito que os privilegios exc'u- iivos devem neceffariamente produzir hum ruinofo con- flitflo entre o intereife particular , e o geral , que em lu- gar de fe auxiliarem mutuamente , tarde , ou cedo fe hao de deftruir. Nefte lethargo paffou a Companhia vinte e tres an- nos , contentando-fe com os interelfes que ihe produzia o feu privilegio exclufivo , que nao forao tao pequenos » que quail fe nao duplicaiTe o fundo , repartindo-fe tc- dos OS annos aiem dilTo mais de 12 por 100 dos primei- ros Capitaes aos Accioniftas , livres das grandes defpezas da Adminiilrajao a mais complicada , mais difpendioia , e menos iimples , que na cialTe commerciante fe pode imaginar. Nao fe penfou em todo efte tempo em outra algu- ma entrepreza : feguirao-fe os caminhos trilhados : a glo- ria de abrir huma eftrada nova ao confummo deile im- portantiflimo genero eilava refervada para os dous zelo- fos patriotas Domingos Martins Gonialves , e Jofe An- tonio de Barros : desde que eiles dous homens , dotados de baitantes luzes , e de hum corajao bem feito , capaz de graqdes emprezas , e chcio de hum amor deiintereiTa- do ECONOMICAS. S^ do da fua patria , forao feitos Deputados da Compa- nhia , logo reiufcitou o projecflo de Pancorvo , e fe ten- tou a fua pratica : navegarao-fe aJguns vinhos iioffos , e aguas-ardentes com tamo fucceffo para o Baltico , que no primeiro anno , que foi o de 1780 , fe exportarao para Petersburgo , e alguns outros portos do Baltico i(jf)35'6^ pipas , e 3 almudes de vinho , alem das aguas- ardentes , e ja no feguinte de 178 1 fe exportarao para a mefma direcjao i(;^96o 7 pipas de vinho , efperando- fe por efte caminho hum grande augmento ao confum- mo com grande ventagem do Commercio nacional , co- mo fe dira em hum Capitulo feparado. O confumino , como fica dito , he a medida unica da producjao : o prefo he neceflariamente tambem a me- dida dos esforjos que fe hao de fazer para augmentar a cultura , melhoralla , e fomentalla , e confequentemen- te decide da abundancia das producfoes futuras , e da riqueza do territono que as produz. Efte prejo deve fer bom , e para o fer deve relpeitar os dous extremes da produc^ao , e do confummo pela parte da producgao pa- ra fornecer o iavrador de meios , e de boa vontade pa- ra promo ver a abundancia , deixando-lhe os feus fruflos hum produ(n:o liquido , e livre das defpezas da cultura ordinaria , que correfponda a fomma de feus avances ; ifto he , dos Capicaes empregados , e dos feus trab.ilhos. Pela parte do confummo deve fer limitado de ma- neira , que fendo util a produccao Ihe nao difficulte o gafto pela careftia , cabendo nelle ao mefmo tempo o competente lucro dos interpoftos , que pela fua induftria levao 0$ generos de hum ao outro extreme de comjiier- cio. L ii CA- 84 M E M R r A s CAPITULOV. Continua^ao da mefma materia. NA6 ha duvlda que nas Inftituigoes da Companhia; fe eftabelecerao prejos aos vinhos do Alto-Douro ,, porem efl:e ideal , e arbitrario eftabelecimento nao foi apoiado fobre fundamento algum folido , que o fizefle eflavel , e firme. A experiencia aifim o tern moftrado , vendendo-fe muito annos os vinhos por muito menos do, que OS prejos eftabeJecidos. No § 14 das Inftituifces fe determina „ para faei- „ litar as entradas dos Aceioniftas , que a Companhia ,, Ihe receba os vinhos que forem da melhor qualidade ,. J, e na fua perfeijao natural , fern milturas , ou lota- J, goes que os daainifiquem , pelo prejo de 25(|)ooo reis- ,, cada pipa de medida ordinaria , e os que. forem de; J, menor qualidade , porem capazes de carrega^ao , re- j, ceba na mefma forma por preco de 20^000 reis cada J, pipa. Por eile pre^o (continua) comprara os referidos^ „ vinhos nos mais annos que fe feguirem , ou Jiaja abun- ,j dancia , ou falta deile genero , para cujo effeito ailim „ como a Companhia nos annos de abundancia os ha de ,, pagar aos prejos referidos : do mefmo modo nos an- „ noS' de efterilidade ferao obrigados os lavradores a ven- 5, der-lhos peios meimos prefos fern a menor alterafao,. „ compenfando-fe affun os intereffes era beneficio defte ,, genero. „ No § 3:5 das mefmas Inftituijoes fe eftabelece „ qte ,, para os lavradores de vinhos , e compradores delies ,, ie podercm reger fobre principios certos , fern que a „ lavoura pertenda tirar das vendas lucros prejudiciaes ao Commercio , nem o Commercio no barateio das compras do genero pofla arruinar a lavoura , pagara a Companhia inalteravelmente todos os vinhos que ti- „ rar 3? ECONOMICAS. 55* „ rar para o feu embarque pelos pregos de 25' , e de 20(|)ooo reis cada pipa , iegundo as fuas duas diffe- renres qualidades , na forma que fica declarado pelo § 14 , de tal forte , que ainda no cafo de haver gran- de falra dos fobreditos vinlios qualificados , e grande fahida para elles , nao poderao os da primeira quali- „ dade exceder o prejo de 30(^000 reis por cada pipa , e de 25'(3f)ooo rds os da fegunda. Os que porem nao „ forem capazes de embarque , fendo fulFicientes para o „ confummo da terra , ferao comprados , e vendidos pe- „ la melina Companhia tambem por prejos certos , e J, determinados na maneira feguinte : Os que forem da „ producjao das terras de Barqueiros , Mezao-frio , e „ Penajoya ferao comprados a 8(|)ooo cada pipa , e ven- „ didos na mefma forma a 15 reis cada quartiiho : os „ outros vinhos madilros dos Altos de Sima do Douro , „ que ficarem de fora da demarcacao das terras que pro- „ duzem os v^inhos de embarque , ferao comprados a ra- „ zao de i2(jf)ooo reis por cada pipa , e vendidos na „ mefma conformidade a razao de 20 reis cada quar- „ tilho. „ No § 4 do Alvara de 30 de Agofto de 175:7 fe ordena , que ,, attendendo a diminuigao , que pela de- „ feza dos eilrumes ha de precifamente haver na quan- „ ridade dos vinhos de feitoria , e embarque , e a que „ fendo elles reduzidos a fua anriga pureza natural , he 5, niuito conforme a boa razao , que o excclTo , que faz ^, na qualidade , fiippra de alguma forte a falta que os „ lavradores hao de experimentar na quantidade : He „ S. Mageftade fervido ampliar a dilpofijao do § 33 j, da Inftkuijao da Companhia , para etfeito de que a J, mefma Companhia , na6 obftante a difpoiifao da di- „ to § , compre os vinhos da primeira forte , a que „ determinou os pre^os de 25 , e 30(|)ooo leis pelos de „ 30 , e 36(3^)000 reis , e os da fegunda forte, a que de- j, terminou os preyos de 20 , e 25(^000 reis , pelos de ,> 25 , e 30(^000 reis , com tamo que os lavradores nun- „ ca 86 Memorias „ ca poflao exceder os prejos defta ampliagao nos vinhos „ que venderem. „ Eis-aqui fubftancialmente o eftabelecimento dos pre- jos , que a refpeito dos vinhos de embarque I'eria niui- to racionavel , fe tivefle tirmeza , e igualdade neceflaria i mas nada difto : para teiem firmeza leria neceffario que OS lavradores tiveflem certa a venda dos feus vinhos , e que a Companhia fofle obrigada a comprar todos aquel- les , que os negocianres eftrangeiros , ou nacionaes nao compralTem nos tempos comperentes pejos pre^os eftabe- lecidos , pois , faltando a certeza da venda , na6 pode fer eftavel a certeza dos prejos. Nao os querendo os negociantes pelos pregos eftabelecidos , a Companhia to- ma por elles huma modica parte ; e nos mais temos o barateio certo , como a experiencia de alguns annos tern moftrado. Parece que a Companhia no dito § 14 das Inftitui- joes deixa en tender , que toma fobre fi a obrigajao de comprar todos os vinhos que nao tiverem outros com- pradores , porem illo he o que nunca le eiFeituou , c confequentemente le nao providenciou nunca a firmeza , e eftabilidade dos precos. Para elles terem a igualdade necefTaria devia haver da parte dos compradores a mefma obrigajao , que da parte dos vendedores : eftes fao obrigados a nao exce- derem os prejos eftabelecidos ; porem os compradores podem diminuillos arbitrariamente , e defte modo nao fe guarda a igualdade neceflaria para juftificar as taxas. Todos eftes caminhos , que fao os principaes por onde fe vai ao augmento da producjao , e do confum- mo , e a felicidade da lavoura , e do Commercio , fo- rao OS que fe defprezarao , fendo os que mereciao maior attengao. Huma unica coufa mereceo todo o cuidado , que foi procurar o adiantamento pollivel da bondade , e re- putaf ao dos vinhos por todos os meios que tem pare^ ci- E C O N O M I C A S. 87 cido proprios. O primeiro per onde fe procurou confe- guir efle fim , he o da feparagao , e demarcagao dos ter- renes , que produzeni vinhos proprios pela lua bondade natural para embarque ; dos outros , que os produzeni fo capazes para I'e bcbereni na terra , a qual fe deter- mina em o § 29 das Inllituicoes , prohibindo-ie no § 30 com feveras pcnas a introducgao dos vinhos dos terre- nes excluidos para o ramo nos terrcnos demarcados pa- ra feitoria , para evitar dcfte n:odo as lota^oes , e miftu- ras dos vinhos inferiores com os finos , e legaes , das quaes fe ieguiria a prcverfao , e ruina do genero ; po- rim de maneira , com que foi feira efta demarca^ao , era impolTivel confcguir-fe inteirameme por elte meio o fim que fe pertendia. C A P I T U L O VI. Continuai^ao da mefma materia. ESta demarca^ao devia fer feira por terrenes fegui- dos , de forte , que os demarcados para embarque deviao fazer hum corpo feparado dos excluidos para ra- mo i porque nao fendo aflim , e ficando as propriedades demarcadas para embarque mifturadas com as proprie- dades excluidas , era inevitavel o podcrem-fe mifturar as uvas dellinadas para ramo com as deftinadas para fei- toria. Era neccflario que as demarca^oes foflem feitas por eftradas , e por divisoes de ribeiras , e oiteiros , que fi- ^eflTem huma tai fcparajao , que embarajalfe as miiluras , e ficaflem dentro do ambito das terras demarcadas ca- jninhos fufficientes para a condujao das uvas , e dos vi- nhos. Ifto fez com que nos terrenes demarcados para feitoria ficaiTem inchiidas muiras vinhas , que produzem vinhos peiHmos para embarque , por ellarem fituadas em terrenes aveifos , e em valles baixos , em que o Sol fe dc- 88 Memorias demora muito pouco , e do mefmo modo ficarao exclui- das para ramo muitas vinhas , que produzem vinhos fi- nes , e generofos , porque nao podiao ficar dentro do ambiro das eftradas , ou ter uniao com os corpos de- marcados. Efta defordem nao abrangeo [6 pequenas porcoes aqui , e alii , as quaes fo por fi fariao hum objecfto con- fideravel , extendeo-fe a porcoes grandes : por exemplo , OS valles de Fugueiros , Lobrigos , Santa Martha , e Veiga da Comieira ficarao na demarca^ao da feitoria , e produzem vinhos froxos , verdes , e muito inferiores em grandes quantidades : nas Freguezias de Villarinho dos Freires , Alvajoes do Corgo , Hermida , Abaflas , Guiaes , Galafura , Couvelinhas , Goivaes , e outras , fi- carao excluidas para o ramo confideraveis porcoes de vinhos finos , e muito fuperiores em tudo a grande par- te dos que ficarao demarcados para embarque ; e eis-aqui como por efte meio fe nao p6de confeguir inteiramente o fim que fe pertende. E foi efte hum meio , que fern ir inteiramente ao feu fim , tern devido todos os cuidados , e caufado in- commodes incomprehenfiveis aos lavradores. A maior parte delles tinhao os feus lagares , e as fuas adegas em as cafas da fua habitajao nas fuas aldeas , e tinhao as vinhas fituadas em diltancias : grande parte das aldeas ficarao excluidas da demarcajao da feitoria ; e como as uvas approvadas para embarque nao podiao fahir dos ter- renos demarcados , fern a pena de ficarem para ramo , fi- cou grande parte dos lavradores fem lagares , e adegas para fazer o vinho , e envafilhallo. Os lavradores que pu- derao, edificarao lagares^ e adegas pelas vinhas, e por entre os monies , ficando os feus vinhos expoftos a roU'- bos , e mil perigos , e os que nao puderao edificallos, ficar?i6 fujeitos a tirar as fuas uvas para o ramo , ou a vendellas aos lavradores , que tern lagares , c adegas , e fao mais ricos , por prejos muito diminutos , ficando altamente prejudicados. A quel- E C N M I C A S. 8^ Aquella defigualdade irrcmediavcl nefle projecflo , que deixava incluidos muitos vinhos excellentcs , e mais capazes de cmbarque do que outros , que ficavao com- prelicndidos na demarcajao -, e a cubica de augmentar o i cabedal fez que rauitos iavradores , cautelofa , e clandef- il tinamente , fizeflem rranfportar das vinhas de ramo para OS lagares , e adegas da feitoria, ou mefmo em uvas , ou jd em vinho conlideraveis porjoes de vinho de lamo pa- ra mifturar com o de feitoria , em fraude da providen- cia , que fe tinha dado para confervar por meio da dc- marcajao a pureza do genero. Para cohibir eftas tranfgrefsoes fe mandou pelo Al- vara de 30 de Dezembro de 1760 , que o Defembarga- dor Juiz Confervador da Companhia tirafle todos os an- nos huma devafla , para fe vir defte modo no coiiheci- mento dos tranlgreftores , e fe Ihes imporem as penas : porem nao fendo ifto baltante , fe mandou pelo Alvara de 16 de Janeiro de 1766 fazer hum Mappa , e Tom- bo dos rerrenos do vinlio de ramo a imitajafi do que para os de feitoria fe determinou no § 29 das Inftitui- .5668 , calcuiando a producgao de cada huma das vinhas pelos ultimos finco annos , para por elle calculo fe pe- dir conta do vinho a cada hum dos donos , e fe ave- riguar fe tinha havido introduc^oes , ampliando-fe as pe- nas aos tranl'grclTorcs , e mandando-fe ao Confervador da Companhia romar denuncias delles era fegredo com premio aos denunciantes. EfFeituou-ie o Tcmbo , mas a experiencia moftrou a futilidade defte projecto , de que fe nao tirou fru^Tto algum : continuirao , c fora6 em augmcnto as introduc- joes de vinlios de ramo ; e nao obftante ifto , o nego- cio nao empeorava. A obftinajao dos lavradores em fazer eftas introduc- .yoes de vinlio de ramo nas adegas deftinadas para o de embarque , defafiou a obftinajao de conckiir efte intentoj e fendo na colheita do anno de 1771 cxceftiva , e ef- candalofa a introduccao , ie mandou proceder a hum.a Tom. Ill M ter- 90 Memofias ternvel devafTa de Aljada com auxilio de Tropa mlli- tar , a qual durou mais de tres annos , deixando affola** das muitas cafas , e familias , chegando-fe a:e a mandar , arrazar as cafas de lagarcs , e adegas , que ellavao pro- '. ximas as extremidades da demarcajao , por fe juigarem com maior facilidade para nellas le fazerem as intro- : ducfoes , e a fequeftar, ou tomar para a Companhia mais de Jiuma ter^a parte dos vinhos que forao acliados na demarcagao da feitoria , o que em muitos lavradores (c cxecutou finco annos continuados , com inteira ruina das ilias vinhas , por falta de dinheiro para os avanjos da cultura. No mefmo tempo , pelo Alvara de i6 de Novem- bro de 1771 , fe eftabclecerao as penas mais fortes aos tranfgreflores , repetindo-fe , para acautelar as tranfgref- s6es , a providencia do Tombo das terras de feitoria , c|ue tendo iido ordenado no § 29 das Inftituicoes , fe nao tinha executado , nem por entao fe executou. Efte golpe tao forte do poder , mais cohibio as mif- turas de huns com outros vinhos ; porem fazer que el- 3as inteiramente celfem , feria confeguir hum iaipoiTiveL C A P I T U L O VII. Continua^ao da mefma ynateria^ PElo Alvara de 30 de Agollo de 175-7 fe eftabelece- rao outras providencias mjito proprias para a con- fervacao da natural bondade dos vinhos dc embarque \ huma dellas foi prohibir o lancarem-fe eftrumes nas vi- nhas ; porque fuppofto ellas eftrumadas produzao huma muito abundante colheita, com tudo he certo , que os vinhos que produzem fao muito mais inferiores , fracos , defgoftofos , e dc-fcorados , e os eftrumes , que fe appli- cavao para as vinhas , faltavao a cultura do pa6 , e das. hortalices tao necelTarias para os habitadores das terras,, e pa- E C O N O M I G A S. 91 e para os muitos homens que fe empregao na cultura das vinhas. Outra foi prohiblr o lanjar-fe nos vinhos baga de fabugueiro : havia muitos annos que fe tinha feito hu- ma giaade planta^ao de fabugueiros , e a fua baga , de- pois de perfeitamente madura , fe colhia , e feccava com grande cuidado , e depois de fecca fe pizava em vinho ate fe desfazer , e largar toda a tinta para augmentar a cor do vinho , que nao era tao carregada , poique com as uvas pretas fe mifturavao muitas uvas brancas ; porem efta tinta do fabugueiro , que nos primeiros tempos fa- zia o vinho de huma cor muito agradavel , ao depois degenerava , e tornava o vinho em huma cor como a de tijolo , alem de Ihe alterar o fabor natural : para efte fim fe mandarao cortar todos os jabugueiros em fin- co Icguas de diilancia das margens do Douro. A outra foi proliibir-fe a millura das uvas brancas com as tintas , porque alem de nao poderem rer boa cor OS vinhos que fe fazem defta mifcura , nao podem con- fervar-fe , porque fazendo-fe as fermenta^es de humas uvas em diiferente tempo do das outras , repugna ella miftura a boa conferva^ao do genero , impondo-fe penas a todos OS tranfgreirores deltas difpolifoes. Ainda muit-os lavradores abularao deltas providcn- cias mandando vir a baga de mais longe , para com el- la ccbnrem a falta de cor dos vinhos , que Ihe motiva- va a miftura de uvas brancas, o que deo motivo a man- darem-fe pelo Alvard de 16 de Novembro de 1771 ar- rancar os iiibugueiros em todas as terras das Provincias da Beira , Minho , e Tras-os Montes. Nao bjftou ifto para que deixalfe de fe continuar cm fazer as mifturas de vinhos brancos com tinto , fub- flituindo em lugar da baga , que nao havia , para emen- dar a falta de cor do vinho , folhelho de uvas pretas , que fe fazia vir de Val de Befteiros , Oliveira de Con- de , e outros fitios , o qu;il ainda era mais damnofo aos vinhos do que a mefma bag-i , por fer de fua naturcza M ii aze- ^1 Memorias azedo , e attrahir eom muita facilidade bolor , e podri- da6 , que tarde , ou cedo fe vinha a manifellar ncs vi- nhos. ~ Para fazer ceflar de huina vez eftas miftiiras , e con- feijoes fe ordenou pelo Aivaia de lo de Abril dc 1773, que todos os lavradorcs , que nas vinlias dcftinadas pa- ra vinhos tintos de embarque conrervalTem cepas de uva^ brancas , as enxerraflem logo de tintas. Efta providencia , que por huma vez acabava com cftas mifturas , feiia ainda mais util para apeifei^oar a bondade dos vinhos , I'e nefla occafiao le attendefle pe- los lavradores as qualidades de uvas , que deviao enxei> tar J para colherem os melhores vinhos. As uvas cliamadas alvarelhao , pe agudo preto , tin- ia-cao y q foufad fazem hum vinho forte, cuberto , en- corpado , de bom fabor ; o bajlardo , e doimelinho jun- tos as outras qualidades em pequenas quantidades ado- ^ao , e fuavifao a afpereza do alvarelhao , e do foufad> € Ihe augmentao a fuavidade do cheiro. Delias cartas he que fe devera fazer toda a enxer- tia , para com o augmento da producjao dellas fe emen- dar o defeito de muiias outras que ie achao plantadas : porem os lavradores conliderando cada hum por fi , que a difFerenja dos prejos que fe dao pelos vinhos muito mais finos nao he tao fuperior aos prc^os que fe dao pe- los vinhos mais inferiores , que baile para os mover a efcolher aquellas caftas de uvas melhores , que ordina- riamente frudlificao muito menos , do que aquellas que fazem vinhos ijiferiores ; e vendo ao melmo tempo , que alem de fe privarem per aquelle corte dos polios de iivas brancas , que regularmente fao de maior produc- cao, tinhao ao mefmo tempo o prejuizo de nao colhe- rem os frucflos das cepas enxertadas quatro , ou fmco aiinos , ainda no cafo de Ihe pegarem os enxertos , por- que tantos annos Jevao a formar-fe em plantas inteira- iTiente capazes de fru(flificar j efcolherao para a enxertia callas de uvas , que a forja da fua muita producjao Ihe po- E C O N O M I C A s. 93 podefTem de alguni modo relariir a pcrda que recebiao, enxertando das uvas cliaiuadas tourigo , tmta-cpJliUaa ^ tinta-borra^al , e cutras chainadas tintas-grojjas , que regularmentc fanflificao com muita nbundancia , mas o vinho que fe faz dcUas he fraco , e infipido , e conle- quciiteniente de nienos durajao. Eiie juizo dos lavrado- rcs foi errado , e as Ibas conl'equencias dcvem fer damno* fas ao conliuiitro do genero. Os vinhos de embarque do Alto-Dcuro vao bufcar o feu confumuio a paizes eftrangciros , aonde neceflaria- mente concorrem vinhos de ounos paizes j e fe no con- curlb nao excederem pela fua bondade , diminuira o con- fummo , e conlequentemente os pregos ; e fe excederem na bondade aos outios , augmenta-fe o confummo , e fe- gurao-i'e os nielhores pregos , que acftualmente fao racio- iiaveis para a lavoura , e para o commercio. Seria muito louvavel que todos .os Javradores que cultivao vinhas na demarcajao da feitoria , fe empenhai- fem a defterrar por meio da enxerria as mas caftas de uvas que produzem vinho mao , (ubftituindo-as com os poftos mais accommodados aos fitios em que rem as fuas vinhas , fendo efte hum ponio que merece toda a at- tenjao , e de que depende nao o intereffe tranfitorio de •poucos annos , mas o interefle duravel da conlervacao 'defle negocio , e a efcabilidade dos precos , que faz a alma dejle. Accrefcendo alem difto o folido motivo de que to- 'das eftas cailas dc uvas , que fe introduzirao com o pre- "texto de produzirem muito mais , e fazerem viaho mais tinto 5 fa6 muito fujeiras a fcccarem nos annos Jeccos , *"€ a apodrecerem antes de vindimadas nos annos que l"a3 •chuvolos ; e de mais dido , as fuas plantas , que nos pri- •mciros annos produzem excefllvamente , elgotao-fe , Vii6 • produzindo varas cada vez mais pequenas , e em pouco ;tempo vem neceifariamente a morrer , e a deixar a terra 'Cfterilifada , como fe tern obfervado conftantemenre com -as chamadas twtas d^ Fra»ca , que fao da niefma na- tu- 94 Memorias tureza , e de que ja ninguem quer fazer ufo , por fe Ihe terem conhecido todos elles inconvenientes. C A P I T U L O VIII. J)o methodo de cultivar as Vinhas , e fabric ar os Vi- nhos : melhoramento que huma , e outra coufa tern tido desde o anno de 17 $7 » AFigura do terreno quail todo inclinado faz que as vinhas melhor plantadas lejao forniadas em geios de parede , para fazer que a terra lique em efpafos pia- nos amparada pelas paredcs , e nao corra pela agua das chuvas , deixando as raizes das plantas defcubertas , e expoftas a feccarem. Cada hum defies pianos tern de huma ate tres car- reiras de vinha , conforme a maior , ou menor inclina- §a6 da terra , e nas paredes fe planta outra carreira de vinha , deixando-fe-lhe piiheiras por onde fahe a ce- pa , e fe cria fern o rifco de ficar apertada entre as pedras. Os lavradores mais cuidadofos, e que cultivao per- feitamente as fuas vinhas , feguem efta ordem na fua cuitura ; Depois de ter cahido toda a folha as vides , ef- cavao as vinhas , fazendo huma cova nao muito pro- funda cm roda da cepa , de forte , que fe Jlie defcubra tnais de hum palmo do que eftava debaixo da terra , e as mefmas covas fe fazem por toda a terra fucceffivas humas as outras. Efte grangeio he muito util , porque fe arrancao as raizes das iiervas , abre-fe a terra para receber as aguas do inverno, defcobrem-fe as raizes que a cepa tern, lan- jado na fuperficie da terra, e os poldroes que junto a eJIas tern lanjado a cepa , para fe cortarem na poda ; porque , cortadas aquellas raizes , que por ficarem mui- to na fuperficie da terra eftao fujeitas a receber dema- iia- EcONOMICASr. ^^ £ado calor , e a fazer murchar o fruiflo , fica a ce- pa nutrindo-le pelas raizes inais profundas , e Jivre de I'entir tao facilmentc o damno do demafiado calor , e cortados os poldroes corrcm a vide que produz todos os fuccos , que para dies fe dividiriao inutilmente , enfra- quecendo a cepa , e nao Ihe deixando crear perfeitamen- te a vara produifliva para o anno. PalTado clle utiliflimo grangeio , que nenhum lavra- dor devera omlttir ao menos hum anno entre outro , e que muitos nunca fazem, fegue-fe a poda , que devendo ler feita com o maior cuidado dos lavradores , porque della depende muito a coaferva^ao das vinhas , he de ordinario a coufa que Ihe devc a menor attenjao. Se as cepas nao fao bem limf^as de todos os pol- droes , e fuperfluidades , em poucos annos fe efgotao , e morrem , e ao melmo tempo fruiftificao menos ; le el- las eftao pouco vigorofas , nao deve deixar-fe-lhe a vara inteira , devem ficar fomente com hum pol/egar , que te- nha fo dous olhos , para que as raizes fe reforcem , e correndo o fucco a poucos olJios , fe criem varas pertei- tas : fe ainda dcfte modo as nao cria , he certo que a cepa ja cfta muito enfraquecida , que le nao pode efpe- rar que ella fe reforce , e ncfles termos deve enxertar-fe em tempo compctente , para fe mergu'.har ao depois o enxerto , fendo elle o melhor , e mais acertado meio de renovar as vinhas decadcntcs. Nas cepas que eftao vigorofas nao he menos necef- Tario o cuidado , e a prudencia : era nenhum cafo le de- vem deixar muitas varas em huma cepa , por mais valen- te que eUa eftcjn : com muitas varas em huma cepa po- de alcancar-fe mais abundante colheita , mas arruina-fe a vinha em poucos annos ; pcrem fe efliver demafiadamen- te forte, convem deixar-lhe alem da vara hum folic gar de dous ou trcs olhos , para divertir os demafiados i'uc- cos , que correndo todos a huma io vara produziriao fd rama fem frucio , ou frudos que nao podelfem lafo- -nar-fe perfeitamente. Se. 5>6 M EM OR IAS Se as cepas tern pouca diflancia de humas as ou- tras , he neceflario cortar-ihe parte da vara , para que a muita rama nao embarace inteirameme a entrada do fol. Se a cepa tem lanjado varas muito fracas , e aigum poldrad vigorofo junto a terra , ou no joelho da cepa , na6 fe deve deixar efte poldrao para dar frudo , e a va- ra em pollegar , porquc o poldrao que fica atras do pol- legar diftrahe a maior parte dos fuccos , e os que cor- rem adiante ja nao fao baftantes para fazer criar liuma vara perfeita , ficando defle modo a cepa empeorada. Na poda he que fe devem eleger as cepas que had de ficar para fe mergulhar , e nifto tambem deve haver cuidado : nao bafta [6 attender as cepas que tem muitas varas compridas , e capazes de mcrgulhar-fe , e as que eftao em fituajao aonde ha falta de vinha , deve tambem olhar-ie muito a cafta de uvas que produz ; e he efta huma occafiao tambem , na qual deve attender-fe pelo melhoramento do vinho. Efte grangeio das mergulhas , ou camas , como naquelle Territorio Ihe chamao , fe coftuma fazer fucceffivamente a poda. Junto a cepa , que fe ha de deitar de cama , fe abre para fima , ou para o lado , e nunca para baixo , huma cova de flnco , feis , ou mais palmos de alto , e com a extenfao neceflaria , a proporgao da grandeza da cepa , e niimero das pontas , at^ que todas as raizes da cepa iiquem feparadas da terra , menos a principal , e mais grofla , a qual deve ficar enterrada , como eftava , e nefta cova fe langa a cepa de maneira , que fe nao quebre a raiz principal , e depois de lanjada a cepa no fundo da cova , feparao-fe as varas para os fitlos em que devem ficar , e fe vai cavando a terra dos lados , e cal- cando junto as varas , ate que quafi fe encha a cova que fe abrio , ficando as pontas das varas fo com dous olhos defcubertos da terra. De ordinario cada huma deftas camas fica fo com .tres pontas y fe a terra he muito forte , e a cepa que fe langa muito groHa , e nova , deixao-fc-lhe quatro , ou fin- ECONOMICAS. ^7 iinco pontas. Efte grangeio he muito proprio para fe mul- tiplicarem as vinhas , fuppofto que as ccpas que reiultao defta opcracao nunca cliegucm a groffura , e fortaleza das que fe criao da plantajao do bacello ; mas he o unico meio de renovar as vinhas decadentes. C A P I T U L O IX. Continua^ao da mefma materia. NO mez de Fevereiro fe entrao a cavar as vinhas , aquellas que tern fido efcavadas : he menor o tra- ballio , porque a terra efta menos dura , e nao he ne- ceilario profundar-fe mais , tendo-o ja fido pela abertu- ra das covas que fe Ihe fizerao na efcava. Aquella ter-< ra que i:az a divifao das covas he a que fe move para as tapar , e fica elevada em pequenos montes , que ficao no lugar em que amecedentemente eflavao as covas , re- folvendo-fe aflim terra , e fuffocando-fe a herva que prin- cipia a nafcer das fementes que fe efpalharao no outo- no fobre a terra. Naquellas porem que nao tern fido excavadas he muito maior o trabalho , porque alem de fe ter endu- recido a terra , caicada pela genre da vindima , fe tern augmentado efta dureza com as chuvas do inverno j pro- funda-fe com mais difficuldade , e nao fe podem fcparar bem della as raizes das hervas , que ainda fe confervao nos termos de fe reproduzir , o que nno aconrcce tendo fido as vinhas efcavadas , porque apodrecem as raizes , tendo fido arrancadas no principio do inverno. Aicm difto , a terra nao he tambem cortada na cava , que a vai deixando em montes huma fobre a outra , como o he na efcava para a aberrura das covas. i.. A efte grangeio fegue-fe o da erguida , muito util para o vinho , e para a confervagao da vinha : lia dous , Tom, III. N tern- M E M O R I A S tempos para o fazer , todos os mais fao damnofos. O primeiro , e melhor he antes de brotar a vinlia , por- c]ue fe racnea livremente a vara , fein o rifco de Ihe per- der OS olhos j e fazendo-lhe a primeira eftaca , que fe mette piroxima a cepa , algum embaraco a paflagem do fucco pela vara adiante, puxa mais perto da cepa a me- lhor vara , em q^ue no anno futuro haja de continuar-fe a ^oda , fern que leja puxada adiante , o que he damnofo a vinha. O motivo , per que affim fuccede , heporque aquei- la primeira eftaca iuftenta a vara mais levanrada do que naturaimente ficaria , e a vara para diante abaixa-fe mais , iicando gemida , como dizem , naquelle Jugar j e a dif- ficuldade que alii encontra o fucco para paflar adiante , faz que fejao melhor nutridos os olhos que eftao antes da gemidura. O fegundo , he depois que a vinha tern de todo bro- tado J e OS olhos tern crefcido algum tanto j porque nef- ta fituajao correm mcnos perigo de faltarem fora , do que quando brotao ; e fe as vides eftao ja mais frondo- las J o feu pezo erobiracaj eja tem tornado adireccao, que ao depois fe ihe faz mudar com damno das novas plantas , e mefmo do frutHio que ja efta crefcido. Met- tida a primeira eftaca perto da cepa , do modo que fi- ca dito , fe l^ie mette outra no meio da vara , ou mais de huma , f^ ella he comprida , mais baixas do que a primeira J e outra ainda mais baixa na ponta , as quaes fao efpetadas na terra , e fe Ihe ata a vide com viraes. Na vinha erguida , aiem do beneficio da vinha em Ihe fegurar vara para o anno futuro , ha os outros de ficarem as uvas levantadas do chao , com menos perigo de apodrecerem , e de ferem mais bem vifitadas do fol , para alcanjarem huma perfeita madureza. Depois de erguidas as vinhas , fegue-fe o feu ulti- mo grangeio , que fe chama redra , que confifte em ca- var de novo a terra , chegando hum maior monte della para a cepa , e deixando rafa a outra que na cava ti- nha ficado formada em pequenos montes, Ef- E C O N O M I C A s. 99 Efte grangeio he muito util , porque de novo luf- foca toda a Jierva que tern rebenrado depois da cava , e inflammaria as uvas i'e a deixafTem crefcer , e amadu- rar ; e a!em dilTo , efta volta da teira Ihe faz conrervar a fua frefcura per mais tempo , e faz que as uvas fe- jao mais bem creadas , e que as varas novas fe nutrao melhor , e fiquem mais reforcadas para a producgao fu- tura , nao fe dividlndo a fubftancia da terra para a nu- trifao das hervas que fe arrancao , e fufFocao. Defte m.odo he que os bons lavfadores cultivao as vinhas , e ainda alguns que fao mais ' cuidadofos da fua confervajao , e augmento , collumao desfazer-lhe de an- nos em annos em o tempo do inverno as paredes dos geios , mandando-lhe abrir novos alicerces , e fazendo-a? em outros fitios diverfos daquelies , em que anteceden- temente eftavao. Efta operajao he muito difpendiofa , porem muito util ; pxirque alem de extirpar as raizes das plantas e£- tranhas , que tern nafcido pelas paredes , e q^ue dellas fe na6 podem arrancar por meio das cavas , le da hu- ma grande baldeagao a terra , o que nas vinhas fem- pre he util , e concorre muito para que ellas fe reno- vem. No decadente eftado em que fe achava a agricultu- ra das vinhas do Alto-Douro , antes do anno de 1757, acontecia , que os lavradores pouco mais podeflem fa- zer as fuas vinhas , do que podallas , e cavallas : ape- nas alguns , que tiniiao rendas eftabelecidas em outros generos , as cultivavao melhor , lancando-lhe camas , e erguendo-as ^ e outros intentavao emendar a falta da cul- tura com os eftrumes que ianjavao nas vinhas para au- gmentar a fua produc^ao. Depois do dito anno , a medida que os precos fo- rao augmentando , fe foi augmentando a cultura , e ho- je a maior parte dos lavradores tern tornado bom cui- ^ado della. A introduc^ao de enxertar as cepas , que naquelle N ii lem- too M E M O R I A S tempo era ou inteiramente ignorada , ou quafi defconhe- cida , tern concorrido muito para o augmento da boa cultura das vinJias ; e aquelles lavradores , que por al- guns annos fucceflivos continuao a cultivar as fuas vi- nhas do modo que fica expofto , conhecem na colheita o lucro que anima a conrinuagao do feu trabalho. Ellas operafoes tao multiplicadas parecem a primei- ra vifla augmentar muito a defpeza da cultura ; por em fe OS lavradores penfarem hem fobre hum calculo ju- diciofo , ainda fern attender ao interefle do augmento das fuas vinhas , e da producgao , Iera6 obrigados a confefl'ar , que nao he tao grande , como fe Ihe repre- •fenta , o augmento da defpeza ; porque huma vinha que he fomente cavada todos os annos , attendendo a maior dureza da terra , e ao embarajo das hervas , e das rai- 2es , pouco menos homens levara de cava , do que le- vara na efcava , cava , e redra , fe andar bem cultivada com a terra fempre molle , facil de mover-fe , e lim- pa das hervas , e raizes , que fervem de hum grande embarago ao cavador. C A P I T U L O X. Centinuai^ao da mefma materia. A Colheita , e fabrica do vinho he o ultimo , e prin- cipal trabalho do lavrador ; o marcar o tempo com- petente para a vindima , que a todos parece muito fa- cil , nao tern pouca difficuldade. Se as uvas fao vindimadas antes da fua perfeita ma- dureza , fica o vinho fern a forca neceflaria , com de- mafiado humor aquofo ^ e com acidos de mais , e cor- re o rifco de fe corromper , fazendo-fe choco , ou vir Hagre. Se EcoNOMicAs. -lor Se as uvas tern alcanjado huma demaiiada madure- za , a parte , que os Chymicos chamao mucofa , fica com demafiado oleo , e fcm baftante quantidade de fal aci- do , e corre o vinho o rifco de fe fazer gordo , ou agro-doce. Para bem fe conhecer o tempo conveniente para a vindima , he neceflario entrar bem no conhecimento de ■que o mofto que fe efpreme das uvas nao he outra cou- fa mais do que agua , em que fao diflblvidas huma par- te alfucarada , ou mucofa, huma parte extradiva , e hu- ma parte colorante. A parte mucofa he fobre que a fermentagao faz os •feus effeitos ; as outras duas ficao intadas ^ e fa6 as que ao depois dao ao vinho a cor, e o gofto lingular, que difFerenja os de hum terreno dos do outro. A parte mu- cofa he compofta principalmente de oleo , de terra , e de hum fal acido : na fermentajao efles principios fe defunem , e por esforfos ulteriores fe unem ao depois ; mas em huma nova propor^ao o oleo , e o lal acido formao o efpirito de vinho ; o oleo , o fal , e a terra formao o tartaro , e a ludo iilo fica reduzida a parte mucofa : desde entao pafTa a fer o moflo , jfto he , agua , que alem da parte extractiva , e colorante , contem ago- ra efpirito , e tartaro. Por iifo he neceflario tcdo o cuidado para marcar o tempo conveniente de vindima \ porque fe as uvas nao efiao ainda bem maduras , nao tern aperfei^oado a parte injicofa , e reduzido a aquofa a quantidade necef^ faria. Se tern murchado demafiadamente pela cxceiFiva raa- dureza , tem-fe evaporado a agua necefl'aria para a dif- folujao dos principiOo , tem-fe enrefinado o oleo , e ji nem das uvas , nem dos feu pes , fe pode extrahir o lal acido necefTario para formar o efpirito , e o tartaro. O tempo mais conveniente para evitar eftes males for huma boa vindima , he quando os pes das uvas co- mejao a murchar-fe , e as pelles dos bagos a contrnhir- fe ;, fendo efte o final mais certo de que as uvas tem chc- 102 Memohias chegado a Tua perfeita madureza , e vad declinando pa- ra a excefllva , que lie tao damnofa ao vinho , como a falta della. A feitorla do vinho he muito laborlofa nefte ter- ritorio. ; a conduc$:a6 das uvas para os lagares da humj grande trabalho , por caufa dos niaos caminhos , por onde' elJas devem fer conduzidas. Depois de cheio. o Jagar do uvas entra dentro hu- ma quantidade de homens , proporcionada a grandeza do lagar , para pizar as uvas , e mettellas a vinho : a maior quantidade de homens poflivel que fe mette nos lagares , em quanto o vinho nao entra a ferver com for- §a , he muito util para a bondade do vinho ; porque ef- ta he a eftajao cm que as uvas fe deixao levar ao ejlro do lagar pelos pes dos homens para fe efmagarem bem , e fe Ihe extrahir a cor da cafca , e o accido , e forga dos pes das uvas : em fervendo o mofto com toda a for- ^a , menos homens baftao para continuar na fotflura do vinho , que continuadamenie trabalhao por tres dias fuc- ceilivos de dia , e noite. Muitos lavradores Ihe tirao os homens todas as noi- tes J dep(f)is que elle ferve , desde a meia noite ate de manha , fio que fe tem experimentado beneficio para o vinho , pois fp obferva que defte modo fica o vinho mais encorpado , mais carregado de c6r , mais forte , e com menos do^ura. No tempo antecedente , em que dominava o gofto de vinhos doces , nao fe davao ao mofto no lagar mais de quarenta e oito horas , e havia hum grande cuidado de que o pe nao levantaffe tempo algum , fenao pouco antes de fe abrir ao lagar , para fe fazer a feparajao do liquido , e nao fahir mifturado o pe. Depois que o gofto mudou , dao-fe inftintflamente ao mofto fetenta e duas horas de lagar , para com a conti- nua^ao do trabalho fe desfazer mais a cafca para augmen- tar a cor , e fe extrahir mais dos pes das uyas a afpe- reza que delles fe communica ao vinho. Po- E C O N O M I C A S. T03 Porcm ha erro nefta indillinc^ao : nem tcdos os vi- nhos podem com o melmo trabalho no Jagar : o modo de conhccer o trabajho com que pode o vinho , lie pe- lo augmento , eftado , e diminuigao da fervura : ella fax elevar o vinho no Jagar ate huma certa allura , em que le conferva por algum tempo , e dcpois cntra a dimi- nuir : quando fe v6 diminuir j he o tempo em que a fer- vura vai perdendo a fua forja , c entao fe deve tirar o vinho do lagar ; porque fe fe deixa abatter muito no la- gar a forja da fua fervura , falta a que Ihe he necelTa- ria , para nos toneis fazer todos os esforjos da fermen- tayao perfeita , e fica o vinho neceifariamente menos bom , do que ficaria fe foife no tempo devido mudado do lagar para o tonel •, de forte , que fe no lagar fe di mais tempo de trabalho ao vinho , do que aquelle que Ihe convem , logo fe ve que tirando-fe os homens para Ihe abrir , elle nao pode levantar hem o pe aifima por falta de for^a. Depois de envafilhado o mofto nos toneis fe Ihe langa agua-ardente , e illo muitos lavradojcs o fazem fern difcernimento algum. A agua-ardente langada na fervura ao mofto diminue-lhe a fermentajao j e fe he em mui- ta quantidade , chega a fufpender-lha. Efta diminuicao da fermentacao pcSde fer muito da- mnofa ao vinho , e fazelio gordo , ou agro-doce : o mais feguro he nao lanjar agua-ardente na fervura aomoito; porem a fazer-fe , deve fer com iatelligencia. Se o mollo abundar muito da parte aquofa , e que a parte mucofa feja em pouca quantidade , e tenha me- nos oleo do que he necelTario para Ihe formar o cfpi- rito de vinho , e tiver demafiados acidos , que no vi- nho pouco efpiriruofo defcobrem hum gofto defagrada- vel , he o cafo em que he conveniente lupprir cftes dc- feitos com alguma agua-ardente na fervura , porem fem- pre deve fer em pouca quantidade. Se a parte aquofa he pouca , e a parte mucofa do- mina , contendo maior porqao de olco , do que de aci- T04 M E M O R r A S cidos , nao fe deve abfolutamente lancar aguardente na fervura do moflo. Depois de fe finallzar a fermentacao he util o lan- car agua-ardente no vinho , porque ja neRe tempo nao pode preverter a ordetn dos principios , e augmenta a forfa do vinho , concorrendo para a fua conlervajaS ; mas deve attender-fe a que feja fern defciro algum , por- que'todos os que tiver communica ao vinho com augmen- to ; e que nao feja em tanra quantidade , que o feu fa- bor fobrefaia ao do vinho. For ilTo os bons lavradores Iha lan^ao de dias em dias em pequenas quantidades, pa- ra que a prova Ihes enfine , fe hao de lanjar-lhe mais , ou fe he baftante a que ja tern. C A/P I T U L O XL Continua^ao da tnefma materia. OS vinhos para ramo na6 leva6 o mefmo trabalho no lagar ; nao porque muitos daquelles que ficarad fora da demarcagao da feitoria nao fejao fufceptiveis del- le , mas porque tanta defpeza na6 cabc nos limites do feu prego , e por ella raza6 fica muito vinho do Alto- Douro prlvado do beneficio , com que poderia fer mui- to fuperior na qualidade. So os homens que fao baftantes para pizar as uvas , fad OS que fe mettem nos lagares de vinho de ramo , e pafladas vinte e quatro horas de fervura no lagar , fe Ihe abre para o envaulhar, deixando-o nos toneis inteiramen- te aos esforfos da natureza ; porque os pequenos prejos da venda nao animao os maiores beneficios. Nos tempos antecedentes ao anno de ij^j poucos lagares fe conheciao no Alto-Douro , que excedeifem de 4 ate 8 pipas , e os toneis erao regularmente das mef- mas grandezas j porem hoje huns e outros va6 quafi de ECONOMICAS. lOf d€ 8 at^ 20 pipas , e mais , e nifto ha grande utilida- de para a qualidade do vinho , porque ella fe augmen- ta muito pelo ajuntamento de grandes quantidades j tan- to nos lagares , coir.o nos toncis. A regra ordinaria do niimero dos hoffiens , que fe metrem nos lagares de vinho de feitoria , he de dous homens para cada pipa de vinho , de forte , que em hum lagar de 8 pipas entrem dezefeis homens , e dcpois de entrar o mofto no augmcnto da fervura , fe Ihe pode di- minuir huma rerga parte dos homens. De tudo o que fica diro neftes quatro Capitulos fe oonhece bem o melhoramento , que desde o anno de I75'7 tern tido o methodo de cultivar as vinhas , e fa* bricar os vinhos. Suppofto que o augmento, que fe tern introduzido nos precos, firva dc obftaculo para que todos os lavra- dores poflao animar-fe a profeguir no augmento da cul- tura das fuas vinhas , he incrivel o niimero de gente que occupa a fabrica do Alto-Douro. Pelo calculo mais racionavel , de que a ter^a parte do produ(flo dos vinhos defte territorio fe confome na fua fabrica , vem a occu- par-fe nclla diariamente mais de vinte mil homens : a maior parte defies , por infelicidade da nagao Portugue- za , fao do Reino de Galliza , os quaes merecem de or- diuario a preferencia dos lavradores pela fua humilda- de , e fujeijao ao trabalho , e porque fe contentao com alimcntos nienos difpendiofos. Por efle modo fe extrahe huma grande por^ao do produ(flo do Alto-Douro para o Reino de Galliza ; na6 he ifto porque Portugal nao tenha gente de fobejo para efta fabrica , porque no anno de 1761 > em que a gente de Galliza nao paiVava a Portugal , defceo tanta das mon- tanhas para a vindima defte territorio , a qual occupa mais de quarenta mil pciToas , que parte della voltou para a fua terra , fern ter quem a occupafle , e os jornaes fo- rao mais diminutos do que em outro algura anno , quan- do OS lavradores temiao que , alem de fe augmentar , Tom. Ill O nao 106 M E M O R I A S nao tiveflem gente baftante para a viudima j he Cm pe-* la ruinoia indolencia , e perguija dos Portuguezes. A talta de coiicurrencia de jornaleiros , e a necefr fidade que ha de tazer a maior parte dos grangeios em tempos certos , tetn produzido o augmento dos jornaes , e das mais dclpezas dacultura, de que fao i'empre ori- gem OS jornaleiros Portuguezes em detrimento defte ter-' ritorio , e utilidade de Galliza. Antecedenteraente era efta aordem dos jornaes: des- de o fim da vindima ate 25" de Margo a toltao por dia , e alimentos menos difpendiofos , excepto o pao , o qual I'empre h^ por conta dojornaleiro : desde 25 de Marja ate o fim de Abril a feis vintens , e raelhor alimento : desde o fim de Abril ate o iim de Maio a f^^te vin" tens , e hora para defcanjo da iHla : e no mez de Ju- nho , como o calor nao perniirte que fe traballie todo o dia , a quatro vintens ate ao jantar : na vindima a feis vintens por dia , com obrigacio das meias noites do lagar. Agora toda efta ordcm fe tern alterado : no princl- pio de Fevereiro querem a feis vintens , e melhoramen- to de comida ; no principio de Margo a fete vintens ^ no principio de Abril a oito > e nove vintens , e hora para defcanjo da fella ; e na vindima a fere , oiro , e nove vintens : e de outro modo defimparao o ferviyo , e OS lavradores que nao tern na propria terra outros jor- naleiros com queni fubftituao o lugar daquelies , e a quem infta a neceffidade de adiantar o feu fervifo , fad obri- gados a pagar aquelles excelTivos jornaes. Elle objeiflo nao merece menos atten^^ao , do que a lavoura do Alein-Tejo , para a qual fe deo, pelo r)ecre- to de I) de Junho de I75'6 , providencia , em que fe obvia o augmento do jornal coftumado dos eeifeiros , e fe determina o modo , pelo qual nuo falteni os eeifeiros neceflarios naquella Provincia , nem defertem do fervico que come(j:a6. Huma providencia femelhaute aquella, ^ aGCommor da- ECONOMICAS. 107 dada a natureza do terreno , que impcdifle o augmento dejornaes, reduzindo-os ao cllado antcccdcnte ; que pro- hibifle aos lavradores fervir-fe para a fua grangcaria com homens que nao foflem doReino, ou domiciliarios nol- le ^ e que ao melmo tempo provene a que a gente fu- perflua nas ties Provincias da Bcira , Minho , e Tras-os Montes , viefTe ibrvir ao Altc-Douro nos tempos com- petentes para o grangeio , e colheita das vinhas , fen'a cie huma grande utilidade a efte terrirorio , augmentaria a riqucza do Reino , e dcflerraria delle em grande par- te a mendicidade , e o ocio tao nocivo a qualquer na- 536. C A P I T U L O XII. Em que fe trata (las Jnjlituipes da Compaiihia Ge- ral da Agricuhura das uinhas do Alto-Douro. AS Inftituigoes da Companhia , formadas em 5'^ pa- ragrafos , forao confirmadas por S. Mageftade : nel- las , dcsde o § i , are ao § 9 , fe eftabelece o corpo politico que fe deve formar para o Governo da Com- panhia , que vem a fer hum Provedor , doze Dcputa- dos , feis Confelheiros , e hum Secrctario ; e ao arbitrio, e elei^ao defies hum Deferrbargador Juiz Conferv?dor , hum befembargador Fifcal , Jium Efcrivao , hum Meiri- nho , Caixeiros , P'eitores , Adminiftradores , Commifla- rios , Efcrivaes deftes , e os mais Officiacs , que julgaf- fem necelTarios para o bom governo da Companhia. Nao fe pode conceber huma adminiftra^ao mercan- til menos fimpies, e mais comph'cada : tanto Deputado, tanto Confelheiro , Caixeiros fem conta , Feitorcs , Com- miflarios , e Efcrivaes delles , e outros Officiaes , fazem huma adminiftra^ao difpendiofa de mais de cem mil cru- zados , fo pelo que refpeita a interefles peflbaes , e orde- nados , o que he inteiramente contrario a fimplicidade O ii mer- io8 M E M R r A s mercantil , e faz diminuir o pre^o das compns , e au- gm^iuar os das veiidas feni lucro dos Accioniltas , e com damno do Coinmerjio. Cafas particulares de negocio fa- zem cii'cular maiores fundos com hum chefe , tres , ou quatro caixeiros , e poucos fei tores , e commiflarios. Hum corpo tao gigantefco lie niais difpendioio , mas nao he mais ad:ivo : as multiplieadas potencias aug'vienta'^-lh« a defpeza , mas nao liie augmentao a celeridadv.'. Se ellp foffe fimplicado o mais que fofle polRvelj feiia iflo mui- to util , porq^ue fe poderia achar melkor extrac? lo ^q ge«ero com a commodidade do preco , dimiimidab ta6 grofTas. , e defnecenarias defpezas. No § lo fe declara qual feja o principal objedlo da. formajao da Corapanhia, : nclle fe d}z , que he „ fut- 3, tenrar com a reputa^ao dos vinhos a cuitura das vi- ,5 nhas , e beneiicjar ao mefmo tempo o commercio , „ que fe faz ncfle gjnero , ellabelecendo par.a. elle iium 5, prego regular , de que refulte competente conveniens „ cia aos que o fabricao , e relpedivo lucro aos que „ nelie negoceao , evirando' por huma parte' os pre- j, fos exceffivos , que, impofTibilitando o coniummo , ar- j5 ruina6 o genero j evitando pela outra parte que efte 5, fe abatra com tanta decadencia , que aos lavradores 3j nao polfa' fazer conta fuftentarem as defpezas annuaes ,, da fua agricukus\a. E fendo necelfario para elles uteis J, fins eftabelecer os fundos compeeentes , fera o capital ,, defta Companhia de hum miihao', eduzcntos mil cru^ ,j zados . .. . para que a Companhia poiTa afTim cumprir 3j, com as obrjgaeoes de cccorrer as urgencias da^ lavou?- 5, ra , e GGmmercio. „ lilo^ ouvidb affim por certo que faz lembrar to* go huma focicdade economka de bons patriotas y af^ fociados para ibccorro' , e auxilio dos feus compatriO" tas-. Mais confirma illo mefmo o § ii , em que fe diz que „ pelo fobredito fundo empreftara a Companhia aos « la- ECONOMICAS. 109 '„ lavradores nece/litados , nao fomemc o que Ihe for „ precilo para o fabrico , e amanlio das vinhas , e co- „ Iheitas dos vinlios , mas rambem o que mais Ihes con- „ vier para algumas daqiiellas djfpezas miudas , que a „ confervajao da vida humana faz quotidianaaientc 111- „ dilpenfaveis , fern que por eftes empreftiiiios Ih^^s leve „ maior juro que o de tres por cento ao anno ; cOiH tan- „ to que OS referidos empreftimos nao exccdao amcta- „ de do valor commum dos vinhos , que cada hum dos ,j taes lavradorcs coftuma recoiher. „ Mas nem tudo he o que parece : o fundo de huTi milbao , e duzentos mil cruzados , depois fe ampiiou a mais ieiscentos mil cruzados pelo Alvara de 16 de De- zembro de 1760 no § 7 , artcndcndo as delpezas , e empates com as fabricas das aguas-ardenres , fazendo bum total de hum mi ha6 , e oiiocentos mil cruza- dos , tern fido todo applicado para o unico fim do feu commercio exclufivo das tavernas do Porto , e ter- ras adjacentes ; do vinho que fe iiavega do Porto para o Brafil ; de algum de feitoria > que comprao para re- vender no Pono aos commeiciantes exportadores y e das aguas-ardcntes. He bem verdade que tcm-ie feito algur>s emprdlimos dos que fe prometiem no § 11 \ porem ifto he poucas vezes , e de annos em aiinos , excluin- do-fe ccDtenas de pertendentcs , para fe hum lervir , ou outro. O eftahelecimcnto de hum prejo regular aos vinhos. nao tendo fido apoiado fobre fundamento algum folida,^^ que o fizeffe eftavel , e firme , como fe moftrou no cap. 5. delta Memoria , nao fe pode dizer que fofle tambem o fim delta Companhia : conhecendo-fe bem por tu.lo if- to , que o fim primario , que fubftanciahnente fe defco- bre na formajao delta Companhia , foi o iiiterefle da feu proprio commercio, pretextando com apparencias ef- peciofas aos privilegios exclufivos que aicanjou para o fazer» Nos lio Memorias Nos §§ 12 e 13 fe concedem aCompanhia os por- tos do Bralil para o feu Coi-nmercio , e le manda efta- belecer hum fundo de dez iril pijras de vinho bom , e capaz de carrega^ao para o prcvimer.to dos ditcs por- tos , dcllinando-fe-lhe no § 19 os das cuatro CapitPiu'as de S. Paulo , Rio de Janeiro , Bahia , e Perr.ambuco , com o privilcgio exclulivo para todcs csvinlio?, aguas- ardentes , e vinagres , que le carregarem da Cidade do Porto para as ditas quatro Capitanias : e he para rctar , que dirpondo-fe no dito § 13 para os portcs do Erafil vinho bom , e capaz de carrega^ao , difpcndo-fe no § 29 , que fe faja huma inteira , e abibluta fepara^ao dos vinhos das collas do Alto-Douro por n.eio de huma de- marcagao para o embarque da America , e Reinos ef- trangeiros ; e difpondo-ie no § 33 , que a Companhia pague inalteravelmente todcs os vinhos que tirar para o feu embarque pelo? prejos de 25* , e de 20(|)ooo reis , ou de 25* , e 30(^000 reis , que ao depois pelo Alvara de 17 de Outubro de 1769 fe paifarao os de 20 para 1^ , OS de 25" para 30, e os de 30 para 7,6^000 r^is, com tudo a Companhia o nao obferva. Como defta demarcaca6 da feitoria ficarao excluidos muitos vinhos finos , que ficarao com o deftino de ramo , ella OS compra para o commercio do Brafil pelo pre^o de ramo , e nao carrega os vinhos de feitoria , que tern fempre ficado inteiramente dependentes do confummo que Ihe quer dar a Inglaterra , nao fendo proprios pela fua demafiada fortaleza para fe beberero. no Reino , e nao fe exportando para o Brafil. CA- ECONOMICAS. Ill c A p I T u L o xm. Continua^ao da meftna materia. ESre Commercio dos vinlios do Alto-Douro para o Brafil foi o que mais occupou as villas dos funda- dores delta Coinpanhia : elle fez a mareria dos §§ 12 , 13 J 15" J 16 , 17 , 18, 19, 20, 21 , 22 , 2^ , 24, 25, 27 , e 36. Nos §§ 15 , 16 , e 17 fe trata dos fretes , c car- regacno dos vinlios para o Brafil. No § 18 fe eftabelece a commilfao de fels por cen- to pela adminiftrajao do Provedor , e Deputados da Com- panhia , dos Feitorcs que nella fe emprcgarem no Bra- fil , e ordenados dos caixeiros que tiver na Cidade do Porto contados nella forma : dous por cento fobre o em- prego , e dcfpezas feitas pela Conrpanhia na Cidade do Porto i dous por cento nos precos da venda y e dous por cento no produdlo dos rctornos , e defpezas na Cidade do Porto -y e que com elles feis por cento ficara fatisfei- ta toda a adminillrajao que pertence ao commercio , fem que a Companliia feja obrigada a outra aiguma defpeza deila natureza ; e que fo lim o ferd das que llie relul- tao dos ordenados dos Minillros , e dos mais Officiaes , que liao de compor o feu corpo politico , e economico , como tambem dos alugucres das calas , e armazens , que tudo correria por conta da Companliia. Eis-aqui hum dos etfcitos da pouco fimples admi- niftragao da Companliia : efta commiflao nao he excefll- Ya , attendendo-fe a muita gente que fe occupa" nefta adminillracao ; mas ella faz crefcer tanto os pregos das vcndas , que didiculta o confummo. Os §§ 19 e 24 contem o privilegio exclulivo . para a introduc^o de vinhos , aguas-ardentes j e vinagres car- xegados iia Cidade do Porto para os portos d!as ditas qua- 112 M E M R I A S quatro Capitanias de S. Paulo, Rio de Janeiro, Bahia , e Pernambuco. O motive que no dito § 19 fe propoz para a con- ceflao defte privilcgio , foi para que a Companhia fe pudeile fuftentar , e tivefTe hum lucro compenlativo dos encargos , a que por efta fundajao ficava fujeita : quaes fejao eftcs encargos he difficultoio de adivinhar : ella nao fe obriga a comprar todos os vinhos que ficafTem por vender aos outros commerciantes , que elle feria o en- cargo que merecefle lucro compenfativo pela ucilidade que deveria produzir : e o encargo dos empreflimos , a que fe obriga no § 11 , tem fido tao mal defempenha- do , que nao merece huraa compenfajao tao coiifide- ravei. No § 20 fe eftabelece o lucro certo que a Compa- nhia deve ter fobre as aguas-ardentes , vinagres , c vi- nhos ; e na verdade fe eftabelece de maneira , que nao p6de adiantar-fc o confummo , porque ricao os pregos da venda exceffivos. O vinho , por excmpio , com 16 por igo de lucro, 4 por 100 de commiflao, e i por 100 de cofre fobre o cufto principal , vafilha , carreto , embarque , direitos de fahida , e entrada , fretes , e mais defpezas , que com el- le fe fizer at^ o a e igualdade. Os vinhos de rarao , que fao deftinados para as ta- vernas do Porto , e terras adjacentes , e para nelias fe venderem a vintem cada quartiilio , que fao os maduros dos altos de fima do Douro , forao taixados para o pre- §0 de l2(|)coo r^is no dito § 33 > mas efte prego, que iiao feria capaz de tirar da miferia aos lavradores , que fbiTem obrigados a viver fo defta qualidade de vinhos , foi reduzido ao prejo de iO(|).5;oo rcis , e ainda dcf- res fe IJie diminuem as defpczas do carreto , desde a adega do lavrador ate ao caes do Douro , cm que fad embarcados , que fiiz abater tanto o preco ^ que o lavra- dor emboiya , que eu nao fei como lia quern continue na cuhura defta quaJidade de vishos ; pois fendo huma grande parte delles produzidos em terra de tao pouca producjao , como as deftinadas para embarque , e fendo a fua cultura igiialmente difpendiofa 5 nao pode ficar hum produdo liquido ^ q^ue conipenfe os trabalhos do lavra- dor V ECONOMICAS. 115" dor J o qual efta impoflibilitado a bufcar melhor prejo* porque palHindo a Companlna pclos feas Commiflario^ a fazer logo dcpois da vindiina hum arrolamento rigo' rofo de todos os vinhos defta qualidade , os abarca6 to" dos para ercolherem nelies os mclhores para as fuas car" regajoes do Brafil , e provimentos das tavernas da Cida' de do Porto , e mais terras , em que Ihe foi dado pri* vilegio exclufivo , que annualmenre confomem i7e nao pofla refuhar hum compofto perfeito , he certo , que o vinho branco repe- te de tempos a tempos huma nova fermentajao , alte- ra- fe , e ferve , e le torn a por li mefmo ao feu perfei- to eftado : o vinho tinto , que nao tem efta natureza , hu- ECONOMICAS. 12^ huma vcz alterado pela revolu^ao do vinho branco , cor- re o rifco de nao tornar a alH-ntar, e ficar fempre en- volto. De mais dillo , a miftura de hum com outro pro- duz huma cor fraca , e md j porem ifto , que he appli- cavel a refpeito de miftura de grandes qiiantidades , nao deveria proceder a relpeito de pequenas porj oes de uvas chamadas malvafias , q gouveos , que milburadas com as uvas tintas , fazem o vinho mais delicado , mais fuave, e de hum gofto muito mais agradavel , e em higar de caufar damno ao vinho , Ihe caularia efta miftura , fen- do permettida , confideravel beneficio , porque a todas as uvas tinras t'alta aquella fuavidade , e delicadeza de gofto , que i'e acha na malvalia , e no gouveo. No § 4. fe determina , que attendeiido a diminui- fao , que pela defeza dos eftrumes ha de precifamente haver na quantidade dos vinhos de erKbarque , e ao au- gmento que hao de ter na qualidad« , ampliando o § 33 da Inftituifao da Companhia , feja6 os prejos de vinhos da primeira forte , que no dito § eftava6 taxadcs de vin- te e fmco , e trinta mil reis , a trinta , e trinta e feis mil r^is , e os do vinho da fcgunda forte , que erao de vinte , e vinte e finco mil reis , a vinte e fmco , e trin- ta mil reis , com tanto que os lavradores nunca polTao exceder os precos defta amplia^'ao. Os §§ 5" , 6 , 7 , 8 , e 9 contcm providencias , pa- ra que OS carreiros , e barqueiros fe hajao com a devi- da fidelidade na conducao , e tranfporte dos vinhos. No Alvara de 16 de Dczembro de 1760 le toma em confideraij'ao ter moltrado a experiencia , que os la- vradores de vinho nao tinliao no conlummo ordinario s 3-^ das Inflituicoes , fe dirige a evitar as mif- turas de vinhos de ramo com os de eir.barque. No § I deile Alvara fe manda fazer iium Mappa , e Tombo das terras que produzcm vinhos de rair.o , a imitajao do que no § 29 das Inflituicoes fe tinha orde- nado para as terras de fcitoria. No § 2 fe manda guardar com a maior cautela ef- te Tombo no Archive da Companhia , para os Commif- farios fe inftruirem do que produz cada vinha , e averi- guar no tempo das provas fe exifliao as quantidades cal- culadas no Tombo , ou fe tinhao fido introduzidas pa- ra a feitoria ; ordenando-ie a efte fim no § 3 , que os donos das fazendas que produzem vinhos de ramo , de- vao deciarar em toda a occafiao por authenticas provas a quern vendera6 o vinho , debaixo da pena de tresdo- bro da lota^ao das vinhas. Eftas providencias de nada fervirao : fez-fe o Tom- bo j por^m o augmeiito , e diminuigao a que eftao fu- jci~ ECONOMICAS. 127 jeltas as vinhas , os donos , que ruccefTivamente tUv.a mudando ou por falccimento , ou i)or parnJlia , ou por vcndas , fazem que o Tombo de nada fiiva cm pouco tempo. Alem dido , os laviadorcs que introduzia6 vinhos de ramo para a fekoria fubiliiuiao clandeftinamcnte as inefmas quanridadcs com outras , que faziao vir de fo- ra do de[biifto tombado , augmentando-fe delle mo- do as quantidades , e a;Tuinando-i"e ainda mais as quali- dadcs. No § 4 , ampliando-le os §§ 29 , e 30 das Infti- tuicoes , Ic aug.menta6 as penas ao? que introduzirem vi- nhos de ramo 110s deftri^ftos da fciroria , e i'e eftabeleccm outras contra os almocreves , carreiros , e peflbas que fi- zeilcm OS tranl'portes defies vinlios. No § 5' le mandao tomar denuncias cm fegredo pe- lo Juiz Confcrvado- da Companliia , para que , quaiifi- cando-Ie de verdadeiras pela corporal apprehenfao , e aclia- da , proccda a (equeftro , e vcnda dos viulios , ame- tade em favor da Companliia , e outra dos denuncian- tes. Parece nao fer facil de pr.iiicar o dilpofto nefte § : o Coniervador ai'iifte na Cidade do Porto , e muito dif- tante do Alto-Douro ; as mifturas fazem-le em brevif- fimo tempo , e depois de feitas lao inaveriguaveis por corporal apprehenfao , e achada , fo depois de feitas he que eftao no caio de ferem denunciados j e quando fe vao detiunclar ao Porto , e fe vem fazer a appreheniao , ja nao ha que apprchendcr , e que achar. O § 6 contem materia da maior certeza , e digna de todo o refpeito , em quanto declara , que os Eccleliaf- ticos devem obedecer , c fujeirar-fe a todas as difpoli- §6es Regias em materias temporaes. Contra efte princi- pio fcmpre ccrto , e fempre verdadeiro parece , co- mo fe refere nefte paragrafo , que os Ecclefiallicos le tinhao arrogado iiuma ei'candalofa ifengao de vender ^ Companhia vinhos de ramo das fuas fazcndas pc- los prejos taxados na Inlbtui^ao da mefma Compa- nhia , e que com ido fakavao ao refpeito devido as dif- po- T^2 M E M O R I A s pofijoes Reglas. Poretn fe nem os Ecclefiaftlcos , nem OS ieculares iao obrigados por lei alguma , ou difpofijao Regia , a vender os icus vinhos a Coinpanhia ; como Fal- tao aquelie refpeito em Ihos nao queierem vender , ou feja porque o prejo llie nao contenta , ou por outro al- gum principio ? Eile Alvara foi refulia de liuma repre- ientacao da Companliia , como fe ve do feu principio ; e como o maior interefle defta foi fcmpre em ievar os vinhos de ramo de rcdcs os modes , nao quiz que hou- vefTe alguem que pudefle nce;ar-llios, e fez carga aos Ec- clefiafticos , em que mais facihnente podia affear a fua renitencia , para extorquir eita difpoficao a refpeito del- les , e poder daqui conciuir , que fe nem os Ecclefiaili- cos podem negar-lhe a venda dos feus viniios , muito me- nos o podem fazer os fccuiares. Se a Companhia fe tern' fempre queixado da redundancia , e demalia do genero , que maior caftigo podia procurar para os que nao Iho quizeifem vender, do que o de nao ihos comprar? Sao iflo inconfequencias difficultofas de comprehender. O Alvara de 17 de Outubro de 1768 prohibe , der- rogando para efte fim os §§ 31 , e 34 da Inftitui^oes da Companhia , que do Alto-Douro fe tranfportem vinhos para Lisboa : fao muitos os motives que ie apontao pa- ra efta determinacao ; fe entre elles fe acha algum iblido , nao pafla de hum , os m.ais todos debaixo de diverlas ap- parencias fuppoftas deixao ver , que o fim diilo foi im- pedir aos lavradores das tres Provincias poder dar aos ieus vinhos de ramo outro confummo , que nao feja o das tavernas , e lambiques da Companhia. O Alvara de 17 de Outubro de 176^ he fundado em motivos femelhantcs. Para entrar melhor no elpi- rito com que fe requereo efte Alvara deve notar-fe , que entrando muitos commerciantes nacionaes da prafa do Porto pelos annos de 1767 , e 1768 no conhecimento da grande reputa^ao que os vinhos do Alto-Douro tinhao recuperado nos paizes eftrangeiros ; e que a Companhia , nao tendo privilegio ajgum excluflvo para as compras dqs E G O K 6 M I G- A 's. 11^ dos vinhos de enibarque , os comprava para revender no Porto com muito confideraveis lucres aqucJIes Commifia-' rios Inglezes , que , ou por Falta dc dinheiros , ou pot nao terem tido a tempo competeiite orders do Norte , nao tinhao feito compras dos vinhos neceirarios para as luas carregafoes , fern que a mefma Companhia os expor- taile por i'ua conta , quizerao entrar a fazer a mefma ef- pecie de negocio , e ate a mandallos para o Norte por ilia conta , debaixo do emprellado nome de algum Inglez , que nillb confentia. No anno dc 1769 nafcerao poucas uvas , e he cer- to que ha via de haver huma colheita efteril : quizerao OS ditos commercjantes Portuguezes precaver-le a fegu- rar as luas compras , tanto na quantidade , como na elcoUn dos fitios que produziao os melhores vinhos : para ifto fizerao as fociedades neceflarias para fornecer OS cabedaes que fe faziao indifpenfaveis , e entrarao logo na colheita a fazer as fuas compras pelo prefo de 36(^000 reis cada pipa , conhecendo-fe ja muito bem ipela colheita a efterilidade do genero , e a fua bon- dadc. At^* elle tempo fempre tinhao fido livres a cada hum 35 compras , e vendas , copforme os feus voluntarios ajuf- tes , com tanto que nao excedeifem os termos da ulti- ma taxa de ^6^000 reis , fern que ate entao tiveffe ha- vido pratica de alguma providencia para a leparapo das qualidades do vinho. Elle he o fa6lo , fobre que re- cahio o dito Alvara , com toda a fua limplicidade , del- pido de toda a affeftajao j e fern mdfcara alguma. Ton?, in. R C A- |jja M E M Q p t A S ^- C A P I T U L O XVIIL Continua^ao da mefma 7'daterJa, SObre efte innocente fado , a que Lei nenhuma re- pugna , fe folicitou o Alvara , que , confrontado com o verdadeiro fa(fto , mollra que , preveitendo-le os nomes das coufas , fe obrinha hum caftigo contra tudo o que aflbmbrava o intereffe particular da Companhia , ainda que folTe em commum bencficio da lavoura. No principio do dito Alvara aos negociantes que entrarao neflas compras , chama-fe-lhe mal intenciona- dos , e monopoliftas , e ao faclo monopolio , e tra- velHa , reprovada com tranfgraluio notoria da Ordenajao do livro qvinto , titulo 77. Efta Ordenajao proliibe no principio a compra de ■yinho para fe tornar a vender no lugar onde fe com- prari , e no § i fe diz , que ,, as pellbas que quizerem 3, comprar vinho , ou azcite ^em hum lugar para o le- 53 var a vender a outro , o poderao fazer. „ Eis-aqui como efte fa*.T:o nao era contrcirio a dita Ordenajao j quanto mai$ , que eftes negociantes haviad de levar os vinhos cmbarcados pelo Douro para o Por- to , e Ihe con.iao o rifco i e alem dilTo , poderiao ex- portallos por fua conra , como tinliao ja feito a alguns. Ainda fe diz mais no principio do dito Alva- ra , que o dito facTto he tambem notoria tranfgreiTao das Leis efpeciaes eftabelecidas para o governo da dita Com- panhia 5 quando nao era mais do que huma ofFenfa do interclfe particular da mefma Companhia , mas em be- neticio da lavoura , e do commercio : a primeira tranf- grelfao he , que os chamados At ravejf adores forao abar- car ECONOMICAS. I3r car OS vinhos pelo fummo prefo de ^6'^ooo reis an- tes de fe fazerem as devidas Icparacoei; de qualida- des determinadas nos §§ 14 , €33 das Inftituifoes , e no § 4 do Aivara de 30 de Agofto de ly^j , e an- tes de fe ter conhecimcnto da bondade dos vinhos com- prados. Aflim he que nos rcferidos §§ fe falla dc vinhos da primeira , e legunda qualidade , e da primeira , e fe- gunda forte ; mas ifto tinha ficado fo em rifco, fern que ate aquelle tempo fe tiveffe praticado , como jd fe dif- fe , nem fe tivefle providenciado quern havia de fer ar- bitro das ditas feparajoes. Quanto ao conhecimento da bondade do vinho , efle fe alcanja muito bem pelo efla- do da colheita. A outra tranfgrefTao que fe figura , he a de fe excederem as taxas eftabelecidas com a defordem de fe comprarem pelo preco fummo os vinhos da fegun- da qualidade , que ainda nos annos mais favoraveis coftuma fempre haver em todos os terrenos : mas ifto nao era deibrdem , ^porque por hum bom conhecimen- to dos terrenos fe fabe muito bem quaes fao os que produzem vinhos mais finos ; e alem diifo , ate aquel- le tempo o ajuite das partes tinha fido o arbitro dos prefos dentro dos" limites do ultimo ponto de 36(^)000 reis. A outra tranfgreflao em fim confiftia em fe arrui- nar pclos feus fundamentos a Inftituigao da Companhia, e as faudaveis providencias deila : as muitas razoes , que para iilb fe trazem , reduzidas a poucas palavras , vem a dizer em fubftancia , que elles novos chamados Atra- veJJ adores , e Monopolijias embaragavao a Companhia de fer unica em praticar o mefmo monopolio , e travef- fia , ficando fo no campo para poder comprar por pre- jos menores , e vender por maiores. Para obviar ifto , que fe reprefentou pela Compa- nhia tao criminofa malicia , fe eftabelece , no § i , que OS lavradores nao pofta6 vender os feus vinhos an- R ii tcs l^Z M E M O R I A S tes de vinte de Novembrp , e de ferem prov^ados para ccnilarem as qualidades delles. No § 2 , que ncnhuma reilba nacional , ou eftran- geira pofia compiar viniios no, A J to-Dour o antes do pri- n.eiro de Fevereiro , nao fendo dos Commiilarios que OS coftumao exportar para o Norte , ou que para iffo ellabelecerem cala ; e que fe nao confundao as qualidadcs dos vinhos , ou fe excedao as taxas. No § 3 , que as pelioas que tiverem vinhos de em- barque nao poflao rccufar a venda delles a qualquer que Ihe propuzer a venda delles pelos prejos taxados , fendo a Companhia , ou Commillario rranfportador para o Nor- te. , menos que nao provem per modo concludente a venda anterior fern dollo , ou malicia , dcclarando a pef^ fca a quem venderao. Ellas difpofig:6es tern fido de mui- to incommodo para os lavradores , que neceflitao va-- ler-fe para as fuas neceflidades de alguns dinheiros adlan- tados ibbre as fuas novidadcs ; porquc devendo-fe fazer a venda dellas dcpois de 20 de Novembro de cada an- no ao primeiro comprador que Jc propuzer , nao p6de achar-fe quem anticipe o ieu dinheiro na incerteza de receber o vinho para feu pagamcnto , uem fica. livre ao lavrador efcolher aquelle comprador que Ihe for mais grato , e favoravel na promptidao do pagamcnto. No § 4 fe ordena , que os compradores de vinhos nacionaes , ou eftrangeiros , que es nao comprao para os navegar para o Norte , fejao obrigados a regular-fe pe- las mefmas taxas , e qualilicacoes : nao ha maior incon- fequencia. No mefmo Alvara , cm que fc pune como traveffia a compra feita de vinhos p^ra os nao navegar para o Norte , fe manda regular efta qiialidade de compras den- tro dos limitcs das taxas , e qualificajoes. No mefmo § fe confere a Companhia o arbitramen- $0 das qualidades , e precos dos vinhos em cada anno. Vem defte modo a ficar lendo a Companhia juiz , e parte ao mefmo relpeito j pois o modo com que fe exe- cu- ECONOMICAS. 193 cuta cfta decifao , he mandar a Coinpanliia , pafla- do o dia vinte de Novcmbro , dous provadorcs pa- ra , pelas fuas provas , notarcm os vinlics que fad de primeira qualidade , c os que fao de fcgunda , e os que fao incapazes de embarque por alguma alterajao que fc Ihe conlicca ; ficando dependcnte do palaoar de dous horacns , que fazcm efte exame rapidan-jcnte , n for- tuna dos lavradores , feni que da fua decifao haja algum rccurfo. Feita efta qualilicagao , declara a Companhla por hum edital , que os pregos daquelle anno dcvcm fcr de IS J e ^50(^000 reis , ou de 30 , e 36(^)000 rcis , fe gun- do a abiindancia , ou eilerilidade , que de ordi.nario he regulada pelas circunllancias em que fe achao os feus armazens no Porto , e nao pelo eilado da producgao : a colheita de 178 r foi diminutilTinia na produc^ao, e foi re- putado para os precos de anno de abundancia : como OS Commillarios da Companhia fabera o tempo da fixa- jao dos editaes , ignorado por todos os outros , tern ef- colhido os melhores vinhos , e nao digo que fa6 , mas que podein fcr qualiticados em beneficio da Companhia , e damno dos lavradores ; e mandao efpalhar innumera- veis emilTarios por todo o terreno de embarque , para que , chcgado o momento de fe aflixarcm os editaes , fe- jao os primeiros a propor as compras dos vinhos efco- Ihidos que ihe fazem conta , e que fe Ihe nao podem negar, por fe nao podcrem mollrar vendas anticipada?. No § 5 fe anullao as compr^is feitas pelos ditos chamados Atrave£adores ^ e fe Ihe impoe outras pencis por cfte crime imaginado pela Companhia. No § 6 (econciu^, dando-fe liberdado aos commer- ciantes nacionaes de h^\ fe para denro dos limites das dif- poficoes das ourras Leis , e defte Alvara , continuarem nas compras de vinhos para o feu commercio interior, como o praticavao antes dos temerarios , e nocivon monopo- iios , que acabao de rcprovar-fe. Mas coi)forn»e ao pa- ragrafo 2 , fo podem comprar paifado o primeiro de Fc- 134 Memorias Fevereiro , tempo em que , tendo ja efcolhido a Com- panhia , e os Inglezes , e feito as luas coinpras muito a i'ai vonrade , io refta o refugo , que ja n^o pode fazer boa conra para negocio. Efte goipe fatal , que impoflibilitou os commercian- tes Portuguezcs , e deixou a Companhia lo no campo , nao pode deixar de ter iido muito nocivo ao adianta- mento defte negocio , tanto para os lavradores , como para o commercio. C A P I T U L O XIX. Continua^ao da rnefma materia. OAlvara de 26 de Setembro de 1770 he Jiuma am- piia^ao do § 3 do Aivara de 16 de Dezembro de 1760 , para que a Companhia pofla vender cada pipa de agua-ardente , cm que nao podia exceder o prejo de 87(^)000 reis , ate ao pre^o de i iO(|)ooo reis ; a em que nao podia exceder o prejo de 65'(^ooc reis , ate ao de 72(|)ooo reis ; a em que nao podia exceder o pre^o de 47(|)ooo reis , ate ao de 5'o;|)ooo reis , com o fundamen- to de terem crefcido os vaiores dos vinhos : fe efte ac- crefcimo tern lido verdadeiro , nao foi para os lavra- dores. O Aivara de 16 de Novembro de 177 1 fe encami- nha principalmente a obviar tres fraudes. A primcira he a de fe introduzirem nos deftridios de vinhos de em- barque as quantidades de vinhos de ramo , que tinhao fldo calculados no Tombo que fe mandou fazer pelo Ai- vara de 16 de Janeiro de 1768 , fubilituindo as mefmas quantidades com vinhos verdes de terras frias , fora do dcftri^o confignado para o commercio da Companhia : a fegunda a cautela com que fe efcondiao eftes fa^ftos , fazendo-fe diiliciiltofo , que ou por denuncias fe conhe- ceP ECONOMICAS. 1^5* cefle , ou por teftemunhas fe provalTe a verdadc : a tei- ceira o hirem bulbar baga dc fabugueiro a terras dif- tantes fora das finco Icguas , em que elles I'e mandarao arrancar , para a lan^arem nos vinhos. Para as fazer ceiFar i'e ordena em o § i , que lo- go fe pall'e a executar muito exactamente o Mappa e Tombo das terras que produzem vinhos de embarque , calculado pela producfao media dos ultimos linco an- nos : deftc Tombo fe fallou ja largameiue no Capitulo 14 delta Memoria , ponderando-fe alguns dos leus in- convenientes. No § 2 fe mandao arrancar todas as plantas de fa- bugueiro em todas as terras das tres Provincias da Bei- ra , Minho , a Tras-os Montes com penas graves. No § 3 fe manda , que todos cs que forem com- prehend idos em a] gum dos enganos , e dolos prohibidos pelas Inftituigoes da Companhia , e pelos Alvaras de 30 de Agofto ^ 1 75 1 J de 16 de Janeiro de 1768 , e de 17 de Outubro de 1769 , percao todos os vinhos , e va- fiihas em q'.'.e forem achados os enganos. No § 4 , que cumulativamente incorrao os ncbres na pe^ia de dez annos de degredo para o Reino de An- gohi , e OS peoes na de fervirem dez annos com calce- ta nas obras piiblicas ; e fendo peffoas Ecclefiafticas na. de defnaturaliiagao. No § 5 fe ordena , smpliando o Alvara de :5c de Dezembio de 1760, e o § 5 do Alvara de 16 de Janei- ro de 1768 5 que os Min;llros das Comarcas de Villa- Real , e Lamego abrirao huma devalTa , que fique fem- pre abc-rta , contra os traiiJgrelTores das liilliituicocs , e mais L.is promulgadas a bem da Companhia. No § 6, que OS cul^ados fejao logo renicttidos com as culpas , feito fe<:jueftro nos vinhos , loucas , e inlhu- mentos das adegas , e lagares , as cadeias da Relacao do Porto , e ao Juiz Confervador da Comp?.nhia. No § 7 , que Juiz Conlervodcr lego furrmnria- meuie leniencee os aucos com Ao.junios em Reia^au, dan- do- t^6 Memorias do-le aos reos fomenre a defeza , que de direito natural ^ e Divino Ihcs compete , e que as fenten^as fe nao pu- bliquem fern fe fazerem prelentes a S. Mageftade pela Secretaria de Elbido. No § 8 fe declara , que a Companhia compete a nomeacao dos ELrivaes dos feus Commiflarios ; e que tudo o que percence a denuncias , e jurifdic^Ses fobre os tranfgreilbres das Leis da dita Companhia , ficara redu- zido aos termos deile Alvara. No § 9 fe regulao as qualidades que devem ter as peflbas , que fe hao de nomear para as Intendencias , Commiilariarias , e Elcrivauinhas , e fe confere aos ditos Commiflarios jurifdicjao de inquirir teflemunhas , e for- mar proceffos verbaes , e aos Elbrivaes f6 piiblica. No § 10 fe manda , que a Junta nomee annual- mente tres dos feus Deputados para vifitarem as fabri- cas das aguas-ardentes , e findicarem dos contrabandos dellas j e a cada hum delles feu Efcrivao , ufando hum e outro da fobredita jurifdic^ao, e fe piiblica. No § II fe ordena , que todos os que fizerem al- i. III. T fe- JJ^6 Memorias ferem examlnados- per mcio das provas , deveria pafTar- fe a fazer exame cm roda a mafla , que os I'avradores propuzellcm para feitoria por finco lavradores peritos , dous nonieados , e pagos pela Companhia ; dous noinea- dos pelas Cameras do Aho-Douro , e, pagos por hum. tanto em cada pi pa > que fitafle approvada para embar- que , o qual dcveriao pagar os, donos dos \rinhos qua- lificados ;, e hum nomeado , e pago pch feitoria Ingle- za J para que por pluralidade de, votos feparafTem de to- da. a raalFa as ditas. 30(|)ooo pipas do mejhor vinho que achaflem , fixando'fe inalteravehnente aos da primeira forte o prejo de 36(|)ooo reis , e aos da fegunda o de ^Qc^ooo reis , fcndo iguahnente marcados peJos mefmos pj;ovadores eftas qualidades em cada tone! de vinho ef- Qolhido. Defte modo. todo o lavrador fe empenharia, era fa- zer o feu, vinho melhor , que fofle pollivel , para na concorrencia dos outros fe Uie dar a prefereiicia , vin-- do efte a fer o melhor caminho para fe procurar a per- feifao do genero , e guardar a juftica deftributjva de dar a cada hum o que he feu , ceffando afUm o grande cui- dado ,, e a nece.fliJade de acaurelar as introduccocs. Delias 30(|)ooo pipas , logo que foffem quaJificadas, por biihetes , na forma que agora fe. pratica , deveria fer Ijvre comprar commulativamente a Companhia ,. e os commerciantes nacionaes , e eltrangeiros as quaniidades. que Ihe parecelfem ate ao ultimo de Janeiro ; e os que ate elfe te.inpo nao eftiveiTem vendidos , os deveria corn-- prar todos a Companhia indefeiftivelm.ente para ihe dar a fahida que melhor Ihe pareceffe. O reido da producgao do vinho do Alto-Douro cof^ tuma. fer de 38 340(^000 pipas ; a extrac9a6 deftas de- veria fer dcfte modo regulada. Deveria a Companhia dar aos provadores a lifta, do numero de pipas , que naquel- le anno queria comprar para o feu negocio do Brafil , e portos do Baltico ,, pois que neftes ie nad amao ainda vinhos tao fortes , c.orao em Inglaterra j e para as ven- das ECONOMICAS. 147 das que coftuma fazcr de vinhos inenos finos para o Al' niirantado Britannico, para que os mcrmos provadores ef' colhciTem do vinho propollo para feitoria , e que para iflb nao ncalFe qualificado , ourra ranta quantia de tercei- ra , e quar-a lorte , para a Companhia comprar o de tercejra a zfc^coo reis , e o de quarta a 20(^cco reis , pois que nelles prejos cabe muito bem hum raciona- vel lucro. Conio a exporfsgao ordinaria do vinho defta lota- jao he de 6(^500 pipas para fima , como le v^ da di- ta lifta do regiito da Alfandega , fe pode reputar efta quanddade em y^coo pipas de compra no Alto-D» uro , attendendo as diminuijoes , e ha todo o rr.otivo de ef- fjerar que fe adiante niuito a exrracgao do vinho defta otajao para o Baltico ; pDrem para evitar que os ou- tros commcrciantes poiTao inillurar cftcs vinhos com os finos de embarque , deveria fer privativamentc concedi- do a CompanJiia o coinmercio de vinlios de tticeira , e quarta forte : no mais vinho , que nao entrafle em algu- itia deftas cJafles , deveria a Companhia comprar o vi- nho neceflario para o provimcnro das tavernas do feu privilegio exclufivo da Cidade do Porto , e terras adja- centes , em que ordinariamenre fe coflumao c( nfummir de ij^ooo pipas Jivres para o lavrador , deixando-lhe a cada hum para o gailo de fua cafa , o que raciona- velmente IhetcfTe necellario , fegurando-fc dede modo o confummo a 5'4(|)coo pipas : ao refto , que fao de 12 a 16(^000 pipas , feria facil a extraccao no commercio interior das ter as em que ha liberdade da venda defle vinho, no confummo das proprias terras da producjao , € nos lambiques. Como OS vinhos brancos nao podcm alcangar cs mef- mos prcjos dos lintos nos paizes eftrangeiros , deveriao fer OS du primeira forte a 25(1)000 reis , os da fecunda a 20(^oco rdis , cs da rerceira a i^^oco t6'is , e o ref- to dtvciia ficar para ramo. Como he inierelTe publico , que todas as terras fe- T ii jao 148 M E M O R 1 A S jao cultivadas, e ainda ha nefte Territorio mattos incul- tos , deveria dnr-fe liberdade para nelles i'c plantar ba- eello , reftringii'ido fomcntc a prohibifao defta planta^ao as terras que ja andaflem cuhivadas ; porque no fyftema ponderado fica cefl'ando o receio da redundancia do ge- nero : pois no calb d.e redunday, vinha a fer nos vinhos de ma qualidade , e inferiores , que por illb mefmo fe veriao os donos dcifes vinhos obrigados a deixar a cul- tura daquellas vinhas , e empregallas em cultura depao^ ou de algum outro genero. Defte modo fe attendia tambem ao fegundo , e ter- ceiro objc(5lo digno de attencao nefte negocio , que vem a fer a feguranja de bom preco com a certeza das ven- das , no raodo que fica dito ; e o augmento da produc- ^ao com a liberdade de fe plantarem as terras , que ago- ra efta6 fendo eftereis , e que plantadas podem produ- zir vinho de qualidade , que na6 vem a redundar. Os vinhos que a Companhia comprafle para os 1am- biques , deveriao fer pelos pre^os em que convieifem- com OS donos, ficando a eftes , e a qualquer outra pef- foa natural defte Territorio , livre o deftilar os vinhos , e dar as aguas-ardentes a lahida que Ihe pareceffe , com tanto que nao foUe para a Cidade do Porto , ficando o provimerrto defta , e a exportajao pela barra da mefma privativa para a Companhia. Efta liberdade favoreceria muito o confummo dos vi^ nhos inferiores, que tambem deve merecer attencao: fo- bre efte fyftema feria facil emendar os mais defeitos , e abufos 5 que nefta Memoria tem fido apontados. Efta mudanja feria de maior utilldade para efte Territorio , mas eu concluo efte Capitulo com Erafmo : Mutare re- rum Jlatum proclive ejl \ mutare in melius clifficilimum,. CA- ECONOMICAS. 14^ C A P I T U L O XXIII. Em qt'.e fe trata do aiigmento da extracao dos vi- nhos do Alto-Douro para os portos do I^alt/co , e da utHidade dejle Commercio, OObjedo do confummo deftcs generos he da maior iinportancia nefte negocio ; fern o augmento delle , de balde fe procuraria o adiantainento , e eftabilidade nos demais objecbos : elle dcve I'er confiderado como a medida do progrefTo dos ourros j mas per infelicida- de da nofla nacao , elle nao deveo attencao alguma em tantos annos , que fe trabalhou na boa ordem de hum negocio , que dcve fer o maJs attendivel , pois que ti- le faz a maffa principal da materia do Commercio adi- YO Portuguez. Os paizes do Norte fao os que fe devem aviftar para o confummo dos vinhos : o fen clima faz neceffa- rio o ufo defla bebida : elles nao a produzem , c necef- fariamcnte a hao de acceitar dos paizes do Meio dia. A Franca nos tern enfinado a ir bufcar os portos do Norte para dar fahida aos feus vinhos , que nem fao tao delicados , nem tao agradaveis , nem de tanra dura- cao J como os de Portugal : ella nao efpera com os vi- nhos nos feus armazens , para que Ihos venhao comprar OS eftrangeiros \ leva-lJios nas fuas emharcacocs , e traz novos lucres no confideravel retorno. E que fera o que embarace a nos-outros os Portuguezes , para que nao obremos do mefmo modo ? A dilkncia nao he tanto maior , que nos faja defanimar : a concorrencia dos I'eus vinhos nao nos deve aflbmbrar , pois que os nolTos ex- cedom na bondade. Devemos pois defafiar o goflo daquellas nacoes, pa- ra que fe inclinem , e acoftumem aos noflbs vinhos : de- vemos levar-lhos , fendo cite o meio de hum augmcnra ^ con- t^a Memorias confideravel do confummo , e o unico que pode fazer o nolTo Commeicio floreceiue , e independente daquellas nagoes , que quafi nos tern mettido em efcravidaS. A nofla Augufta Soberana franqueou efte caminho : ella norneou para Conful Geral do Commercio da RuP- fia a Jofe Pedro Celeftino VeJho , homem muito habil , e creado na cfcola de Haniburgo , em que tomou todos OS conhecimento do Commercio dos portos do Mar-Bal- tico. A Companhia eftabeleceo cafa em Petersbourgo , fa- zendo Chefe delia ao melmo Conful , Deputado da Com- panhia , com a adminiftrajaS da dita cafa , dando-Jhe para feus aiTociados Henrique de Araujo SiJva , creado na efcola do Commercio de Inglaterra , e Pedro Mar- tins Gonfalves , iiomens efcoJhidos para defempcnharera efta importante adminiflragao , que fe nao limita fo ao Commercio da Companhia , rnas he eftabdecida para to- das as commifboes , que os mais Commerciantes IJie qui- zerem encarregar. Por^n ifto , que efta cftabelecido a refpelto do Im- perio da Ru/Fia , devera eft^nder-fe a todas as mais na- joes , que tern portos no Baltico : a Dinamarca , a Sue- cia , a Pruffia , e Alemanha , tcdas neceflltao de vinhos : elias nao os vao bufcar , e fe aproveitao daquelies , que Ihe Jevao. Nos cabedaes dn Companhia cabe o fazer tentativas em todos eftes portos : as primeiras nao devem fervir de regra, : quando a Inglaterra as tern feito , nao duvida per- der as primeiras vezcs , para cftabelecer as vpntagens fu- turas : quando quiz alcanfar da Ruifia a prefercncia dos feus pannos aos da Pruflia para o fsrdamento das tro- pas , deo-lhos a hum prego , que cerramente perdia ; de- pois que vio a Pruflia em eftado de Ihos nao poder for- necer , tern refarcido mais que n:uito a perda antece- dente. O ponto elTencial defte negocio he fazer gcftar ef- tas na^oes dos noflbs vinhos , e acoHumallas ao ufo del- les j EC0N0MICAS» 15"! les ; ifto deve procurar-fe , ainda que feja fcm lucro al- gum ; porque lucra baftriiite o inteiefle publico em efta- bekcer-fe hum caminho de confummo , para que nao Ic- ria demafiado todo o viiiho do Alto-Douro , e em que a Corapanhia poderia depois tirar hum lucro ccinpenla- tivo dos incommodos defias tentativas. Eftc Commercio nao he 16 vantajofo a Portugal pe- lo confummo dcs feus vinhos ; nao ha najao alguma que melhor eftcja nas circunllancias dc eflabeJecer hum Com- mercio direClo com as do Norte , do que a nofla , e que mais o poifa fazer de boa f^ , e fern deiigualdade nota- vel da bahn^a^ N6s temos o vinho , a agua-ardcn:e , o azeite , O; fumagre , o fal , as fruvftas , a feda , o alfucar , o pao campexe , e as madeiras do Brafil j de tudo ifto elias nccefliiao , e muitas deflas coufas Hies lao ievadas pelos Hollandezes com o exceffo do Uicro da revenda. Elias tern o linho , a Unhaca , o oleo da linhaga , o trigo , e mais graos , e legumes , o ferro , ajo , co- bre , eftanho , chumbo , azougue y rhubarbo , al- catrad , pez , breo , caparrofa ^ cera , cebo , madeiras de conllrucv^ao , aducUa , mnftreacao , velame , magame , io- nas de toda a qiialidade , muitos , e exCw^Uentes tecidos de linho , e algcdao , efpecialraentc os da Silezia , meias de la , peixe fecco , e muitos outros generos , dc que in- difpenfavelmente necefllt.imos , e que a muito temos fido obrigados a ccmprar em fegunda mao aos HoUandezes , e a outros depois de terem efcolhido para fi os melho- res , e levando-nos. fob;e os infcriorcs o lucro da con- duc^ao , e da. revenda. Tendo pois huns , e outros as materias tao Jmpor- tantes para hum mutuo Commercio , nao ]'6de eftc dei- xar de ter hum grande adiantamento vantajofo a ambos os extrcmos , fe for promovido com bem intencionada diligencia , e boa fe. A n6s convem-nos muito adiantar o coniummo dos nolTos vinhos ; para iilo he nccelfario fazellos preferiveis em qualidade, e preco na "^-oncorren- cia. cja dos ' vendi d( o Norte n(5s me Os callos , ' les elcol chcgado vem , q e de que dos , e tra naga alguma ercolha Par Marinhc do emp mo nos muita c confider do Nor para o barcagot para a De vio J de fc algur e cada j te de P todos o o mime: le todo Capitao de viag Par fentido iiierciaD i I- i M A P P A ^ DO ESTADO ACTUAL DA POVOAQAO DA COSTA MERIDIONAL I DORIODOURO, ^SEGUNDOOSREGITOS DOS ROES DOS CONFESSADOS % de cada Freguezia do anno de 1781 , em que fe aponta o eftado de al- "^ gumas no anno de 1733 , conforme veni anotadas na Geografia ^ de Lima , para por eltas fe conhecer proporcionalmen- i te o augmento que tern havido. ^ i i i Eflado da Povoacao no anno de 1781, Freguezias S. Joao da Pefqueira Nagozelo - - - - Soutelo - - - - Ervedofa - - - - Defejofa - - - - Valenja - - - - Tavora - - - _ Tahoajo - - - - Adorigo - - - - Barcos - - - - Granja do Tedo Goujoim - - - - Armamar - - - - Villa-lecca - - - Santo Adriao - - Folgofa - - - - Caftello - - - - Parada - - - - Valdigem - - - - Figueira - - - - ' Sande - _ _ _ Cambres - - - - Samudaes - - - - Penajoia - - - - Total - Fogos. ?i2 lie 28 92 109 89 9^ 108 121 60 1^ 192 8: 1 10 416 10? ?<^^7i Jlma 1^210 244 ?6^ 229 100 286 616 26:; S82 ?8o Ui ?94 219 169 7'7 129 629 2 94 -,49 1(^794 il>^847 de ly^v Freguez. Dita Dica Dita Dira Dita Dita Dita Dita Dita Dita Dita Dita Dita Dita Dita Dita Dita Dita Total 2^983 8^885 Fogos. l^lmas. 411 75 180 60 221 170 150 75 81 ;o5 95 154 174 106 258 105 ^44 )208 20X 15? 5S8 ^82 206 985 261 417 128 5M 4^i7 942 ^4<5 I (^200 Augmento adual. f Fogos. Almas. 19 29 19 27 29 26 49 15B ?82 2 4? ■7^ 78 ^7 1:2 :500 I 116 44 ^91 594 15'sif- cja dos venda c o Nort n6s m O callos , les efco chcgadc vem , ( e de ,qu dos , e tra nag alguma efcolha Pa Mariiil: do eni] mo no: muita « confide do No para o barcafc para a D vio J d fe algu e cada te de . todos ( o nume fe todc Capitac de via; Pa feutido nierciai V c;a veil oj" call les che ven ed dos tra algi efec Ma do mo nmj con do bare pan '§M[) vio fe a e ca te c todc o Bl fe t Cap de \ i fentido iiierciaj ^ ECONOMICAS. 15"^ delle , experimemafTem algum beneficio a refpeito dos di- reiros , fazendo-fe-lhe huma diminui^ao nellcs a propor- fao do augmento das fuas carregajoes. Defte irodo con- leguiria Portugal huai copiolo conluinmo para C8 vinhcs , compraria os generos do Norte efcolhidos , e a melhor prego ; veriao huma Marinha , que fe fizefTe rej'peitavel em toda a parte ; e recolheria em fi os importantes cabe- daes , que a Hollanda todos os annos recebe pelos tranf- portes , e revendas delles generos. V Tom. III. V ME- I5'4 M E M O R I A S M E M O R I A Sohre a caufa da doenca , chamada Ferrugem , qut vai grajjando nos Olhaes de Portugal. Olea prima oinniuvi arborum nji . Colum. For Antonio Scares Barbosa. "^T O verao de 1790 fiz a minha morada em hum ^ territorio , aonde as Oliveiras padeciao a doenca ^ ^ cliainada vulgarmente a ferrugem, O trille eipe- (ftaculo que otFereciao os olivaes tocados do mal ^ e o damno que fofFtcrm os proprietarios , os colonos , e ao mefmo tempo a mafla da fubfiftencia piiblica , da qual, nao fdz pequena parte efte raino da cultura , excitou eiB' mim o dcfejo de poder de algum modo concorrer para o feu remedio. Efte fentimento fujeitou , e avivou a mi- nha obfervajao. Julguei porcm , que a minha primeira em-- preza devia ler o iiidagar a cauia do mal. A illo fe diri- girao todas as minhas obfervacoes , e experiencias. Ella, pois he o principal objccflo defla Memoria. E na verda- de como fe poderao defcobrir os remedios do mal que pad cem as oliveira,? , fern primeiro indagar a caufa , in- dicalla com certeza , e nao fuppolia , como faz o vulgo ignorante ? Para fahir defte trilho > entrei a duvidar de tudo o que ate agora fe rem dito a efte refpeito j a nao- contentar-me com quaefquer obfervacoes , e a variallas por todos OS modos que me foi poiFivei. Os refultados que deilas tirei , parece-me ferem os que fe devem immedia- tamente deduzir. Para propor methodicamente tudo o que achei , e delcorri , dividi eila Memoria em nove Capitu- ios , cada hum dos quaes tvm o feu objefto particular y indicado no argumento que ihe correlponde. ^ - CA- t E C O N M I C A S. 15^ CAPITULO I. Sinaes geraes que acompanhao a doen^a da Ferrugem. § I. PAra que cftes finaes todos fejao bem vifiveis , e obfer- vados ainda pela genre vulgar , he precifo efcolher hum clival , cm que a doe'n5:a I'e acha adiantada j e hum tempo em que haja baftante calor , e que as oliveiras pela fua expoiicao o fiiuao. Todas eftas circunftancias fe me oifereceiao nos principios dc Julho de 1790 , que foi o das minhas primeiras cblervagoes. O primciro final pois he a cor ei'cura , com que partcem rintas as folhas , e ramos da oliveira , vifta em alguma diflancia : a qual cor enrao fe ofFcrece m^.is carregada quando a oliveira tern deitado as pontas cimeiras , cu renovos , pelo contrafte que Ihe faz a verdura , e vi^o deftas. Chegando ao pe da oliveira , ve-fe com effeito eftarem as luas folhas , e parte dos ramos mais ou menos cubertos , e barrados com huma fubftancia preta , a qual fe pode levantar com a uiiha J e delcubrir o verde da folha. § II. O fegundo final he , que averiguado muita parte dos ramos , ie vem Icvantadas na fiiperficie delles humas pro- minencias tubcrcujoias , rugofas , eefcuras, as quaes fad mais baftas , e contiguas a proporjaS que occup?6 a par- te ultima do ramo , ou proxima ao rcnovo : ahi aquel- les tuberculos formao varios grupos, os quaes fe vao api- rhoando no ramo. Eftas prominencias tacilmente le def- pegao com o dedo , e fazem conhecer ao obfcrvador , que fao os corpos accidentaes , e eftranhos a oliveira. Eii- tao he que o meimo oblervador conhece ferem humas V ii cal- 13^ M E M. O R I A S cafcas convexas , ciijo interior concavo ferve , ou fervio , como de oveiro , aonde fe criarao , e defenvolverao in- fe^ftos, deque forao, ou fao matrizes j e por ilFo a doen- ca que padecem as oliveiras tambeni o vulgo coftuma chaiiiar a mal do bjcho^, § IlL O' terceiro final he, que, obfervadas as oliveiras ens: diftancia , e em tempo que cs raios do Sol caiao nellas com alguma obliquidade , as fuas fbihas pcla parte fuperior apparecem lucidas , e brilhantes , como outro5 tantos cryllaes : examinadas ao perto , e tocadas , ellas fe achao em parte como envernizadas com huma lubftancia bran- ca, tra nlpa rente , e vicofa , a qual accumulando-fe delce a ponta da folha , e ahi , adquirindo. maior volume , e p?zo , calie no cliao. Se nefta |ia pedras, eftas ficao mo- Ihadas por muito tempo , e como untadas com efta raef- ma. fubflancia. Algumas das oliveiras , que erao objctflo das minlias obfervajoes , cahiao ibbre huma caljada : ef- ta permaneceo todo o verao cheia de nodoas como de azeite : advertido ifto peio povo vizinho , avultou tanto^ na. iua imaginafao , e credulidade , que fe elpalhou como-; milagre ^ deftiiarem as foihas das oliveiras azdte»- § IV.. . Parece , pelo que nos rcita dos Authores antigos ^ que efcreveraO da Inlloria , cukura , e doenja das arvo- res , que eila doenga das oliveiras Ihes foi inteiramente defconhecida. Theophrafto na fua Hiftoria das Tlan- tas , refere , que as oliveiras , entrc outras doenjas , tambem p.^deciao a dos vermes , os quaes igualmente faziao morrer a figueira , produzindo-fe , e mulripli- cando-fe alli (i) . Plinio , trasladando y e vertendo ef- te Lib. 4. cap. i<5. EcONOMflCAS. ^5'7 te lugar de Theophraftd , da a cfta doen^a o nome de vermiculatio (2) . Como pois efta docBca dos vermes nao venha acompanhada dos limptomas , que entao cau- lava nas oliveiras , fica incerto , fc o genero dc iiTrc(^"io , que agora accmpanha a doenca dos olivaes de Poriiigal , fe comprehendera tanibein na generalidado daquellcs , dc que fallao os fobredicos dous Naturaliftas. § V, He de crer que os olivaes de Portugal nunca pa- dccerao huma fenielliante doenca , por nao haver memo- ria dclla , nem Author sigum noiro , que della taca men- 930. Entre 03 eib-angeiros Mr. Bernard , na Memoria que dco fobre a Cultura das Oliveiras em 1782 (3) , he o uiiico que delcreve hum mai inteiramente femelhan- te aa das nolTas oliveiras , e que grafiava fobre as de toda a cofta de Marll-lha ate Antibas. Nellas le via6 to- dos OS iinaes afTmia refcridos. Pois elle obfervou as ma- trizes dos infectos, cujas caJcas erao alteadas com fuas ner- vuras , e pegadas as oliveiras ; e o nome geral de Cher- mes que Ihc deo , moftra a Ilia femelhanja geral com as que affima defcrevemos. Oblervou nas manhans de el- tio , que as oliveiras attacadas do mal , fc achavao cubcr- tas de gottas , e que a luperficie da terra correlpondente as folhas eftava humida. Ch-Mm-lhe gottas de agua , por- que fe contentou com a fimples vifta , e nao as examinou de mais perto , e com o ta'iT:o. Oblervou uhimaraente , que as folhas , e ramos das oliveiras ciVavao tintas com huina car negra. Todos eftcs caravlercs iiioilrao a identidade do mal , o qual no tempo em que grafiava nas coftas de Mar- felha ,- jd tambem tinha comecado em Portugal. CA- (2) Hift. Nar. l.ibr. 17. cnp. it,-j. (0 Rofier, Dift. dA-r. Y. OUyier. Tf^ Memorias C A P I T U L O II. Difcrip^ao do InfeBo que apparece na Oliveira ac- commettida da doen^a, § VI. OS Zoologlftas para claflificarem os infe(fl:cs , obfer- vao-nos logo depois da fua traneformafao , a que chamao eft ado perjeito. E na verdade efte he o meirio- do verdadeiro quando o obfervador tern 16 por fim a de- terminafao exac^a do feu genero , e elpecie. Eu porem , que pelo tempo em que obfervei , nao podia entrar ncf- fa averiguacao , a qua! tambem para o fim que me pro- punha nada importava J conteiu-i me com examinar aquel- les infed;os no eftado em qnc fe achavao. Ella delcri- pfao ainda allim niefmo fara conhecer com toda a cer- teza o genero a que elles pertencem , e em todo o tem- po fara dillinguir elle habitador da oliveira de todos cs mais. Examinando pois de perto , ja com a llmples vil- la , ja com huma iente , a promincncia que le acha adhe- rente ao ramo da oliveira , vc-fe , que eiia he a cute ex- terior de hum ini'edlo , o qua] , aproximando-le alguma coufa as fuas extrcmidades , diminue longitudinaln'ienre : deftc modo levanta a parte do meio , e arquea as extre- mas , e aifim forma ordinariamente metade de huma fphe- roide mais alongada nos polos. A natureza , para facili- tar ella opcragao , proveo o infcd:o de huma nervura dorfal , prominente , e redonda , a qual , por modo de hum efpinhafo , parte de huma extremidade a outra , a divide o corpo do infedo em duas partes. Ella nervu- ra longitudinal he cruzada por outras duas parallelas , e alguma coufa dillantes , as quaes partem tranfverfalmen- te de hum lado da margem para o outro. Ellas mcftrao que o infeflo conlla de tres anneis : o mais pequeno he o do tneio , e formado pelas tranfverfaes : os dous maio- res ECOWOMICAS. 15*9 fcs comprehendem as porcocs , que formro as duas ex- tremidades. Alein dillo , obrcrva-le por toda a margem em torno humas rugas , que correm da extremidade da melnia margcin , a maneira de pregas , aproximando-le alguiiia coula a proporcao , que fe vao adiantando pela meima margem ailima , na qual em certa dlilancia aca- bao. Todas elias divi?6es , nervuras , e rugas fe divKao com huma lenre no dorlo do jnfecto , amda piano , e horifontal , antes de prmcipiar a intumecer , e encurvar- i'e. Bern ie ve agora , que arqueando-fe a nervura dor- fal , e as tranfverlaes , e franzmdo-fe as rugas marginaes , hao de dar a cute , ou calca do inledo , huma figura fe- mi-globola. Fitando a attcncao na parte externa conve- xa , faz logo lembrar , pela cor elcura , e pelas rugas com que fe ach 1 como engelhada , hum grao de pimenta cortado pelo raeio , e poui'ado fobre iium plano^ § VIL Acha fe efta cafca convexa bailanten-.ente adherente ao ramo da oliveira , o que moflra haver huma materia , que a fegura , e prende. Com etfeito delapegando-fe, fe oblerva naquella parte do ramo huma nodoa branca , for- mada por hum cotao tenuiiHiro, que prende toda a bor- da da cafca ao ramo ^ excepto na parte pcfterior , aon- de ella efta como chaafrada , e dividida em duas pe- quenas lacmias hum pouco reviradas. Vifta a parte con- eava , logo fe manifeib fer aquelU cafca redo de hum infecto feminino , pek grande multidao de ovos que en- cerra , e de que he , ou foi matriz. Pelo que tres fao os eftados em que fe achao aquelles oveiros : 1. contendo ovos ^ 2. parte ovos , parte inleiftos defenvolvidos , ^. lem huma , e outra coufa. No primeiro ellado , a:ha6-fe OS ovDs empilhados , e encoltados huns aos outros , fe- pararirio-os porem , e obfervando-os com a lente , fe viao Jcr nuris corpos ovaes chatos , que conftavao de hu- ma- caica branca , e tranfparente^, e por ella. le vi2 djn- t o ■i6o M E M iR I A s tro o infe(flo immovel , e de huma c6r ruiva , a qual era mais carregada , quando eile eftava ma is perto de la- hir. Defcuberto o oveiro no fegundo eftado , e princi- palmente em tempo de calor , ou fendo expofto ao fol , Viao-le nuiitos dos infecftos forcejar para romper a caf- ca , a qual deitavao fora a cerra diftancia : outros fahiao ainda meio cuberros com ella are a largcirem : outros ar- railavao parte della adherente a cauda , outra parte fica- va immovel. O tempo me enfinou , que daquellas matri- zes fe liiao dcfenvoJvendo , e lahindo infetftos de dias em dias pela parte poilcrior chanfrada , ate fe defpejarem , para o que era precifo baftante tempo. Daqui vem as differentes grandezas , e augmento , que fe obiervao nos que fe encontrao efpalhados pela oliveira. Em hum pe- queno ramo dividido em duas pernadas , nas quaes efta- vao alguns grupos daquellas m-urizes , e que cortei a 26 de Julho para as minhas obfervacoes , contlnuarao a ap- parecer inferos ate aos lins de Agofto. Entao defcu_bri as matrizes , e as achei fern iniciflo algum , e efte he o terceiro cilado em que fe obfervao. O concavo da ma- triz eftava cheio de huma como farinha branca , a qual fe forma das cafcas dos ovos partidos , e efmiufadas pe- los mefmos inferos. § VIII. He incrivel a vivacidade , e movimento rapido com que OS infe/V?. (h Cbjm. Y. Acid, fyro^. E c o N o M 1 c A s. 175^ faios nos tempos dos grandes calorcs , fubminiftrao a ca- da pafTo , por defgraja nofla , baftanie materia as olivei- ras. Entretanto parcce-me fe pode dizer com baftante fundamento , que a materia que tranfpira a oliveira doen- te , he huma efpecie dc Syropo natural , gommofo-reji- nofo, § XXVIII. Jd nos tempos antigos fizcrao mengao os Naturalif- tas da extravafa^ao que as oliveiras padeciao em certos paizes , e a que davao o nome de Lagrinia , de que os Medicos compunliao hum excellente medicamento para parar o iangue. O que refere Theophrafto das oliveiras da Arabia, iemeihanres no frudlo as da Ilha de Lesbos, donde elie era natural (12) . Plinio trasJadando Thco- plirafto diz o mcfmo , e accrefcenra que cs Gregos cha- mavao aquelle medicamemo enkctmon (13), ifto he, co- mo verte Gala , util para parar fangue , ou , como querem outros , que y^e delta nas feridas ainda frefcas. Donde fe ve , que a m.ateria extiavaiada das oliveiras da Arabia , era vifcofa , e por iflb conglutinante. Muitos pela lemelhanga do nome , e das virtudes , julgarao fet aquella Lagrima a refina officinal , cliamada Elemnii , que tambcm vem da Arabia , e Pcrfia. Strabao conta o mcfmo , fallando da Arabia (14) . Diorccridcs porem dcfcreve mais circunllanciadamente a materia , que fe ex- travafava na oliveira da Ethiopia (15). Delia efcorriao duas efpecies de Lagrima ; huma loura , que fe compu- nha de gottas muito miudas , e de goilo picante , em tudo femeliianre c^ofcammojiio (ifto he a gomma reluia, que da o convolvulus fcammonia) (16); a outra , diz el- le , que he huma gomma femelhantc ao anmioniaco '^que , (12) Hl'iL Plant. 1. 4. c. 8. (15) H'tjt. N.it. 1. 12. c. 58. (14) Gcogr. 1. \6. (15) L. T. c. 141. e c. 135. 06) Lian. Pomandr. gen, 2x4. 'X76 M E M A r A s fegunclo Geofroy , Ian§:a huma planta umhellifera , que crefce na Lybia , e que na realidade he huma materia media , entre a gomma , e a refma ) ds cor negra , feni faboi" picanre , e por iflb inutil. Accreicenta o mefmo Dioicorides , ijue ella gomina lancavao tambem as oli- veiras , e zambageiros do leu paiz ; illo lie , da Cilicia Campcjlre , donde elle era natural , e nafcido na Cidade de Anabarzo. Nao precifamos averiguar a exacftidao das femelhan^is , com que Diorcorides pertende defcrever aquella materia ; bafla-nos que o fa»5lo em fi feja verda- deiro , e que conhejamos , que as gommas refinas , que fe extravaCao da oliveira , nao forao defconliecidas aos antigos Naturaliilas. § XXIX. Deve-fe porem bem diftinguir a extravafa^ao da tranpirafao , e nefta nao confundir a que he injenfivel com a que he fenfivel. A extravafafao he aflim chama- da , ou quando a feiva fahe dos vafos proprios , e fe derrama pelos outros , fern le manifeflar externamente ; ou quando J'e maniFefta exteriormente em certas partes da arvore por depofitos , ou refinofos , ou gommofos , ou de outra qualidade. A efte ultimo modo podemos dar o nome de Chymorragia. A efta pertcnce a lagrima da oliveira , de que fallarao os antigos : e a ambas as ef- pecies de extravafacao pertencem os excmplos , que re- Fere a efte propofito Du-Hamel na fua Fyjica das Jlrvo- res (17). Be;n fe ve , que huma , e outra he diffcren- te da tranfpirajao , a qua! he mais univerfal. Efta com tudo pode fer ou infeufi'vel , pela qua! ordinarjamente fe defcarrega o humor linfatico das plantas , fem deixar de jfi refto algum permanente \ ou fenfivel^ e que fe nao dillipa logo , a qual Du-Hamel divide em linfatica , e em feivofa , ou de humor chamado Succo propria da plan- (17) Liv. 1. c. 4. arc. 4, ECONOMICAS. 177 planta (18) ; eila porem mais eA:>eira , e duravel , que a linfatica. § XXX. For efla raza6 , fundada na obfervagao , bem fe vc, que a tranfpiragao da oliveira doente pertence a fenjivel J'eivofa : o que cabalmcntc perl'uadem as qualidades com quf^ a delcrevemcs , e a refuha da analyle que dcUa da- iDos (§ 23 , 20). Cumpre porcm advcrtir , que nem toda a tianlpirajao fcivola lie univcrfal , e que ordina- riamente ella fe rnanifefta em alguns orgaos , por onde a planta faz as fuas fecre^ioes. Nao he aflim a tranfpi- rajao feivofa da oliveira : ella fubminiftra hum exemplo nao muito ordinario das tranfpiracoes feivofas univer- facs , iegundo \i moftramos ( Cap. III. ) . Delia temos tarabem em Portugal outro exemplo , na bella variedade da EJlevalada , ou Cijlus ladanifera deLinneo, defcri- ta novamente por La Mark ( 19 ) • Dnquella variedade faz menjao Tournefort , e Joa6 Bauliin (20) . De quad toda a planta trafluda huma fubftancia refinofa , vifcofa , c cheirofa , que he hum Ladano muito analogo ao que le colhe na ilha de Candia do Cijlus creticus de Lin- neo , tambem novamente defcrito por La MarJj. Tom, IIL Z . CA- (18) L. 2. c. ^. art. 2. (19) Did. de Bot. V. Cifi. n. 15, (20) CijU'.i ladanifera hifpanica Jalicis folio , fore alio , ma- iula puvi'cantc ivfigiiito. T. z6o. ]. B. z. p. 8. 178 M E M O R I A S C A P I T U L O VI. Da origem da materia v.egra , v 11 J garment e chamada leiTugem da Oli'vcira. § XXXL A materia preta , que tinge as follns , e ramo? da oliveira , he a que faz mais fenfivel ao vulgo a doenga que ella padece. Efte fimptoma porem nao he particular a oliveira , e fe oblerva em outras muitas ar- vores , que por efta caufa fe achao atacadas do mefmo genero de mal. Ja em outro tempo , legundo refere Du- Hamel (21) , Mr. de Combas delcrevia com admiracao huma doenfa do peiregueiro , a qual affim como nao ti- nha nome , tambem nao tinha remedio. Todos os raraos da arvore , diz elle , as folhas , e os mefir.os fructos fe fazem negros , e vilcofos. Attefta Du-Hamel nao eftar ifenta defte mal a vinha , a ameixieira , e o damafquei- TO. O mefmo fimptoma , e doenca conta elle da laran- geira (22) . Naqueilas larangeiras , aonde eu vi o Coccus da oliveira (§ 10), fe entrou a manifeilar a doenja da oliveira com a mefma cor preta , a qual fe elpalhou pe- las folhas , ramos , e fruuaja6 do mal. Defta melma caulk provem I'er o azeite da pe4^uena colheita mao , e differente do que coflumao dar as oliveiras fans. Efta diiferenca lie confirmada pcla queixa geral dos cultivadores , e do vulgo. Concorre pa- ra illo na6 f<5 a extravaikfao da fciva nas mais partes da oliveira , mas mais proxima , e principalmente a que fuccede na mel'ma azeitona. Efta traflbda como as mais partes da oliveira aquella fubftancia goiiimofo-refinofa , como confta das minlias obferva^oes. Gomo pois a pelle da azeitona fe acha lemeada de pequenos pontes , que fad outras tantas veficulas deftinadas para confer o azei- re , o qual encerra mais partes refinofas , e oleo eflen- cial , que as veliculas da polpa , coir.o verificou Rofier (:-8) ; efta claro que a diveriao , que faz a Jeiva peia continua rralTudajao , ha de caufar nao lo a diminuicao da azeitona , mas a alteracao dos principios immediatos do nzeite , o qual neceftariamente deve fer difFerente do da azeitona s.a. A yatureza , e qualidades da fubft;ancia gommoib-refinofa , iegundo expuz (§ 27), confirma if- to. Porem a analyfe comparativa defta , e daquelle azei- te , moftrara mais claramente ifto para o futuro. § XLV. A vehemencia defte mal nao ceftTa em tempo algum do anno na oliveira , por conlervar fempre as follias , pofto que ieja mais mitigado no tempo do inverno. Pa- rece pois que ella fe devia ir enfraquecendo fenfivelmen- te , e acabar em breve tempo. Tod^-via a experiencia Aa ii mof- (28) Dia. d'Agr. V. Olivier. t88 M e m r I a s moftra o contrario , porque a oHveira conferva por mui- tos annos o leu eftado intemo vijofo ( § 40 ) . N6s nao podemos determinar efte periodo , porque elle depende de muicas circunftancias particulares ,. relativas- ao, terre- no , a expolicao delie^ e a contlrttujcao de cada arvore-. O certo he que lia oliveiras^ em que a doenja tern du- rado finco , e mais annos , como lao aquellas ,. cm que ainda dura desde o anno 1785". A doenp vai abauendo a proporjao que abattem as foreas da oliveira , o que colluma lucceder quando- Hie vao- leccando alguns ramos. Elles fao ordia aria me nte dos menos groflo& , e em maior niimero os mais miudos. Entao he que a Qbyrnidrofe vai fendo menos abundante j e entao tambem principia por CQnfequencia a diminuir a chamada ferrugem ( § ^7 ) . § XLVL A valentia com que a oliveira por tantos annos re- fifte ao mal , o qual em lim a Iba mefma natureza , s conflittticao parece veneer, he muito para adrairar , fe confiderannos o citado em que fe acha a feiva nas- fuas raizes. Examinando eu, eilas-, achci que o fucco que por ellas corria tinha a melma vifcoltdade , e elpeflura , que o que tralllida pelas mais partes delJa. Nas raizes miU'- das fe obferva o fucco como em grumos entre o pao., e a cafca , e efta , e aquelle penetrado da mefma i'ub- Ilancia vifcofa. O meOno oblervei na parte niais groHa das mefmas raizes. Efte eiliado da I'eiva naa raizes ,. fee nianifefla pela cor ^xqitl^ om f&rrugem., que contralie a parte da mefma raiz que eft;i expofta ao ar. Efta cor preta , quando- o m.al fe acha mais adiantadoj tinge to- das as raizes , ate o coIo donde ellas faliera , nas oli- veiras que fe aehao defcal^adas. Oque tem feito crer a alguns do vuigo , que o mal Hie come§a pelo pe. Em huma oliveira aonde ha pouco fe tinha , por hum corte vertical perto do pe , lavado cafca , e pao , a feiva , que f& manifeftiava nas hordas da ferida , tinha a raefma ef- pef- E C O N O M I C A S. 1B9 pcfTura , € vifcofidade. Tournefort , tratando das arvores (29) ,- jd advertio , e provou com oblervajoes , quanto a vilcofidade , e elpelTura do fucco nas raizes contribuia , nao i'6 para fazer as pLanras ellereis , ma& para Ihes ac- celerar a morre. Se conliderarmos pois a Chymidrofe , e o eftado vilcofo da feiva nas raizes , na6 ceflaremos de adniirar a conftituijao da oliveira ,, a qual nao 16 Ibf- fre por ranios annos luun tao grave mal , mas ainda o vem ordinariamente a rencer. Nao nos deve por tanto parecer exctfTivo o dito de Theophrafto (30) , quando affirma , que a olivcim he de todas as arvores a mais vividoura , c longeva , e que tern raizes taes , que tem G poder de refiftir n todas as caulas , que a poJcm fazer morrcr. A doenca de que tratainos- , ainda que defco- nhecida aos antigos Naturaliftas , lie Jiuma prova do que aflevera Tlieophrailo \ e por iflb nao he muito dilatado G periodo de duzentos annos de viaa , que efte da a oliveira J e tambem Plinio (.31). § XLVIL. He pafmofa a abundancia de feiva , que afpirao as raizes da oliveira doente. Ella he tal , que nao fo he furticiente para' confervar a oliveira., de verao , e de int- verno , em hum eilado perpetuo de vegctacao , e vi^o- fo , fegundo moftra o feu eilado mterno (40) , para criar OS renovos , e luftentar as nielmas folhas , a nianeira da oliveira sa ; mas alem diflb , para fubniinillrar huma con- tinua Chym'idroft tao univerfal , como a tranfpirajao (Cap. LII, ) , e ella proporcional as fuperficies (31) : que cdpia pois tao extraordinaria de leiva nao he prccifo ,. que Cip) Adem, de t'ykad. des Sc. Jnn, lyo^^ C?o) HiJL Plant. \. 6. c. 15. (.;i) Theophr. ib. Plin. 1. 16. c. 44. Firmijjim£ ago ad vi- vendum olex , ut quas dutare ar.nis CC inter audores convi^nia^ C?2) Du-Hamel , Phyf. des Aii\ 1. 2. c. 5. arc i. 196 Memorias que as raizes da oliveira doente afpirenj , para haver , alem do mais confummo, huma continua traffudagao del- la por todas as fuperficies tranfpirantes , e permanences , quaes fa6 as dos ramos , e folhas fempre adherentes , c verdes ? C A P I T U L O VIII. Qual feja a caufa da Chymidrofe , ou trajfuda^ao da feiva , que padece a Oliveira. § XLVIII, O que acabo de dizer , determinando a efpecie de doenca que padece a oliveira , he facil o entrever, que nella coftuma reinar huma demafiada abundancia de feiva. Defta abundancia pois julgo procederem parte , e proximamente n Chymldrore. Os antigos Naruraliftas ja puzerao a abundancia da feiva no niimero das caufas ge- raes , que produzem as doenjas das arvores. Theophraf- to Ihe da o nome de huma copia grande , e demalia de alimento (33) . Piinio JJie chamou obejldade ^ que diz fer propria das arvores que produzem relina (34) . Efta de- mafiada vegetacao , ou abundancia de ilicco , i"e manifef- ta de difFerentes maneiras , mas fempre em derrimento do frud:o , que ou nao produzem as arvores , ou eni mui- to pequena quantidade. Humas vezes ellas empregao a feiva em criar demafiada folhagem , de que ja no feu tempo fez menjao Thcophrafto (35") . A efta diverfao da feiva chama6 os Naturaliftas fuilomania. Outras ve- zes (:5^) Lib. 5. de Catif. c. 15. (:54) Hifi. Nat. lib. 17. cap. ^7. n.2. Alicjux vero , & obe- fitate , ut omnia quae refinam ferunt , tiimia finguedine in U- dam mfitantnr , <&- cum radices quoque fingucjcerc ccepere , inter- emit , ut animalia nimio adipe. (^5) Hiji. Plant. I. 8. c. 7. ECONOMICAS. 19^ zes a empregao nao fo nas follias , mas tambem eni pro- duzir rebentoes , polas , e ram.^gem , donde vem a ub- mania. Huma , e oiitra diverlao da feiva faz as arvores apparentemente iadias , e nos recreao com hum alpe(fto pompofo , e alcgrc. For iflb os Autlioies Latinos , que tratarao da cuhura della< , dwmao a clta daenja ,. que he frequence na oliveira , ejiado vicofo {Locta arbor .^ <& fi- ne fruge Itajuriare) (36). A doenca porem que prefcn- temente padece a oliveira , ainda que em parte prove- nha da mefma c^uia , manitefta-fe de difFcrente mancira. Efta he propria das arvores , que de ii derramao huma iubilancia relinofa. E ailim a diveriao da feiva confille cm liuma effufao da melma , a qual ou apparece em cera- tes fitios da arvore , ou ie manifella em toda ella. A primcira ja os antigos Natur;ilillas reconliecerao na oli- veira ( §. 28 ) J mas nao a fegunda. Efta he que adlua!- mente graila nas, olivciras de Portugal , e a que demos o nome de Chymidrofe. Aqui a feiva divertida , e def- perdigada , vindo a degenerar , da a arvore hum afpe- Cio melancolico , e medonho , oppoifo ao alegre com que fe dibfarja ^ fulhmiania , e ukruania. Sendo pois a cau- fa que produz eftas duas doenca , e a da oliveira , de que tratamos , a mefma , julguci podcr dar-lhe. o nome. particular de Chymomania. Aqui a abundancia demaHa- da da feiva he derraiLnda , e defperdifada pela traffu- da^ao , fern que feja eaipregada pela vegetagao cm be- neficio algum das partes da oliveira.. As cbfervagoes vao a, confirraar o que dizemos. § XLIX. As ollveiras que principiao a fer attacadns da G&jy- midrofe , achao-fe ordinariamente em hum eftado vico- ib , e niolkao na foihagem , e ramagem^ huma faude a ma is (?6) Pallad. oa, c. 8. n. i. Mart. c. 8. n. z. Colum. 1. 5;, c 9. tio 16. 19^ M E M O R I A S mais vigorofa , e perfeita. Entao o vulgo as julga ifen- tas do mal que grafla na vizinhanga : o Naturalifta po- rem , ja ameftrado pela obrerva5a6 , e experiencia , ve o contrario. Eu examinei muitas deltas oiiveiras , e achei queja havia hum anno que ellas padeciao o mal. Por quan- to obfervava algtins Coccos folitarios , e difperfos por al- guns dos ramos : e como ja moftrei ( § 22 ) , que eftes infecftos procurao o feu alimento na fubftancia gmnmofo" refinofa ; era fern duvida o terem alii arribado no anno antecedente as temeas , que difperfas coftumao formar as pnmeiras matrizes , donde deve principiar a povoar-fe a oliveira para o anno feguinte. Naquellas mci'mas aonde OS Coccos ja tern caliido , vem-fe adherentes nas pontas tenras os (Joccinfe^ios , que alli para o anno hao de for- mar OS primeiros gruppos. Em rodas eftas oliveiras vi- ^ofas -ja a traffudajao fe manifefta na parte fuperior das folhas : ella alii fe coagula , e produz algumas vezes hu- ma afpereza feafivel ao tarto ; e em outras fe conliece pelos pontes luzidios , e permanentes. O eltado pois da oliveira que principia a adoecer , he hum eftado de fum- mo vifo , e vegerajad ; e aifim a tralfuda^ao da feiva nao pode provir fenao dn demafiada abundancia della. Pelo contrario , obfervadas as oliveiras ha muitos annos doentes , quanto mais fe vai chegando o periodo em que o mal vai abartendo , tanto mais fe Ihes ve diminuir o vico , e feccarem-fe-Jhes os ramos ; finaes evidentes do abattimento das forges , e da vegeta^ao, € da cauia que produzio Jiuma tao diiatada Chymidrofe. § L. Efta mefma caufa faz , que as oliveiras mais vi^ofas j,. em circunftancias iguaes de terreno , clima , e expofi- 9d6 , fejao mais depreifa alfaltadas da doenja , e a fof- frao por mais tempo com trafludajao mais copiofa , e ferrugem correfpondente. A compara^ao , que em cada anno fe pode fazer do feu eilado externo , e apparente com ECONOMICAS. 193 com o interne, e real (§ 40), confirmara efta obferva- jao cada vez mais. Difle em iguaes circiinftancias , por- <]ue a accelerando da doenja , e progrellb della , depen- de das caui'as que promovem mais , ou menos o afcen- fo da leiva. Entre eftas cauiiis liuma he a expoficao , pe- la qual a oliveira experimenta o calor , e raios do Sol, Por iflb OS olivaes fitos em encoftas , aonde batte o fol desde o nalcer , ou em terrenos , cuja inclinajao augmen- ta a retrac^ao dos feus raios , ou em tal expofifao , que foftrao por mais dilatado tempo o calor luminofo , ic deftiiigucm de todus os outros olivaes pelo efcuro dafcr- rugem , e progielTo do mal. A hum deftes olivaes , que foi objc(fto das minhas principaes obferva^oes , le acha- va fronteiro outro , em diftancia de cem paflbs , e de tal forte fituado , que por poucas horas o vifltava o fol. Nefle o mal tcm fcito tao pouco progrelTo , que as oli- veiras , comparadas com as do ourro clival , parecem nao terem fido infultadas da doen^a. Ifto fe obferva or- dinarinmentc , nao 16 comparando huns olivaes com ou- tros , mas humas com outras oliveiras do melmo clival. Pelo que tica indubitavel , que o progrellb da Chyniidro- fe he favorecido pelas caufas , que promovem a tranfpi- ra^ao , e afcenlo da feiva , e ho retardado pelas contra- rias. Ifto moftra , que na oliveira ha huma abundancia de feiva , que lentamente fe vai manifcllando , a pezar dos obftaculos que a retem ; porcm que tirades elles , fe der- rama acceleradamcnte , e le defperdija com prejuizo do fru(flo. A efta chyynomania he que fe deve attribuir a caufa proxima do mal que padccem as oliveiras, § LI. Ja Mr. Bernard na Memoria citada advertio , que o Kermes fo fe encontrava nas oliveiras dos lugares mais cjuenres da Provincia , aonde rcinava o mal , e que os trios rigorofos contribuiao muito para deftruir aquelle infeclo. E na yerdade , fegundo o que tcmos moihado Tom. Ill, Bb (§ i'94 M E M O 11 L A S ( § 2.2 ) , bem fe ve , que o infedlo deve propagar-fe aonde fe ihe vai conrinuando o fuftento piomovido pe- \'6. cbymomania , c que deve acabar , quando as cauias contrarias ou a retardao , ou a impedem inreiramcnte. Tambeai Du-Hamel (37) diz , ter vifto principiar eite mal (que ja advertimos fer lemelhawe ao daoliveira^ § 31) em huma vinlia expofta ao Meio dia , e que em dous mezes fizera grandes progrefTos. E que no anno , em que os falgueiros rie CarcalTona janjavao das luas folhas ao nafcer do Sol , a maneira de chuva , hum man- na femelhante ao da Calabria , o tempo era tao quente , que o licor de hum thermometro de Mercurio , cujo ef- pafo , entre o termo do gelo , e agua a ferver , era di- vidido em cem partes , lubiva a 30 , 31 , c 32 graos af- fima de zero (38) . Tudo ifto moftra , que os grandes calores podem promover nas arvorcs huma Chymomania accidental ; e que , achando-fe nas oliveiras doentes hu- ma exrraordinaria propenlao para hum^ eftado vijofo , p6- de promovelJa mais , ou menos a expofijao , e mais cir- cunllaiicias particulares , que diverfificao huns olivaes dos outros. Os que crem , que a doenca da oliveira he con- tagiofa 5 e le vai propagando de huma para outra pela pallagem do infefto , nao advertem , que o mal tern the- gado a certos tcrritorios , eque, deixaiido elles intae^cos , OS tem como falvado , e pallado a manifeftai-re em ou- tros dillantes. Com el'feito , bem averiguadas as circuDf- tancias locaes , ve-ie , que ellas nao iao alii lao favo= ravcis a Chymoniania. § LIT; As raizes das arvores , geralmente fallando , afpirao a- feiva com huma forca incrivel (39); porem as da oli- veira doente a manifertao mais particularmente. Por quan- J£ (?,7} Trail, iles Arb. t. i. c. 5. arc. i. n. 4. (^K) Pbyf. des u4rk L 2. c. \. arr. 2. r?,9) V. Du-Hamel , Phjtf. des jirk I. 5. c. 2. arr, 2. E C O N O M I C A S. 195^ to oppondo-fe Gontinuamente a materia vifcofa , que dH- corre pelas raizes da oJiveira doente ( § 45" ) > aquella forja de afpirajao, efta he com tudo rao copiofa , que nao fo luftenta por muitos annos o eftndo interno da olivei- ra vigoCo , mas lubminiftra feiva de fobejo para a pc- der derramar pela traiTudajao. Efta forga das raizes na olivcira he tanto mais pafmola , quando ie compara com OS obftaculos , que continuamente Ihe atalhao huma li- vre tranfpirafao (§ 41). § LIII. Accrefce a ifto o nao fe obfervar diminuija^ de nu- trica6 , a qual parece devia moftrar a oliveira no eftado de doenja. Por quanto nutrindo-fe ella tambem , como as demais arvorcs , pelas foihas , eftas obftruidas conti- nuamente peja materia vifcofa , nao podem tao facilmen- te afpirar , e embeber as particulas , e liquidos , que a athmosfera continuamente ihes lubminiftra. O que moftra a redundancia de Tuccos que exiftem nella ainda doente. A' vifta difto nao he para admirar , que as mefmas tan- choeiras , como eu tenho obfervado , entrem a padecer o mefmo mai nos primeiros rebentoes , com que mani- feftao na parte fuperior terem lanyado raizes. Aquelles dependem da derenvolu^ao deftas no trofo enterrado. He porem tal a for^a com que afpirao a nutri^ad , que fu- bindo com demafiada abundancia as primicias da nova vegetajao , faz com que ella entre a padecer o mal , que geralmente reina. § LIV. Efta abundancia de feiva he natural a conftituicao , e natureza da oliveira. A fua vegetajao he tao anima- da , e produdliva , que ganhando hum paiz abrigado , e que a agazalhe por todo o anno com hum calor pro- porcionado , parece zombar de todos os contratempos , Bb ii e af- 196 M E M O R 1 A S e affrontar aquelles mefmos , com que a incuria , e igno- rancia dos homens ihe pertende diminuir a exiflencia , e arruinalla. Quern eonfiderar as colheitas que os olivaes de Portugal coftumavao dar , e a incuria , e quafi del- prezo , com que elles fao em muitas partes tratados , e cultivados , vera confirmada a. minha aflerjaoi He para eidmirar como troncos velhos , e meio carcomidos , e dei- xados-ao- acafo , ofi^recem aa ramagem huma mocidade vigorofa , c colheita abundante. Como oliveiras de paa velho 5 e ramos inuteis ,. e em iima calligadas com va- rejos defti-ogadores , vencem tod'as eftas inclemencias , e pagao ao proprietario com frucflo fufficiente , e que fe nao devia efperar do pouco cuidado com que fao trata- dos. Ja Rofier (40) advertio ilto , fallando da ma poda ,. e contraria a todas as regras da vegetaga6 , com que no RoufTillon fao tratadas as oliveiras , c da abundante- colheita que alii- , nao obftante iflb , produzem. Ella raef- iTia reflexao faz elle a refpeito das oliveiras da Corlt'ga , e das de muita parte dos Cantoes da Morea , e Levan- te. Alii prefentaa- as oliveiras , defamparadas inteiramen- te da cultui"a , hum cfpeiftaculo o mais defagradavel , e- triHe : a fua vegetacao- apenas le conferva no fimo das- mefmas ; e ifto nao obftante , attefta elle-, tellas villa tao carregadas de fru(flo , ainda que mais pequeno , co- mo as' das Provincias de Franca , aonde fao bem culti- vadas. He rauito curiofa a obfervacao que fe le na Hif-- !>dria da Academia de Franca do anno de 1709, e re- ferida por Air. Magrrol. Diz , que no Languedcc , quan- do fe enxertavao de burbuliia os tronco-, ou ramos da? oliveiras vellias ,. fe Ihes- c.oilumava tirar peno de quatro-- dedos dc cafca. em roda por lima da enxertia. Nao po- dia pois o refto da arvore receber para iima nutricao , fena3 pefb alburno , e pab , ifto nao obftante, nao fo con- fervavao- as follias , mas o que he mais , no anno feguin- re dava,6 dobradas ftores, c fru(fl:03- ,. do que coftumavaoi Tu- E C O N O 5^ I C A 9. 197 Tudo ifto faz ver , que a conftuulfao da oliveira he na- turalmente criadora de grande abundancia de feiva , a qual a pode fazer doente. O modo porem com que ago- ra as oliveiras de Portugal maniteftao cfta abundancia pe^ la Cbjviidrofe , he fingular , e extraordinario. § LV.. Difle que a Chymomania , ou abundancia demsflada da feiva , era a caitfa proxima da doen^a. He porc'm ccrto , que grafTando cfte mal , e propagando-fe mais , ou nienos per muitos rerritorios , elie deve ter huma caufa geral , e mais remota , que influa na abundancia, e tralFudafao geral da leiva. A oliveira teme o frio , c gofta do calor ; porem ate que ponto elia o queira , a nao fabemos. Alem difto , a materia do fogo fe acha dif- fundida em grande quantidade pelas plantar. Com efFei- to o frio nao as aperta , feiiao j^orque Ihes fubtrahe a materia do fogo \ e alem dilVo , iabe-fc , que quando a athmosfera he fria , elias coniervao alguns graos de. calor. Por efta razao, quando a terra efta cubcrta de neve , ve- fe ao pe das grandes arvores hum efpa^o circular, on- de a neve fe acha derretida' j e lie de erer que ifto pro- ceda de algum calor que coniervao as raizes. Tendo pois a conftituicao da oliveira tanta analogia com o calor , nao fe pode duvidar , que fobre todas as arvores , el- la poflua hum.a grande quantidade da materia do fogo; Si:ra pois a raalfa do fogo , que aclualmente reina na; athraosfera ( polio que modificada pelo terreno , cxpofi- ^ao , e c!ima ) , a que promova tao geralmente a abun- dancia da iciva na oliveira , e a force a derraraar-fe pelos feus poros ? Eu o conjeduro , mas nao o deci- de , ate que as obferva^oes para o futuro efclarecao.' liiais ej[lc pouto. ipS M E M O R I A S § LVI. Depots de ter determinado a doen§a da oliveira , c: - a caufa , que em parte , e prox'miamente a produz , co- mo difTemos ( § 48 ) , eftou betii longe de crer , que a fimples Chymomania feja fo a que gera toda a doenga. Pois do que tenho expofto fe ve , que aquella caufa ef- ta complicada com a efpefllira , e alguma degeneracao da fciva. As obfervacdes que fiz a refpeito da fucco que corre pelas raizes ( § 46 ) , perfuadem ifto. A abundancia da feiva , e os obilaculos que fe oppoem a tranfpiracao j podem muito bem retardar-lhe o movimento , originar nos vafos huma maior accuniula^ao da feiva , fazella mais efpeffa , e concorrer paia haver alguma degenera- cao. Efte difcurfo parcce confirmar-fe pelas obferva^oes de Hales , e Grew. Ellas provao , que quanto o fucco circula por mais tempo na arvore , tanto mais a fua na- tureza aquofa fc muda era huma fubftancia unifluofo-glu- tinofa , que por ilTo as arvores fempre verdes , abforven- do pouca agua , tem hum movimento de fucco mais tar- do , e por effa razao mais oleofo \ donde Ihes provem nao perderem as folhas no inverno. Ellas obfervajoes ge- raes juntas as particulares da oliveira , poem fora de to- da a diivida a complicagad , com que fe deve confiderar a doenja que ad:ualmente reina. Ella he muito differen- te daquella abundancia de fuccos , os quaes ainda que defvairados , ie vao empregar na demafiada vegetagao das partes da oliveira , de que fao effeitos a fullomania , e ulomania. CA- E C O N O M I C H S. 19^ C A P 1 T U L O IX. Dos mtios que Je devem tentar para precaver , e cu*- var mal que padecem as oliveiras. § Lvn. TOdos OS remedios , que ate agora le tern aconfellia- do para curar a doenja da oliveira , tern por fim o dfflruir o inle»5lo , que fe ere fer a origein, Como po- r^m tenhamos moftrado , que Caccinfe3o nao he o cau- fador do mal (Cap. IV. e VI. ) , fica pela mefma dou- trina cortada toda a efperanja que podia haver de o ata- ihar , recorrendo aqueiies meios. Ella f'oi a razao , por- que emprehendi principalmente nefta Memoria , a averi- guar a caula da doenja , a qual fe eu nao delcobri , ao nienos conl'eguirei o fazer duvidar da que ate agora fe I'uppunha , c alTun cxcitarei os Naturaliflas a procurarem- na por novos trabalhos , e dilVellos. Eiuao o que em- prendi.nao lera baldado , antes bcm corapejifado , Te dos nitus enganos tirar o publico algum fru(flo. Em quanto nao chega elle tempo, vou a cxpor os meus penlamen- tos (obre os meios que fe dcvem tentar para precaver , e «iurar o mal, de que ate sgora temos tratado. EVIIL Confidindo pois a doen^a da oliveira na abundan- cia da feiva , complicada com a I'ua degeneracao , lie fa- cil de ver,.qtie o rcmedio fe deve fo procurar nos ibc- corros , que Ihe pode fubaiiniftrar a cultura. O melmo mal que padece a oliveira , c o mode por que ella fem focccrro do cultivador pertende vencello , cfta iixiicando a fua cura. Ella galla muitos annos em ie dcfcarregar de huma uiaterh iautii a ila vegeta^ao ■-, aioHra y\» mcf- xTia ^OO M E M O R I A S ma fubftancia que traffuda a fua degeneragao j e por fim, cefTando a ycgetajao em muitos dos feu« ramos , adver- te o proprietario cortar-lhos. Se pois o cultivador ouvif- fe , e entendelTe bem ellas vozes , corp que a natureza da oliveira explica as fuas necefTidades , elle a nao deixaria padecer por tan to tempo j e fenao chegafTe a defterrar o mal , ao menos o diminuiria. § LIX. Em arvores menos vividouras que que as oiiveiras , as extravafajoes do Tucco proprio fao havidas ordinarja- mente por iiuma purgacao , com que ellas fe livrao do fucco demafiado J e por illo nocivo (41)* ^^o mals par- ticularmente fe obierva iiaquellas , cujo fucco proprio he refinofo , ou gommofo. Achandc-ie pois a oliTeira nefte eftado , nao ha outro meio de a foccorrer , e livrar del- le , fenao o de poupar-lhe o trabalho , com que eIJa por tiio dilatado tempo procura expellir por todos os leus poros hum fucco gommofo-refinofo ( Cap. V.) . Se efle fucco fe acha degenerado pela accumulajao , demora , I diuturnidade do mal , e conftituijao propria da oliveira ' (§ 56 ) , he baldado qualquer outro remedio que nao ; feja o da cultura , a qual lo pode m.elhorar os fuccos das arvores , e corrigir pouco a pouco o feu vicio. Se ( muita parte dos ramos fe achao doentes , para que fe j ha de efperar que a diuturnidade do mal os feque pa- [ ra fe cortarem ? § LX. Eis-aqui com tudo o que tern fuccedido as olivei-" ras de Portugal. O proprietario fitando a fua attenjao no infeilo , a quern poe a culpa da defolagao que ex- perimentao os feus olivaes , can^a-fe em efperar que o bi- X,40 Du-Hamel , P^/. des Arb, Lib. 5, cap. 5. art. i. EcoNO MICAS. ior biclio morra , ou ic aufcntc , e por fim fe refolve a fa" zer huma opcin^ao , a quai emprcgada a tempo , fenao remedialTe o mal , ao menos le cuiileguiria que a oli- veira i'e nao extenuaile inteiramentc. A cfte expediente recorrera6 muitos dos propiietarios da Cofta ate Marfe- liia , OS quaes , como refere Mr. Bernard , cortando os ramos mais grollos das fuas oliveiras , as tinhao inteira- mentc renovado. Pelo mefmo modo atalhou Du-Hamel hum mal femellianre , como ja dilTemos (§ 5^1 ) , que principiava a graflar em huma vinha expofca ao Meio dia, § LXI. Para £e tentar a cura da oiiveira pela cultura , clla deve conjiilir em duas coufas. A primeira diz rcl'peito a arvore , a icgunda ao teireno. A cultura immediata da oiiveira cohfiile em alimpalla , e podalla. For aiimpac enteiido o tirar-lhe tudo o que elliver fecco , todos os ramos dociites , deixando os vigorofos , e , alem difTo , livrar o tronco da caica inutil ; e tanto efte , como os ramos dc toda a planta parafitica. No refto he que fe deve fazer a poda ; nao arburariamente , mas dirigida por principios. Eiles todos tendcm a prefcrever o modo de defembaracar a arvore dos ramos, que nao produzem mais que ramagem fraca , e a forjalla a produzir pao novo. Accrefcento a ifco a poda , ou corte de alguma , ou ajgumas raizes. Tudo ifto fe dirige a diminuir a co- pia da feiva , c a rellabelecer Jiuma tranipirajao mais livre. A poda , e a limpa ja foi muito recommendada pelos antigos Naturaiift-as , c della fizerao depender o me- Ihor cllado , e mais fruClifero da oiiveira (42) . Tambem o corte da raiz , raettendo ncllc huma pedra , ou outro corpo que proiiiba a communica^'ao da feiva , foi o re- medio ufual com que occorriao li abundancia dos fuc-> cos ._, que fe manifeflava pela ulomnnia (43) . Tom. HI. Cc _§_ (42^ Theophr. Hiji. Plnnt. 1. :. cap. 8. De Cauf. 1. i. c. 21. (4^: Theophr. ib. Paibci. Oa.' c. S. n, i. Mm. c. 8, n. z: Colum. 1. 5. c. <;. n. 16. 302- M E M R I A S : § LXII. A outra parte da cultura confiile im do terreno. For efte he cjue fe devem fubminiftrar a oliveira os prin- cipios que Jiao de corrigir os luccos , e promover a ex- pulfao dos que fe acliao dcgenerados. A iavoura da ter- ra aonde fe acha plantada a oliveira , os adubos , ou ef- tercos , de que ella muito neceiTua , e que tenhao expe- rimentado a fermentagao putrida : a rega conveniente que Ihe difTolva os principios , e facilite a fua combi- rajao para feretn ablbrvidos , fao os meios que diifla a theoria da doenga que tenho expofto , e que fe devem applicar para tentar a cura da oliveira. For dies foccor- ros fe adminiftra hum liquido cheio de particulas pro- prias para diluir , e atcnuar a fubftancia vifcofa , e jun- tamentc hum calor que a poc em maior movimento , faciiitando-fe aiTun a expulfao pela tranfpiragao. § LXIII. Cumpre porem advertir , que fe deve averiguar o cllado em que fe acha a doenja das olivciras. Porque iumas principiarao a adoecer , e em oucras o nial fe gcha muito adiamado. For ilTo as tentativas fe devem praticar ao mefmo tempo em as oliveiras que ofFerecao cftes differentes eftados. Ja diife , que as oliveiras mui- $as vczcs fao havidas por fans do vulgo, quando ja tern fido allaltadas do mal (§ 49) : por ilfo o cultivador dc- TC defconfiar da fua belleza , e pompa. Aqui he que o (JoccinfeCio ihe deve fervir de guia , e reccber delle o co- uhecimento da doen§a , de que ja fe acha attacada a oliveira , a pezar da fua apparencia. Fara illo fe deve examinar a oliveira , e achando-fe hum !i6 Cocco , ou , ng falta dcfte, encontrando-fe z\g\xmCoccinfe^h 2^h.QXQn- te a alguma ponta tenrii , ou folha , p6de-fe alTentar, que a oliveira ella com o mal , e que efte tem principiado o an- , Economical. ao^ anno anteccdente , ou lalvez mais de traz. Dcvem pois principiar logo as tentativas da cultura , e a experiencia moflrara fe iao , ou nao , proveitoras. § LXIV. O ellado de doen^ia mais , ou menos adiantado , he bem conhecido pcla copia de fcrrugem , efcurides , c gruppos de Coccos , que em quafi todos os ramos fe achao apinhoados. Talvez entao a cultura pouco , ou na- da aprovelte para dccidir da melhoria , antes de chegar o periodo em que ceiTa a doenfa. A pezar defta defcon- fian^a , devem-fe efcolher individuos em todos os eftados, e fazer obfervajoes comparativas. Em alguns deve-fe fa- 2er o decote , para obfcnrar a fua renovajao. Por quan* to p6de fer que nos novos rebentoes , ainda qne vijo- fos , continue a apparecer o mal. Tera efta experiencia huma utilidade , e he adiantar alguns annos a renova^ao da oliveira para gozar mais cedo das colheitas. Eftas tal- vez percao aquelles , que para applicarem as operacoes da cultura , eiperao , com grande perda de fru(flo , que a doeiica chegue ao feu ultimo periodo , c que a oliveira moftre pelo feu abatimento , o que fe ihe coliuma , e deve fezer. § LXV. Eftas tentativas que aconfelho, fao tanto mais para abracar , quanto ellas nao fo nao fao prejudiciaes a ar- vore , mas por muitas razoes proveitol'as. Com ellas fa- tisfaz-fe a huma cultura , a qual fe devia fempre cmpre- gar , e que talvez a fua negligencia tenha , fenao caufa- do 3 ao menos favorecido , e protegido o mal. Cc ii Con- •aQ4 M E M R I A. 9 .'"oq r • C O N C L U S A O. § LXVI. ADocnca que padece a oliveira faz realgar tnais o elogio que Ihe fez Columella. Pois alem da precio- fidade do feu azeite , e da facilidade com que fe reno- va ; alem da fua prodigiofa mulriplicagao , preparada na multiplicidade de germes efpalhados por toda a fua caf- ca , de cujos pores fe expoila ao ar nafcem empolas , fe cnterrada produzem raizes ; alem fiiialmente dos prefli- mos , com que cada huma das fuas partes utiiiza o ho- mem , pofTue huma rao vigorofa , e admiravel conftitui- 536 , que aft'ronta por muitos annos hum mal , que pa- rece em pouco tempo a devia fazer perecer. Com efta propriedade ella confola o lavrador , que privado do feu frucfto , vive na efperanja da colheita , que ella Ihe pro- mette pela fua rcnovajao futura. He pois a oliveira por todos OS titulos , e ate mefmo pela fua enfermidade , a primeira de todas as arvores , como diffe Columella. Ef- ta primazia deve excitar o zelo do cultivador , e do Na- juraiiita : o daquelle , para ihe melhorar a exiftencia ; e o defte , para ajudar aquelle com as fuas obfervagocs , e experiencias. A diuturnidade do mal , a conftancia de ca- da arvore em foifrelio , a fua generaiidade , e os interef- fes particulares , e publicos tern fugcrido hailante mate- ria , e eftimulos para as tentativas , e obferva^oes. Hu- ma collecjao feguida , e circunftanciada deibs , feria hu- ma obra da primeira importancia. Se fe achar ja princi- piada , o meu traballio a augmentara j fc nao , eu o da- rei por bem empregado , fe contribuir para fe empren- der: e quando nao tenha outra utilidade , ao menos fub- miniftrara alguns materiaes , para fe vir a tecer a iiifto- ria de huma doenca tao lingular , e inilruirem-fe os vin- douros fobre huma calamidade , que nao deve fcr indif- ferente , nem ao particular , nem ao Publico. M E M O R I A iS^obre os damnos do Mondego no Campo de Coimbra , e feu rctJiedio. PoR Este:va6 Cabral. CAPITULO I. Naticias Pj-eliniinares. I. 1 "^^ Epois que o Mondego lava a Cidade de Coiin- I M bra , nao ha quern nao faiba , que elle entra de "*— ^ repente nos leus campos pianos , e nos mefmos corre fete Icguas ate o mar : mas a Hidoria deflas fete leguas , fe aJguem com miudeza a efcrevelle , nao po- deria fer fcnao doIorofilUma \. pois he certo , que as aguas corriao em outro tempo fundas na caixa do rio , e cflava defareada a famofa pome , deflilagada a Cida- de , defalagado o antigo Convenio de Santa Clara , que a Rainha Santa fundcu no fitio , aonde hojc fe vem as fuas ruinas , deialsgados finalmentc outros edificios , dos quaes apenas ha memoria nos Cartorios , como fao por cxemplo OS antigos Conventos de S. Franciico , de San- ta Anna , e de S. Domingos. Comccou o rio a arear , e alagar , nao fe fabe bem quando : mas dcixadas cutras niemorias , e vozes incertas , he indubitavel , que elle ja fazia damnos graviillmos no tempo de Fiiippe II. , os quaes elle pertendeo remediar , o que conlta de huma fua Carta , efcrita ao Geral de Santa Cruz , cujo origi- nal le conferva no Cartorio do Molteiro , e diz alTim : i'adre Qcral de Santa Cruz , Lu LUity res crroiomui- tc 106 M E M O R I A S to Jaudar. Ao Bifpo Conde niando ordenar , que com rommunica^ao vojja , e de outras peffoas veja em que forma coKvird tratar de encanar o rio Mondego , para que do que fe gajlar refulte utilidade , e a obra fique durable , como inais particularmente o enteiidereis do "Bifpo, Encommendo-vos , que quando tiverdes avifo Jeu , vos acheis no tempo , e lugar , que elk vos Jlgnalar para ejla materia , e confio de vos procedereis nella de ynodo , que com vojfa intervencao fe configa mais facil- mente o que fe dejeja , e procura. Efcrita em Madrid a 6 de Abril 62<). Rey. ,, Donde fica claro , que ha mais de feculo e meio erao os damiios do Mondego taes , e tantos , que mereciao a attenfa6 do Soberano desde Madrid. II. Que coufas enta6 fe propuzefTem , e quaes obras fe ordenafTem do referido tempo ate agora para defender Coimbra , e os feus Campos contra os impetos do Mon- dego , talvez feja facil achallo notado entre a poeira dos Cartorios. Mas fenieliiante empenho eu o deixo a quem river maior commodo , e mais opportuna occafiao. Para eu concluir, que fe tem gafto com efte rio immen- fos thefouros , bafta-me confiderar as obras que exifteni nas fuas margens nas primeiras duas , ou tres leguas abaixo de Coimbra , das quaes obras a feu tempos falla- remos. Ajuntemos a ifto ferem todos os povos confinan- tes obrigados ao traballio de graga , huma pefToa por ca- fa cada anno ; e todos os lavradores tambem obrigados a trazer pedra fern paga. Ajuntemos huma eipecie deMa- giftrados confiftentes em hum Miniftro Defembargador Preiidente das obras , c dous Provedores de Marachoes , hum da banda direita , outro da efqucrda , e hum Juiz das vallas com feus Efcrivaes. Qual calculo podera exa- damente ajuntar a fomma de tantos gaftos ? Qua! pen- na exprimir a vexa^ao dos povos , os quaes , nao obftan- te OS trabalhos , vem perdidas as fementeiras , areados OS campos , ou reduzidos a paues. Eu nao entro em affumpto tao vafto. IIL ECONOMICAS. 207 III. Mas reftringindo-me a hiftoria flinples acho , que por caufas do damno rem fido algumas vezcs accufados OS outciros , e os montes da Beira , dos quaes defccni as areas para o Mondego , e para os ieus influentes ; e em tal calo fe tern pedido , e propofto , que os outci- ros , e OS momes da Bcira fe nao cultivem. Outras ve- zes , por caufas maleficas , tem fido accufadas as penin- foas , e ilhas , ou Infuas (como aqui Ihes chamao ) , as quaes pelo campo abaixo nafcem no meio da corrcntc , e dividem o rio , e dominadas depois por pefloas po- derofas fe augmentao com artificio. A efte propofito me forao moftrados os autos originaes de huma commiffao do encanamento do Mondego do anno de 1708 exillen- tes na mao do Defembargador Jofe Magalhaes Caltel- branco , prefentemente Superintendente das obras do Mon- dego. Nos ditos autos fe comeja de hum Alvara do Se- iihor Rei D. Joao V. , em que fe relata , que Louren^o de Mattos tendo comprado huma pequena Infua no meio do rio por 300(2^000 reis , a tinha augmentado de mo- do , que valia mais de fincoenta mil cruzados , e em grandeza tinha mais de 80 geiras , com evidente ufurpa- ^ao dos campos circumvizinhos. Em confequencia man- dou S. Mageftade , que efla , e as demais Infuas foflem todas demolidas. Mais fe continuao nos mefmos autos novas queixas , que , nao obllante os Decretos de desfa- zer as Infuas , nada fe executava , antes fe faziao outras novas ; pelo que expedio S. Mageftade alguns Engenhei- ros , que nao fao nomeados , a reconhecer o eftado do rio : eftes ou julgando pouco poflivel o desfazer as In- fuas , ou conliecendo , que a fituagao mais baixa dos campos da banda efquerda por S. Martin ho , Cafaes , Villapouca , Arzila , chamava naturalmente as aguas a ef- ta parte , ou por outros motivos , forao de parecer , que fe mudafle o alveo do Mondego do meio dos campos y aonde corri^ para o iado efqucrdo yizinho as referidas terras. IV. 2,o8 M E M O R r A. s IV. Ellc parecer dos Eugenheiros commoveo os animos incrivelmente , principalmente por dous inotivos ; primei- ro , porque viria o rio a occupar as melhores , e mais ferteis fazendas de todo o campo ; fcgundo , porque os territories das ditas terras , cliamadas Terras do Sul , iicariao interrompidos , e cortados com graviillmo prc- juizo dos iavradores , e perigo dos gados , os quaes nao poderiao ir paftar nos campos de inverno , ou feriao obrigados a pafiar o rio nadando. Apparecem nos autos dilFcrentes pareceres em efcrito contra os Engenheiros , mandados a S. M^geftade peJo Reitor da Univerfidade Nuno da Silva Telles , o qua! guiou todo o negocio. E viftos OS pareceres , refolveo S. Magcflade , que o rio nao fofle mudado , mas fim fortificado , e confervado no antigo alveo , desfeitas , e aniquiladas as delgra^adas In- fuas , principalmente a de Lourenco deMattos, que era a maior , e a mais vizinha a Cidade , donde diftava pouco mais de huma legua. Entao foi quando , com grandes poderes , e muita folemnidade aos 5 dc Jul ho do dito anno 1708 j chegou mandado a Colmbra o Def- embargador do Pajo Miguel Franco de Andrade cm qua- Jidade de Juiz CommiHario , para reduzir a correntc do Mondego ao antigo alveo , e ao antigo ellado. Chama- dos logo por elle os Intendentes , os Provedores , e hu- ma quantidade grande de peflbas interefladas , alTentou- fe primeiro , fern afligna^^ao alguma , que o alveo do Mondego , desde o litio Lapa dos Efteios por fima da ponte ate S. Fins , que I'ao fmco leguas , devia I'er de Jargura 17:5 varas de medir panno \ excepto a ponte , aonde por caufa dos pilaftres fe defejava , que fofle mais .'argo j e que nos outros lugares de maior largura fofle livre aos confinantes occupallos. Comecada a vifita da dita Lapa dos Efteios ate S. Fins , forao por Decreto mandadas desfazer entre ilhas , e peninfoas nao menos que vinte e novp. Depois do Decreto conrra as Infuas , fc procedco a huma refolujao hjdraulica , filha porem da ignorancia . que le defentulhaffem das areas os arcos da pon- EgONO MICAS. 209 ponte , cavando-fe em cada hum dclles huma valla. Tcr- ceira refolu^ao , que fe rcllaur.iffem os bordos da ponte cahidos , que ja naquelle tempo a3 innundajoes erao tao grandcs , que cobriao a ponte. Quarta , que o Caes da Alegria fe mudaile de dentro da Inllia dos Religiofos de S. Bento para firaa da dica Infua , pagando elles a quan- tia concordada de cem mil reis. Por conciufao fe ef- creveo o regulamento , e fe encarregou a execujao de tudo ao Supriiuendente , e aos Provedores dos Mara- clioes. V. He crivel , que em tal eftado de coufas , e em tao grande empenlio dos intereffados fe comeffafle a diligen- ■cia contra as Infuas com muito calor j mas cu nao fei de qual methodo fe ulafle para obter o fim propoilo. O cafo real he , que as Inluas nomeadas exiftem todas ain- da lioje , e os damnos tern fempre crefcido ; e os fe- nhores das Infuas as gozao cada vez mais augmentadas, e ralvez fern fua culpa , como abalxo terei occafiao de explicar. Nos marachoes , e nos muros cuftofiflimos fini tern havido culdado extraordinario , como ja apontamos , pela deligencia dos Provedores , que de hum , e do ou- tro lado govcrnavao de Monte-mor para fima : mais que tudo Jie notavel a chamada Ouebrada grande , hum quar- to de icgua abaixo da ponte de Coimbra no fitio para onde diflemos , que aconfelhao os Engenheiros fe mu- dalTe o rio desde o anno de 1708. Nao obftante os im- menfos trabaliios que aqui fe tern feito , o Mondegp zombou de tudo , muros , eftacadas , e quanto havia nel- fe lugar , tudo defapparcceo ; feccou-fe inteiramente o alveo velho , e fern alvco corre agora o Mondego a rc- veria peios camnos desde o anno de 1783 , c julgou-fe necelfario deixallo aiUm correr , ou porque fe deo o ca- fo por dcfefpcrado , ou , para melhor dizcr , porque hou- ve cfpcranja , que o rio abriria naturalmcAte iium alv-eo ccrto , e eftavel pelo mais baixo dos campos , no quai correfTe fern ulteriores damnos. VI. Mas pouco tardou , que fc nao viffe fruftrada efta Tom, UL Dd ei- 2IO M E M O K I A S efperanja , e fruftrada ella chegarao ao Throno novas fiipplicas , pedindo remedio , as quaes porque le tratava do bem publico , e da grande utilJdade dos povos , nao pode S. Mageiladc deixar de deterir. UlnmamcntC;, de- pois dc outros pareccics quer S. Magellade ouvir lam- bein o men , tal , ou qual ; e desde o dia quatorze de junho defte anno , por avilb do llluftriffimo , e Excel- lentilTuno Senhor Joie de Seabra da Silva , Secretarlo de Eftado , me foiao intimadas as deterniinagocs dc Sua Magellade , confiftindo principalmente nos ieguintes Ca- pitulos , OS quaes me lervirao de merhodo ao prelente difcurfo , refpondendo pela melma ordem. I. Que eu paf- iall'e a Cidade de Coimbra para vJfitar os feus campos , ou pelas margens , ou pelo alveo do Mondego , a tim de examinar os rombo.> , e as quebradas fucccdidas com rulna da lavoura , e da navegacao. II. Que fe julgaile preciib trabalhar em alguma obra provifional para reme- dio de urgentc perigo , a elia ie procedefle logo fern perda de tempo. III. Que examinafl'e com toda a liber- dade , fe era util , e fe era poffivel a execugao de luun piano 5 niuitas vezes fallado , e apprefentado , no qual piano o remedio principal , que fe aponta para defarear OS Campos de Coimbra , he prohibir a cukivajao dos montes da Beira, para que as eiixurradas nao tragao mais •iirea. IV. Que para obra maior formafle eu o piano pa- ra fe apprefentar a S. Msgeitade. V. Qiie fobre diver- fcs pontes de mcnos imponancia obfervairc outras ini- truccoes , que do mcfmo modo me forao dadas em ei- crito. Elles fao os pontes , a que fou mandado refpon- der , mas toda a difficuldade eila no quarto , no qual fe tern jd empregado feriamenre muitos elludos , e ate ago- ra todos inureis : farei eu tambem com attenjao pcflivel o meu eftudoj e fenao for proveitofo, fervira de augmen- Ur o numcro dos inuteis. CA- ECONOMICAS. 211 C A P I T U L O II. Eft ado do Monde go da Ponte de Coimbra ate ao Mar. Vir. ' I ^ Res pontes em Coimbra huma fobre outra : a X prefente ponre alguni dia tao aha , que nenhuma peflba dos bordos deJla pode ier teftemiinha de hum ho- micidio commettido vkinho a agua : cem degraos ate a agua no tal , e no ral caes : boiques tao grandes , que neiies fe perdia a gente no tal , e tal fitio j e cutras muitas narrafoes fcmejhanres fao as que commumente fe ouvem no povo de Coimbra : mas nellas I'em duvida ha cncarecimento , pois achei de certo , que a agua do Mondego na ponte nao he fuperior em livel a agua do Oceano em preamar , fenao 6:5 palmos , fuppofta a qual medida , fe damos oiividos a todas as narrajoes , affun- dado o rio outro tanto em Coimbra , deveria a mare alta infallivelmente chegar alguma vez a ponte. Nao nego , que fe tenhao fobre o Mondego fab.icado tres pontes cada huma mais alta , do que a anteeedente ; a jjrimeira pe- los antigos , a fegunda a tempo do primeiro Rei de Portugal o Senhor D. Aftbnfo Henriques , e a tercel ra a tempo do Senhor Rei D. Manoel. Nao nego , que a prefente ponte efteja entuUiada muitos palmos , como abaixo fe dcclarara j o que nego he o excelTo , e polTi- bilidade do fundo enorme , que fe vai cantando : e efta negativa ferve pnra intclligencia do que agora podemos pcrtender do Mondego , feguindo os efFeitos , e a car- reira das caufas naturaes , que fao as que devo ter fem- pre de mira para nao errar , onde me he ueceffario pro- valla ; o que faco do modo feguinte. VIII. Suppoiriho primiciramente , que a mefma quali- dade , ou groifura de areas , que agora traz o Monde- go a ponte de Coimbra , a mefma trouxe , e arraitou iempre \ porque fempre caliidas dos mefmos montes., e Dd ii vin- ill Memorias vindas da mefma diftancia , e por iflb attenuadas do mef- mo modo j e que fern pre foiao igualmente faceis a ca- hir no rio , porque anrigamenre , fairando a defcuberta dos milhos , cultivavad-fe mais os lugares eminences , do que OS pianos baixos iujeitos as innundayoes do inverno, A quantidade das aguas foi tambem fempre a mefma , porque fempre foi identica a fuperticie do terreno , que jielle defpeja ; e fempre pouco mais ou menos iguaes as chuvas , e as neves ; porque nunca fe mudou o clima , nem variou a natureza das Prov^cias. A16ni diilo , lie neceflario confiderar o rio , na6 io como agua corrente ^ mas como agua , e area : fe fofle fomente agua corren- te J poderia a fua fuperficic fer quafi horizontal j mas por caufa da refiftencia , que Ihe faz o pezc da area cor- rente , em cada rio fe forma huma queda , ou inclina- §a6 , na qua! a natureza proporciona , e equilibra a for- ^a da agua com a reliftencia da area , chamada pelos Authores refijlencia do fundo , e eu no cafo individual do Mondego Ihe chamarei , para me explicar , refijlencia ia area ; fomente reflifto , que o dito equihbrio nefte Mondego deve fer incrivehnente vario , por caufa da in- cxplicavel variedade com que fe ve correr o rio ora di- Vidido em dous , ora em tres , ora em mais ramos , e poucas vezes junto todo. Sao eftas em parte verdades siaturaes , em parte verdades hydraulicas , das quaes na6 lie licito duvidar. Mas porque a natureza nas mefmas circunftancias fempre obra do mefmo modo, fegue-fe de tudo o fobredito , que a queda com que o MondegO' pode agora arraftar a fua area , he a mefma com. que lempre a arraflou^ Limitando-nos porem a ponte de Coim- bra , e fuas vizinhan^as , por na6 variar circuftancias , e prefcindindo da variedade dos regatinhoj em que eile rio fe devide. IX. Se a/Tim he , dira alguem , como he poflivel veri- ficar ao menos em parte as fobreditas narra^'oes do po- vo de Coimbra , das quaes ao menos algumas nao po- dcffi p6r-fe em duvida ? Refpondo y que tambem eu creio fe- E C O N M I C A S. 213 ferem verdadelras muitas das allegadas narra^^es , mas crao outras as circunftancias que as vcriiicavao ; e def- tas circunftancias, as que julgo principaes lap as feguin- tes. Primeira circunftaiicia : cftava o mar mais vizinho > na6 porqu; le tenha agora retirado a barra da Figueiia , pois tern el!a a condic 6 de cftar entre montes , que ea quiz obiervar ; e per illb nunca variou , nam pode va- nar , e fempre no mefmo fitio , acabado o Mondego , comegou no Oceano ; mas porque o rio dentro term ti- nha mc^.os voltas , menos areaes , mcnos Inluas , em f6r- ma que podia fer menos liuma legua mais curto , cor- rendo mais direito. Segunda circunftancia : a agua era provavelmente mais junta , ou rotalmente junta , e como tal tinha toda a lua forja poffivcl para defemulhar as areas. X. Para examinar eftas duas circunftancias , as quaes julguei I'erem a chave do negocio todo , fiz primeiro elevar hum mappa , em que fe contiveffe o andamento do rio J da pome ate o mar , com o fim de ter a me- dida do leu comprimento , e como fe podia encurtar , que he o qm me ferve ao intemo prefente. O refulta- do principal do mappa he , que o rio em todo o feu comprimento tern 21^900 bra^s , que fao oito leguas juftas , contando em cada Jegua 2q))6o bra-jas , e por ii- nha re(fla teria lomente i6(^foo5 Rue he quafi huma le- gua e meia de menos. Dopois diilo me puz cu melmo a livelar com exafto livel o meTino vio , da ponte pcf quairo leguas ate onde chega a marc , pouco abaixo da barca de Alcnte-mor, nao coiitinuando alio, poi que nao me pareceo neceflario , mas obfervando cm cada legua varias livdacoes de a(^ooo palmos , cada huma com as condi^f'es coftumadas , e com a frequencia , que me pa- receo baftante para concluir a incJinagao media. Ulei fempre de palmos de vara 6c mcdir panno , ja que a acho nomeada nos Autos do anno de 1708, dividido po- rcm o palmo nao em outavas , fcgundo he coftume ,. mas para raeu commodo. , em oncas , ou partes deo aiais. JI4 Memorias mais. Advlrto , que o coftume dc efcrever as llvela^oes he norallas em forma de fracfso , pondo por numera- dor as differencas das aituras , e por denominador as dif- tancias das fituajoes : no caCo prefente por^m perpetua- mente poupo o denominador , porque , como ja notei , I'empre he o mefmo dous mil palmos. Os refulrados liao OS leguintes : e aonde nao vai notado agua junta , ou ei- ]a he larga , ou efpalhada. Livelacoes da primeira legua. XL Primeira , a ponte immediatamente onjas 23, 7 2 , no meio entre a ponte , e a quebrada - - 17, 4 ^ , a quebravda em agua junta ------ 9, g 4» - ^^'7 5-, ^i'4 6, - 21,7 7, - - - ^3.0 8 , - - - - 20, 5: 9 , em agua junta --------- - to, q Sommao as precedentes livelagoes ong. - - I5'9, 3 as quaes em toda a legua dao ------ 220, o ou palmos 22. Segunda legua. 10, 21,2 11 , em agua junta ----------11, 4 12 , - - - - - 17 i^ ,----- - I/' 14 , em agua junta ---------- 9, 7 15-, - - - "....--- 12, 2 16 , em agua junta ---------- 10, 6 17 ,---__ 14^ d Sommao as precedentes IiveJa56es onj. - - 114,7 as quaes proporcionadamente em toda a legua dao 183, 5" ou palmos 18, 4. ler- \ 17,8 ECOHOMICAS- 215 Terceira legua. i8 , em Pereira em agua junta ------ 8, 6 19. - - ' : - ^^'4 20 , em agua junta ---------- 9, 5" 21 , - - - - - I4> 5 22 , em agua junta ---------- 4, o 2^ , - - - ----- 11,5- 24,- - - i;.7 Sommao as livelajoes precedentes onj. - - 74, 2 e em toda a legua dao --------156, o ou palmos 13, 6. Quarta legua. 2^ , em agua junta ---------- 4, o 26,-- 10, o 27 , em agua junta ---------- 5, 15 28 , em agua junta ---------- 6, o 295 ---.-.--- , ^^^7 30 , no principio da mare ------ 7^ a Sommao as livela^oes precedences onf. - - 44, 2 e em toda a legua dao -------- ^^^ :^ ou palmos 9, 4. As quatro leguas juntas tem de qucda palmos 6:5,2, aos quaes accrefcendo 18 , que fao os da mare ate a bar- ra da Figueira , dao a qucda total 81,2: e eila he a elevajao da agua a ponte Ibbre o Oceano em baixamar. XII. De todas as livclacoes cm gerai apparcce, que quanto mais lao vizinhas a mare , mais vao diminuindo na grandeza com degradajao irregular , e nao continuada. A irregularidade precede dos varies impedimentos <^■\ corrcnte ; a degradajao nafcc da atcnuacao das areas. A i^uar- 11(5 M E M (i R I A s qvurta leguA da mare , que he a primeira da ponte , tern de refultado palinos 22 ; e he certo , que le efta fe po- deile reduzir a fer terceira , ou encurtando a carreira do rio , ou avizinhando a mare , tirades outros impedimen- tos , neire cafo todos os ditos 22 palmos feria6 de pro- veito para o defentulho j porque a forja que teni a cor- rente dividida em quatro leguas , ficara unida em tres. Tambem fe obferva , que as liveiajoes da agua junta Hio menorcs , do que a efpalhada , e feita a fomma das on- ze livelafoes da agua junta que eftao na lifla , fao on- jas 85", o ; as quaes dao em refultado medio palmos 10, 9 em cada legua , e nas quatro leguas fazem 43, 6. Donde le iufere , que i'e toda a agua correlTe fempre junta fern Infuas , e fern areaes , ainda que o rio fofle em Yoltas , como vai , nao requereria de queda media fenao palmos 10, 9 em cada legua , e em todas as quatro le- guiis palmos 4:5 , ifto he , quafi viiue de menos , que a preiente. Taes rcfultados demollrao ja a meu ver qual leja o ponto importantiiTimo , e digniflimo das attendees mais ferias no prefente exame j e he achar o modo de reftituir a agua do rio a fua forja natural , tiran- do-lhe as voltas , e ajuntando-a fern expansoes , fern In- fuas J nem areaes. XIII. Noto aqui de paflagem , que tendo experimen- tado na agua efpalhada maior queda fuperiicial , do que na junta , e funda , deveria tambem aquella ter maior velocidade media , e maior tambem no fundo , fegundo o fyftema com que o moderno Du-Buat , § 390 , e feg. , e Bernard , que o adopta ao § 247 , contradizem Gui- ihelmini , e pertendem , que a queda fuperficial he aquella , que independentemente da altura determina a forga de toda a agua ate o fundo ; teria "per tan- to a agua efpalhada mais facilidade para defarear , do que a junta. Mas as experiencias obfervadas immcdiata- mente no rio , e nao em pequenos canaes , quaes fao OS dos ditos Authores , parecem fer dicifivas, e contra- rias as percensoes dos mefmos. O citado Du-Buat , torn. E C N O M I C A S. 217 I. part. I. fecft. 3. cap. i. , relolve o pioblema feguia- te : Conbccida a quant idade da aqua em hum rio , e a fua velocfdade media , detcnninar a minima queda que convem ao fundo. No calo prefenre , dcixada a tormula com c]uc o Author conclue a refoiucaS , procure! obter a dita queda reduzida , como di(Te , a 10, 9 pcio refulra- do dus obfervagoes , e nao pelas condicoes do proble- ma. Deixadas outras razoes , a principal he a feguinte , porque Du-Biiat , fuppondo nos rios agua iomente , nao fe encarrega da area , a qual movendo-re , e correndo al- tera incriveimente a queda do fundo , coino I'uccede no Mondego ; e por illo a formula do problema nao me parece fer aqui appiicavel. XIV. Pailando agora a outras obferva^oes , confidero primeiro a ponre prelente. Parece que quando ella foi fabricada , \\-o pallava em comprimento o fitio charaado o O da ponte , nem era m.iis elevada nos arcos do meio , e mais baixa nos das excreinidades , conforme o coftume quafi geral de todas as pontes : mas os arcos mais al- tos erao os fete mais proximos aCidade, o primeiro dos quaes efta ainda 14 palmos fora da agua ; feguem-fe de- pois qui'.tro arcos alguma ccufa mais baixos ; e por fim vizinhos ao dito O outros quatro mais abattidos ; e he crivel , que a cal^ada da pontc tambem defcia ate campo , ou pra^a da antiga Santa Clara : pela qual cau- fa edao agora os primeiros arcos ainda elevados , e 01 ulrimos ja de todo fepultados. Houve depois com o an- dar dos annos mudangas , e accrelcentamentos na pon- tc : a fua calcada foi mais aplainnda ; e ioje da porta ate o O nao defce fenao nove palmos \ c paflado o O forao accrefcentados em comprimento outros doze arcos da banda de S. Francifco. Mas he defgra§a fatal eftes arcos , que fern duvida forao ordenados para mais prom- pta palfngem das cheias , nao fervcm hoje nem ao rio , nem ao publico , e eAao occupados abufivamcnte pelas contiguas fazendas de hum e outro lado. Nao achci quern me enfinalTe quando fofrem feiros na ponte os referidos Tom. 111. Ec ac" 2io Memorias accrefcentamentos : mas efta fobre a porta da Cidade ao principio da porta da ponte liuma ijifcripcao em letras Goticas , a qual diz aflim : „ O Serenijjlmo Frincipe al- to he mui poderofo Rei D. Einanoel 720/J^o Senhor pri- meiro de eji.e name he quatorze na dinidade real man- dou faz-er de novo efta ponte ate as ej'peras , he rediji- car ate a Cruz de S. Francifco , he da dita Cruz ate Santa Clara de novo , he acrej'centar efta tore be mu~ TO , era de mil he D be XIII annos. ,, Acha-fe perpen- dicularmente por baixo da ditu porta outra porta qua/i de todo enterrada , que vifitei entrando pelo Gontigua quintal , a qual julgo que era a jtorta da Cidade ante- riormente ao anno da inicripjao 1513; e moftra que no- referido anno nao fo foi fabricada a torre d^ porta , e o muro dos lados , e a ponte ate as ejj/sras j mas que a mefma pon-te- foi levantada 2,3 palmos , os quaes lao pouco mais ou menos quanto hwnxx porta eftxi Ibbre a. outra , luppondo-as iguaes. As elperas aonde foflern he- adivinhar ; mas erao talvez algum lugar femelliante ao que hoje chamamos O , ou na m-efina iituagao ,., ou talvez em diverfa ; pois tambem o Convento de S. Franciico nomeado na incrip^ao nao eia o prelen- te , e Santa Clara era o Convento velho , que foi ha- bitado fecuio e meio dcpois da infcripcao a^e o anno. 1677. XV. Tcm Coimbra diverfos caes para defembarque :. nelles porque o rio fe levanta , tein fido pouco menos que continuas as ob-as ; e prefentemente deiejao mui- tos , e requereni , que por todo o comprimento da Ci- dade , e ainda mais adiante fe levanre alco muro , o qual defenda das innundacoes todas as ruas baixa?. Nos; campos pa.Oada Coimbra , hia o rio algum dia pelo meio-. delles a batter nas faldas do monte da Geiria , correndo^ no alveo velho ; e dalii refledindo a cfquerda , tornava aos montes oppoftos aonde efta Arzila , fempre entre mures , e marachoes perigofifTimos , dos quaes porem o cufVo na apparencia fe dimiauia muito , par ferera todos; OS ECONO MICAS. 219 OS povos em diias leguas de diftancia obrigados ao tia- balho , huraa pefToa de cada cala. XVI. O lio cada vez mais le cntulhava , e as que- bradas cada vez erao midores : e para nao fallar de ou- tras , a mais famofa de todr.s foi lempre a piimeira a ei'querda hum quarto de legua abalxo da ponte , da qual ja allima narrei , que depois de muitos trabalhos , ficou finalmente o Mondego vencedor ; e deixou-l'e ir livre dobrando em cotovelo , ou angulo quail re(flo parj. a banda efquerda pelos cnmpos mais baixos de S. Marti- nho , e Icrras feguinies fern alveo nem natural , nem ar- tificial , nem ainda dererminado , damnificando a fortu- na , ou a delgrafa , os donos particulares dos mefmos campos , e a cuRa dos mefmos , com tal eftngo , que nao he exprimivel com palavras ; nem ha elperan^a de fe ver o fim dos damnos \ porque a agua fern alveo fe divide em muitos regatos , ora. mina na margem direita , ora na eiquerda , e tudo converte em areaes , cuja lar- gara em algumas partes palfa ja de leis mil , ou de fe- re mil palmos , e o compnmento quafi de duas leguas. Achei o piano das terras neftas partes fer nao mais que tres at^ quarro palmcs fuperior a agua clara do rio nos fins de JulJio ; dor.de iegue-fc , que tics ate quatro pal- mos que haja de mais no inverno , baftao a eievar o M'.)ndego lobre os campos. XVil. Dontro do alveo achei , que exiftem ainda hoje pertinazes todas as Infuvis , que no anno 1708 forao man- dadas deiviolir-fe : mas das do alveo velho ia fe na6 faz cafo aondc eila enxuto , porque finalmente fe dec licen- 5a para fe cukivar , c em lugar deltas nafcem outras no- vas nos lugares aonde o rio vai fern alveo. N;i6 obftan- tes porem os Decretos , e Regulamentos contra aslnujs, nao pude deix^jr de admirar a diligencia , com que em Fermofclhe , e no campo de Montc-mdr vi fortificadas aigumas deltas com tltacadas , e falgueiraes. E vi tambom huma comccada de novo , conllilente em hum pequeno areal no meio da agua cercado todo ao redor de no- Ec ii '(K-: , 2,20 M E M R I A S vos , e amiudados falgueiros. Eftaria quafi para dizer af- fmi fe . . . . porque podem os donos das Inliias forti- ficar-fe muito mais t'acilmente , que os da terra firme ^ pois nem o dente dos gados , nem a firga dos barquei- ros Ihes prejudicao as plantajoes das margens , cotno em terra firme ; e le podem as meimas Infuas fazer crefcer quanto fe defeja ; porque aonde as ha , per forp a terra firme tem goiva , ifto he , he roida. Sao ellas no Mon- dego o mcfmo que no Tejo os mochoes , crefcem a cuP ta dos campos coiifinances ^ fao impcdiniento a navega- gao -, entretem a expedicao das cheias ; nao ha mal que deJfis nao venha. XVIII. Ha nas vizinhancas do campo de Coirabra rnuitos , e grandes paues ; chamo aqui paues aquellas ter- ras , que ou pela agua nunca fao femeadas , ou que nos annos enxutos fe nao podem femear fenao em Julho , e Agofto j iemenreira tardla , e quail iinuil, Os diros paues fao os ffguintes : i. Campo bjixo do Boh^o are a Gei- ria j 2, P^ul de S. Fagundo , 3. Paul da Cioga ; 4. Cam- po baixo da Lamarofa ; 5- Baixo de Tectugal i 6. Paul paffado Monte-mor ; 7. Paul de Foja ; 8. Baixos de Maior- ea ; 9. Paul de Arzila j 10. Paul da Granja ; 11. Paul de Aifareios4 12. Baixos de ViJhi-Nova d'An^os. Con- tcilb a vcrdade , que fe o numero de tantos paues ate- nioriza , muico mais faz comraixao a vallidao dos mef- mos j pois alguns medem-le a leguas , e renderiao rnui- tos miJhares de moios.. Peliz Coimhra , felizes terras do teu campo , fe todas ejElas terras foifem cuhivadas : mas todas dependem do Alondego , lb eile der defpejo , tu- do o mais he facil , fenao nao ha remedio. XIX. O defamparo do alveo velho , alem das ]a di- tas ,. produzio outra defordem attendivel , e he a difficul- dade de deij^ejo nas ribeiras do Norte , principahnente na que vem dos Fornos. Qiiando fe concedco a cultura do alveo velho , nao lei fe fe relic(^lio bem nelle parti- cular interefianrifTimo , e relativo a todo o campo ate a barca de Monte-mor. Efta barca efta no iimite das ma-^ res , ECONO MICAS. 221 res , e da qui p.ira baixo comega a grande volta , que vai coftcar OS montes de Verride , e do Riveles , toda chcia de liiCuas , e difficuldades^ Succede , que ainda em pe- quenas cheias , nao TofFrendo a agua tardanjas tao gran- des , nem os impediiuentos das Inlbas que ll- encontrao, I'uccede , digo , que precipitando-fe pcla eftrada ma is bre- ve , corre em direitura por iima dos campos , desde o dito ponto da baica ate cnrrar de novo no alveo , no fim da planicie de Monte-mor , e em confequencia todo o elpa^o intermedio i"e aclia cfteriJizado , e inutil. Efta eftrada mais breve tern de mciios que a comprida mil e rrezentas brafas , i'tndo a volta de quatro n>il e qui- tihontcs , e a lii.ha reCla de tres mil e duzcntos. Ha an- nos para que a agua nao paflalTe pela eftrada breve , ]he t'oi levantada pelos Engenheiros aira tapada fuperior a todas as enchentcs , mas jd- della nao apparecem lenao as reliquias r o rio desfazcndo-a , caufou damnos novos , e maiores , que os anrecedentes. XX. Acaba a planicie de Monte-mor com os vaftos paues que llie eftao a direita ; e nao muito depois vai o Mondcgo a bairer no ch^mado Penedo de Lares , o qual he huma montanlia de pedra viv^a. Fica ella rambem a direita da corrente ; mas o rio depois que batte , re- flecle a elquerda roendo , e minando- naquella volta chamada do Canal ^ na qual o g}M-o tern mais que a li- nha recta novecentas bra^^as. Conhece-fe aqui claramen- te , que a margem efquerda , ou concava , efta toda em dilloiufao , e a oppofta convexa toda em depoiijao : de huma banda crefcem os rerrenos , e da outra diminuem. He efta liuma lei hydraulica , notada por Guilhelmini no Cap. V. Prop. VI. , Ccrol. VI. , e que a experiencia con- Jirma contra o parecer de Mr. Du-Buat , e della )a faliei em huma Memoria Ibbre o Tejo impreiia no 11. Tomo das Memorias Econoniicas. Poila pois a referida dillolu^ao da margem efquerda , crelcendo a volta , rem o Mondcgo no feu comprimento are o mar vi- fivel , e continue augniento na extcnfao , c a forca da fua 222 M E M R I A S fua corrente cada vez mais fe diminue pela mefma caufli. XXI. Defte reiodo , a meu ver , fica delineada a ver- dadeira pintura do canipo de Coin^ibra , expansoes de agua , areaes , voltas , Inluas , e a corrente enfraquecida. O peor he , que o Mondego enfraquecido perde a que- da nao Co nos iirios aonde enfraquece , mas em toda a planicie fuperior ; porque nos rios pianos he maior a in- fluencia dos ramos interiores fobre os fuperiores , que na6 as avelTas : per exempio , fe fe perde a for^a da corrente em Monte-mor , pcrde-fe tanibem em Coimbra ; mas perdida elia em Coimhra , nao fe perde por ifTo em Monte-mor. A razao ja aflima le apontou , quando talla- mos do enterramento que p6de haver a ponte. Em fum- ma , a principal concluiao defte Capitulo he , que eflou ferfuadido , que le nefta planicie por todn ella tivefle avido diligencia que o rio nao aiargafle , nao torcefll', nao miiialTe as praias , iiao abrifle goivas , nem a pon- te de Coimbra cftaria cnterrada , nem a Cidade alagada , nem os campos areados , nem os paues inculros com tao grave damno da lavoura , nem le teria conlummido em trabalhos inuteis. tanto fangue de pobres. CAPITULO III. Obras frovifionaes, XXII. A Ordem , que S. Mageftade foi fervida dar- JL\ me das obras provifiunaes , coniifte na dili- gencia neceiTaria para livrar do perigo os frutftos pen- dentcs , no anno prefente , e no Facilitar a navegajao. Explicar-me-hei em poucas palavras , e nada diria fena6 fofte cbiigado. Primeiramente julguei impollivel faivar OS campos de liuma innunda^ao maior \ porque todos elles por quafi duas leguas nao forao achados luperiores as aguas de Julho ordinarias fenao tres , ou quatio pal- mos i iflo polto logo que a cheia pafiar a dua altura , qual ECONO MICAS. :^23 qiial arfe fe ha de ufar para defendellos ? Mas ifto nao obibante , h.i principalmente defronte de Taveiro algu- mas alvcrcas , pela'; quaes a agua entva com maior faci- lidade , e lava depois os campos do lado do Norte. Ef- tas dei ordcm , que fe fechaffem do modo poffivel » atrevellando-ss com as ferras de area huma , on duas ve- zes , e foi feita a obra realmente no fim do vera6 , com a qunl felizmente I'e lalvaiao as fementeiras contra as chuvas do Outubro, O cfFeiro depois moftrou , que fern hum remedio gcral fao elles males incuraveis j pois vierao outras aguas em o mez. de Novenibro , e por ef- rarem os campos demafiado baixos , iibrivao logo alver- cas , ou vargens novas. Alcm difto , achci que o Prove- dor dos Marachoes do Norte , fegundo os feus poderes ordinario?, fechava no alveo velho huma grande qucbra- da , da quai aflliiia fizeaios menjao ao § 6. Louvci a obra , c deixei que fe contuiualle. XXIII. Foi-me accufado o perigo do campo de Bo- la^ ; porque na? clieias alagando-fe , com difficuldade fe enxuga. Duas obras para fua defeza achei ja antes exe- cutadas : huma conlillonte em alto muro dc muitos mil cruzados , fabricado , I'e pode fer ,. no ar ; porque funda- do fobre eftacas de piniio deicubertas fora da agua j jd do muro tinha cahido huma parte , e as outras partes pareceo-me evidente , que a primeira cheia poderiao ca- iiir , c perder-fe a pedra fepukada na area , como ti- nha fucccdido ci primeira. Ordenei por tanro , que ludo Icja desfeko , e a pedra levada para fitio , aonde poila fervir utilmente , pofia ao mcnos fobre o vizinho ma- rachao , que foi a fegunda obra feita para defeza do Bolao ; e na verdade bem regulada. XXIV. Quanto a naveg.acao ,- que he o outro ponto recommendado , achci que o motivo ,. por que no Mcn- dego ie navega nial nao he fomente o ier pouca a agua : mas dobra-fe a difficuldade , por correr ella dividida em regatinhos , que ate do alto de Coimbra fc obfervao ,. fern fe faber qual he o principal. Deixei. recommendado „ que 224 M E M O R I A S que toda a ngua fe ajuntafle com pas , e rodos ao me- nos nas viziiihancas dos caes da Cidade. Alem das fo- breditas providencias nao julguei , que por ora fofTem neccilarias outras urgewtes. C A P I T U L O IV. Exame breve do fyjlema de nao~ cultivar os Mantes da Beira para defarear cs Campos de Cuimbra. XXV. T) Arece que efte fyftenia he tao anrigo , quan- JL to fao ancigos os damnos do Mondego j pois que nas miniias inftrucf oes que me forao dadas fe affir- ma , que foi elle propofto ha mals de cento e fincoenta annos : antes parece , que foi ja , fenao executado , ao menos mandado exccutar , fendo certo haver na Can^a- ra de Coimbra polluras antigas , que prohibem a culti- va^ao dos monres , ate aonde fe extende a jurirdicca6 da Cidade. A verdade he , que o peni'amento he obvio j porque as areas fao evidentemente damnofas a ponte , aos campos , a Cidade : ellas del'cem dos raontes , e fe eJlas nao vieffem , nao haveria damnos : fcgue-(e por tanto , que conveni impedir que nao venhao mais. Efta he a conclulao , elte he o fyftema , que nao fo foi pro- pofto ha 15-0 annos , mas muitas outras vczes tem fido renovado pelo tempo paffado , e talvez o tornara a fer pelo futuro : e por iflo fe me manda , que o examine, e refponda ie fera util ou em rodo , ou ao menos em al- guma fua parte. Para clareza da reipofta referirei as ex- prels6cs com que elle huma vez foi efcrito , e fao as feguintes. Todos os montes da parte que fc^ao face ao Mondego , ou a outro qualquer rio , ou ribeira , que nel- le venhao defaguar , todos elks nao devem Jer Jemea' dos 5 nem lavrados , ncm cavados , nem mejmo , digo , para a parte dos rios fe Ibes devem abrir pedreiras , 't^c. Depots de paJ]\ido tempo das grandes_chei as aquel-^ la ECONOMICAS. 225" la terra , que tiver Jldo trazida pelas aguas , deve fer ini7nediatame7ite condu%,ida para as coroas dos ntvntes , (i^c. Haja brigadas de Ryiger.heiros , ^c, os quaes te- fihao cuidado da execu^ab , C^f. Tal he o theor das Leis , taes flio as propollas do fyftema , as quaes ainda que feparadamente humas das outras em difFerentes occa- fioes poffao fei- uteis ; com tudo a todas juntas , e em globo refpondo de prefente , que as nao pofTo abrayar , em quanto iiverem foifa as fcguintes razoes que tenho em conirario. XXVI. Primeiramcnte em conformidade das palavras , com que o fyftema fe refere , e tambem por necefTaria confequencia , e paridav^e de razao comprehende elle no comprimento , dcsde Coimbra ate a Guarda , vinte le- guas J e em largura tranfverfalmente da Serra da Eftrel- la para fima ate Vifeu , e Serra do Caramulo , outras dez leguas , e fazem duzentas leguas quadradas , nao fa- zendo calb dos muitos gyros , que fe poderiao ajuntar, como fao a volta de Arganil , da Lousa , e outras , as quaes podem todas deputar-fe para recompenfar os pou- cos pianos , que o lyfcema permitte que fe cultivem : poucos , digo , porque todos juntos , e fommados os pia- nos da Beira influentes no Mondego , duvido que che- guem a tres , ou quatro leguas quadradas , fegundo as niedidas , de que me informei com peflbas praticas. Fa- ^amos ponto nas duzentas leguas , comparemo-las com o campo de Coimbrd , ifto he , com o campo , fem en- trarem na conta os paucs dos lados , os quaes pelos Au- tliorcs do fyften;a nem fe confidtrao. O campo de Coim- bra quail em toda a parte fe atravella em meia hora , tern litios mais largos , e mais eftreitos , a fua largura media pode por iffo arbitrar-fe meia legua. O compri- mento do mefmo 'fampo , desde a quebrada ate o fim do canal , nao pafla de feis leguas : donde he todo o campo tres leguas quadradas , pouco m.ais ou mcnos. Def- tas nem tudo efta arruinado : e nao he pouco fe conce- dcmos , que efta arruinada ametade , ifto he , huma !e- lom. IIL BY gua 226 Memorias gua e mela quadradas. E quem nao ve jti a defpropor- ^ao entre huma e meia , e duzentas , on entre tres , e quatrocentas ^ , coiidemnadas eftas para allivio daquel- las ? Mas rao promovamos mais femelhantes proporjao, porque fera por defgraja aquella legiia e meia toda eu- ro , e as duzentas todas chumbn. Por defgra^a digo , pois he certo , que eftas fuftentao mais povos incompa- ravelmente , e mais gente , de que aquellas. Deixe- mos efte argumento , e vejamos fe ha outras razoes , e fundamentos , pelos quaes fe deva rejeirar o dito fyf- tema. XXVII. Pergunto : Os donos , e fenhores dos terre- nes da Beira nao fao elles iguahnence fenhores do que he feu , como o fao os do campo de Coimbra ? Quem duvfda difto ? Mas fe a film he , porque razao , ou feja humana , ou natural , hao de fer privados de fazerem 'Jo que he feu o ufo que Ihes parecer , em favor dos campos de Coimbra ? Quem Ihes recompenfara os da- mnos , que Ihes fobrevieiem pela diminuijao dos feus fruftos ? Fa^ao-fe (diz o fyftema) nas cojlas das ladti- ras focakos para feme ar b of que s, Pergunto: Quantos fo- calcos em cada monte , e em cada ladeira ; e a cufta de quem fe hao de fazer , e fe hao de femear ? A' cufta do campo de Coimbra intereffado , ou a cufta dos donos y que nao tern nilTo inrerefle ? Eu nao fou inimigo dos fo- cakos j e prouvera a Deos que fe introduziffem , e fe fa- brics (Tern am.iudados em todas as ladeiras para beneficio da Agricultura : mas focalcos para femear bofques incul- tos em toda huma vafta Provincia , que quafi nao confta fenao de Montes , e de ladeiras , muiras vczes com meia legua de precipitofa defcida j efta fim , que me parece coufa nova , e inaudita. Nao fe abrao pedreiras ( accref- centa o fyftema ) nas faces que bota'd para o Mondego, Pergunto : Botando todas as faces nas diras duzentas le- guas , ou ao Mondego , ou aos feus influentes, qual fa- ce fica para abrir pedreiras ? Serao os povos da Beira daqui por diantc cbrigados a viver em cabanas paftorizj ECONOMICAS. Hy ou nos matros , como os Tapuias do Brafil ? Se a terra caliir com a chuva , feja , e feja logo immediatamente conduzida para as coroas dos montes : e nefte p :rticukr infifte diverfas vezes. Pergunto : A' cufta de queiii ? Quern, pagara aos obreiros efte trabalho infano? Os Ten ho res do campo de Coimbra , ou quern nada Ihe importa ? Haja Brigades de Ungenhe'tros ^ haja Provedores (conclue o fyibema ) , os quaes vigiem , &c. Tair.bem aqui pergun- to : Qiiem Ihes pagara ? XXVIII. E em geral , fobre todas as propoftas jun- tas , pergunto : Feitos os focalcos , e plantados os bof- ques , impedir-i'e-liao inteiramenre todas as areas , para que nenhuma venha ; ou fomente aJguma parte ? Todas cercamente nao ^ ppis vifitando eu algumas partes da Bei- ra , achei por exempio , que nas vizinhanjas de S. Se- baftiao da Feira corre o Alva influente doMondego, era barrocas profundillimas entre montes todos de area tao facil de cahir no rio , que baftao os pes de hum pafla- rinho para desfazella nas ladeiias. No Mondego do mef- mo modo achei tudo area desde as fuas nafcentes , que vifitei na Serra da EftreJia. Comp6em-fe aquelles mon- tes circumvizinhos de huma terra , ou pedra femelhante ao granito , mas grofleira , e tao pouco tenaz , que p6- de comparar-fe a huma compofijao de farellos. Nunca por tanto fera poHivel impedh- , que das areas da Beira nad venha ao rio ao menos huma boa porjao. EiTa porf ao que defcera , baftara ella para confervar o Mon- dego no cflado prefente de ruina ? Sera certa a utilida- de , que fe pertende da cxecujao do lyftema , ou duvi- dofa ? Em fumma , todas eftas razoes , e outras leme- Ihantes i'e poderiao promover muito , as quaes concluem, que tal fyftema nao he feguro , nem fundado fobre prin- cipios certos , nem he compativel com a idea da boa agricultura da Beira , e fomente pode fervir para hum difcurfo verofimil , do mefmo modo , que tambem eu poderia dizer , que todas as areas do Mondego I'e con- duziflem em barcas pelo rio abaixo ao mar alto : nem Ff ii o pen- '228 Memorias o penfamento feria novo ; pois todo o mundo fabe , que o entulho dos portos do Mcditerraneo com admiraveis maquinas fe apanha , e em barcas fe leva ao alto mar. XXIX. Por ultima razaa exporei huma hydraulica , e demonilrativa. Pergunto : Que coufa he a fupeificie da- quella Beira , que bota agua no Mondego \ ou daquel- las duzentas leguas quadradas , que influem ncfte rio ? So qucm o nao ve , o nao ere i e eu para as ver , via- gei de piopofiro alguns dias pela Beira : fao todas de mon- ies altos , e barrocas profundiffimas , valles , e outeiros , em OS quaes ou corre o Mondego , ou o Alva , ou o Ceira , ou o Dam , ou algum dos influentes : nao ha valle , nao ha barroca iem algum rio , ou nbeira inBuen- te. Ora todos elles outeiros , eftes valles , eftes montes , cftas barrocas , quern ns fez \ qucm as abrio ; ou ao me- nos quem as affundou ? Balla examinar algumas ddlas com atten^ao , para perceber logo que forao as chuvas ,. as enxurradas , as aguas correnies ; pois apparecem nos outeiros vizinlios ao Alva > ao Ceira , e aos outros in- fluentes em grande alcura fmaes claros , que cu mefmo vi , e obfervei , e pofTo mollrar , que foi aquelle algum- dia o piano da corrente. As immenfas barrocas da Ser- ra da Eftrella , fao bairocas , e fao profundas , porque 9s enxurradas tirarao dellas a terra que as enchia , de mo- do , que tanto pelo abaixado dos monres , como pela affundado das barrocas ,. falta fern diivida ja na dita Ser- ra ametade do que eiia foi na fua formacao. Efta Ser- ra , ou a fua parte principal confidcrada em fi io , he hum monte , que tern por bafe , pouco mais ou menos , hum quadro de 4 leguas por lado , e fao 16 leguas qua- dradas ; cada legua quadrr.da fao palmos 6<)^ 360 oco. A fua altura apparece em diftancia de 4 leguas da Por- tella de S. Vicente debalxo do angulo de 7 graos , os quaes dao de elevajao , pouco mais ou menos , dous quin- tos de legua fobie os pianos do Zezcre , ifto he , pal- mos 10540. Eftes multiplicados por 16 leguas dao no 519 910 400 000 J cuja terja parte , fuppondo a ferra ECONOMICAS. 229 pyramidal, vem a fer 36 839 770 133 333. As barrocas da ferra fao ao menos , como diiremos , ametade do di- to niimero , ifto he, 18 419 885" 066 666 , e defies mui- to mais de ametade vem a deiaguar nos rios Mondego , e Alva; contando porem lomente ametade , e deixando por liberalidade a outra ametade fo para o Zczere , conclue- fe , que fomente da Serra da Eftrella tem vindo ao Mon- dego palmos CLibicos 9 209 942 5-33 333. Eftcs poftos em monte Ibbre a bafe do campo de Coimbra de tres leguas quadradas , teriao por akura o mimero i385'o, muito maior que o da Serra da Ellrella , que he como efta dito io>40. XXX. Se alguem julgar o calculo pouco judo, pelo motivo de que a fcrra nao he pyramide perteita , mas truncada , nada diilo obfta ao iiueiito ; porque ferve a reflexao a augmentar os numeros mais que a dobrado j e nao a diaiinuillos. Obfervei .por todos os lados a di- ta ferra do Sul , do Norte , do Nafcente , e do Poente , e pareceo-me ter por todas as partes a referida bafe de 4 leguas , e por todas as partes acaba em muitos cumes de igual ahura , excepto hum algum tanto mais elevado chauiado Cantarus. Nos ditos cumes, pclo que pude obfer- var , e infoniiar-me , corre entre os ultimos , e os pri- meiros a diftancia de tres leguas ; e efte he o diametro , ou lado no fimo truncado da ferra. O que pofto , hum dos modos como fe pode medir a ferra truncada na fua iormajao , lie o feguinte. No meio hum prifma retfbo , o qual tem de bale 9 leguas quadradas , e formao o mi- mero 5" 098 240 000 , o qual multiplicado pela altura 105" 40 da o nuinero 62 167 449 600 coo. Accrcfccnte- mos em cada lado hum prifma triangular deitado , com- prido 3 leguas , largo meia Icgua , e alto palmos 105' 40, cada hum dos quaes prifmas faz 3 45'3 747 200 coo, e todos OS prifmas juntos o niimero 13 814 988 800 coo. Defprezemos liberalmente 4 pyramides aos 4 cantos da mefma altura , com hum quarto dc legua por bafe cada huma : fommemos os dous numeros achados , e fazem 7% 130 Memorias 75 982 438 400 000, que he hum calculo mals que do- biado do pyramidal. XXXI. Argumento agora : Se fomente as barrocas da Serra da Eftrella poftas Ibbre o campo de Coimbra fa- riao huma elevagao tao defpropolitada ; que fe devera dizer do mais que falta nos valles , e nas barrocas dc todas as duzentas leguas quadradas influentcs no Moa- dego ? He efte hum penfamento hydraulico muito fcrio. Sun , abaixao-fe continuamente os outeiros , desfaz-fe , e defce a terra dos montes , affundao-fe as barrocas , e de todas as partes tern vindo ao Mondego pelos feus in- fluentcs em todos os feculos terra fern medida , e area tao numerofa , que faria no campo , fe la eiliveffe , fer- ras mals altas que a da Eftrella : e nifto alTente-fe , co- mo coufa indubitavel , e innegavel. Applicando agora o difcurfo a queftao , pode perguntar-fe : Tanta terra , e tanta ar^a , que caminho levou ? aonde paiou ? Ella paf- fou certamenie pelo Mondego abaixo : e agora aonde ef- ta ? Nao ha , nem pode haver outra refpcfta fenao di- zar , que efta no fundo do Oceano : o Mondego a le- vou J e o mar a tem : na6 parou em Coimbra , nem no feu campo- De tudo pois , fe nao erro , bem clara fi- ca a minha conclufao , que a difficuldade de que fe tra- ta nao deve ter em refpcfta o impedir a vinda de no- va area , nao cultivando os montes , e os outeiros da Beira j porque a area fempre veio , e fempre vira , e fempre paffou nos feculos antigos , agora fomente he quando na6 palTa : mas deve examinar-fe que nova cau- fa a detem , e impede para que nao pafte , e va ao mar , como foi fempre. Se efta caufa fe defcubrir , ffera fa(fli- vel o remedio , fe nao , tenha-fe o cafo por defefperado. CA- ECONO MICAS. 251 CAPITULO V. Piano para henefictar Coinibra , e feu Campo contra OS damnos caujados pelo Mondego. XXXII. Q E eu nao tenho errado nos Capitulos ante- O cedentes , declarando que os males do Mon- dego nao fao naturaes ao rio , mas fim accidentaes , por tcr elle enfraquecida a fua corrente , fegue-fe de tudo o expofto , que tirando-lhe as caufas que diminuem a for- ja da agua , tornara ella a ganhar impeto , e cavara o tundo do alveo , rellituindo-o ao eftado primitivo. Ajun- tem-fe as aguas efpalhadas , tirem-fe as torturas , def- truao-fe as Infuas , e nutica mais fe permirtao , princi- palmente aquelJas que dividem o alveo ; e o efFeito mof- trar.i a verdade da minha propofifao. E com efta con- clufao tenho acabado o meu eiludo. O que me refta pa- ra tratar , lie pura pratica dependence dos obreiros exe- cutores j e ifto nao cbflante , direi alguma coufa , mais para facilitar , do que por cutro qualquer motive. E por boa fortuna nao delcubro na execujao da obra difficul- dades invenciveis , nem me parece que as defpezas fe- rao fuperiores as forjas do campo , fazcndo-fe as coufas na forma que voa a proper. XXXIII. Primeiramente , comejando da ponte ate a Quebrada grande , em todo efte elpago de hum quarto de legua nao tenlio que dizer , fenao que no tempo de verao i'e tenha quanto for pofTivel a agua junta para commodo dos naveganres , e os ienhores das fazendas lateraes cada hum as defenda das enchentes , como me- Ihor poder , com falgueuos na praia baftos , e entre H cnlajados. Na mefma Quebrada faz o rio grande cote- velo. He neceflaria hurra volta mais fuave ; eJta voita pode ler ou reftituindo-fe a agua ao alveo velho , ou dcsfazendo-fe o canto a eiqucrda da mefma Quebrada^ julgo nao fer poflivei o piimeiro modo da reftituicao ao 1^1 M E M R I A S ao alveo vellio , por eftar eHe todo areado ate o piano dos campos , por ciijo motivo , quando o Mondego cor- ria por elle , eftava jci todo levantado entre marachoes , e muros cuftofillimos , principalmente nos pianos da Geiria , e Lavarrabos , &c. Refta por tanto praticavel fomente o fegundo modo de desfazer o campo a efqucrda ; mas diflo , ainda que neceflario , pode fufpender-fe a execu- fao para depois de oucras obras , pois me narrao , que neiles fitios efta enterrada tanta pedra , e tanta cal , que baftaria para fabricar huma Cidade ; e requerera a ieu tempo exame particular , de qual feja a fitua^ao mais facil para desfazer a obra enterrada , e tambem como fe ha de fortificar o outro iado concave, para que nao feja minado pelo batter do rio , como feia , fe o deixarem ao defamparo. XXXIV. Fixado o alveo do rio pela Quebrada , de- ve o dito alveo primeiro que cudo determinar-fe com ba- lifas em linlia recfba ate o ponto antes de Pereira na fal- da do monte , com a largura de 45" , ou 50 varas de medir panno , a qual largura , como moftra a expe- riencia em difFerentes partes , bafta para as aguas ordina- rias quando vao correndo da Quebrada para baixo ; pois nao he pollivel conter neftes pianos as enchentes dentro de certos limites , antes nao faz conta o detellos ; por- que as enchentes fertilizao os campos. Dille moftra a ex- periencia , porque em diverfas partes achei alveo aberto pelo mefmo rio , donde tomei regra , parecendo-me que por obfervagao immediate poderia ohter refultado muito mais exa^fto , do que fe obteria refolvendo o problema de Du-Buat , Part. I. Sec. III. Cap. I. : Conhccidas a quan- t'tdade da agtia , a veloctdade media , e a que da de hum rio , determinar as medidas do feu alveo. A razao he, porque os tres fuppollos fao todos no Mondego fujei- tos a erro grande. O primeiro da agua he infinitamcn- te vario , participando efte rio muito da qualidade dos Torrentes. No fegundo da veloctdade media ainda nao convem os Authores como poifa medir-fe. O terceiro da que- I ECONOMICAS. 2^:} queda moftrou a livellagao referida do Cap. II. , que de- pcnde da atcniia^ao das ar^as inccrra por mil principios\ Ora com fupportos delta qualidade , qual conclufao fe obtera ? Pallemos adiante. XXXV. Ha quern defejc , que a linlia retfia do en- canamento feja nao fo ate o ponto diviTado em Pereira , mas ate Monte-m6r , ou ate o Pencdo de Lares. Tam- bem eu o defejaria , ie conhecelfe que a execufao dcvia ao depois recumpenlar o trabalho , e o cufto : mas por huma parte confidero as pequenas torturas por pouco damnoias ; por outra a perfeita linha rcdla em tantas le- guas feria cuftofiflima : contentemo-nos por tanto de li- nJias redlas parciaes , quaes eu exporci pouco a pouco. Efla linha reCla primeira nao ferve para diminuir o com- primento do rio , porem lomente para determinar o lu- gar do alveo ; pois neftas partes corre o Mondego fem alveo , com.o ja dilTemos , ora a direita , ora a ei'querda por areaes de enorme largura. O mefmo rio he o que dcve cavar , e affundar o leu alveo : e para obter o in- tento , confidero , que o methodo mais facil fera firmar em ambas as margens eftacas nao niuito baftas , e pren- der a eftas pequenos pinheiros , com todas as ramas , del- tados no chao , e efperar que a natureza obre , a qual obrara dc certo , depois que fe tirarem ao rio outros fucccffivos impedimeiitos. Entretanto em todos os areaes dos lados devem atravelfar-fe feves baixas de hum , ou dous palmos , e plantar-fe , e femear-fe toda a forte de arvores , e de arbuftcs , o mais ballo que podcr fer , ta* margueiras, lalgueiros , fibugueiros , marmeleiros , filvas, gicftas , e qualquer outra efpecie que fe achar , pois tu- do he Optimo para o intento \ e fem dizello outra vez , feja efla regra gcral para todos os areaes. Efte artificio dito hydraulicamente , confide em que a agua nas en- chentes nao corra impetuofa , mas va como morta , e depofite o natciro que leva. O dito ponto antes de Pe- reira correfponde ao centro de huma grandc volta , que cm outro tempo dava o rio , e ainda nao efta de todo Tom. Ill, Gg en- :234 M E M O R I A s enxuro. Fa^a-fe defla volta o melino que diffemos dos areaes , para que com o tempo le entulhe ; e tambem fe llie podem fabricar atiavefladas no fundo , no meio , e aonde parecer , baixas feves de dous , ou de ties palmos , para entreter a area. XXXVI. Do mefmo dito ponto ate o fitio da barca de Monte-mor he huma legua , cujos vicios lao aigumas Infuas na corrente , hum cotovelo defronte da Granja , e alguns areaes , aonde o rio fe efpalha , e divide. A's In- fuas , quero dizer verdadeiras Infuas , ou ilhas , nao fe tenha o minimo refpeito ; mas aonde quer que elJas fe oppuzerem a linha recfta , fejao demolidas fern remilfao. Nos areaes deve executar-fe pouco mais ou menos , co- me fica dito aflima. O cotovelo da Granja poderia ti- rar-fe , mas ful'penda-fc por ora efte trabalho , porque o prejuizo que elie caufa nao me parece notavel j e para o evitar , feria necelfario cortar boa meia legua de cam- pos optimos. XXXVII. Comeja depois a embrulhada voica do cam- po de Monte-mor ate aonde entra a valla de Foja. O Mondego em volta faz , como jd fe notou , 45*00 bra- jas > e teria por dircitura 3200 , iito he , faz de mais 1300 5 que correfpondem a mais de meia legua , pois meia legua contem 1280. Nem baila que a volta do rio caufe tantos damnos pelo feu comprimento. Os cotove- los , e ilhas bem fortificadas por ieus donos com efta- cadas , e falgueiraes fao oiitro abufo infolFrivei : mas go- ze em paz qucm tal obrou as luas iihas , que aqui cha- mao Caraalhoes : he mais util a todo o canipo fuperior , aos paues , a Cidade , c a poiue , que nella parte feja dada as aguas linha recfta. Por fortuna nas enchentes ja dlas por ii mefmas comecao a determinar-i'e , e ja fica dito no § 19 , que inutilmente os Engenheiros fe esfor- carao a impediilos com alto marachao que o rio des- Fez ; ja os campos em toda a extenlao da linha re(5la apparecfm lavados , e efterilizados : pclo que a abertura deila linha reda pouco ou nada vem a ier prejudicial aos ECONOMICAS. 23f aos donos dos mefmos campo?. Com tudo , fcri bem caidar na indemnidade dos melhios , para nao renovar o exempio da Ouebrada grande. O modo de abrir o al- veo depois de poilas as balifas , pode fer , cavando duas vallas aos dous lados das margeiis , lavrando depois , movendo , e deftruindo todas as raizes das hervas na ter- ra intermedia , para que o mefmo rio a leve ao mar, o que certamente luccedera nas primeiras cheias pela for- ca que a agua ganhara na linha recta em tempo de bai- xamar. Pode ler tambcm por meio de huma f6 valla , a qual tendo as condifoes do declivio , e da brevidade que requer Guilhelmini no Cap. 24 da Natureza dos Rios , ou por fi melma , ou ajudada com arte fe alar- gara depois , e afFuiidara ate receber o rio todo. XXXVIII. Pafl'emos em iilencio o efpa^o que fe fe- gue ate o Penedo de Lares , pois nao ha deftc efpajo queixa , I'enao a geral dos Camalhoes , que fe devem demolir, aonde quer que impedirem o fio da agua. Achei nefte el'pafo fer demaliada a laigura do rio , pois tern palmos 1200 : deve fazer-le o po/Tivel para diminuiila. O Penedo de Lares , confiderado em fi mefmo , confifte em huma montanha de pedra viva , que fe oppoe a cor- rente do rio. Parece a primeira vifta indifpeniavel o def- fazello ; mas efta empreza feria demafiadamente grande, pois com o Penedo conviria demolir a montanha da ter- ra J que a ella fe encofta da banda oppofta j e talvez que fe nao poderia palTar fern arr.^zar tanibem a povoa^ao de Lares. Por outra parte confidero , que o Penedo he tad relho , como o rio ; e ja aqui eftava no tempo em que a Rainha Santa fundou a fua Santa Clara : quero dizer j que com todo o Penedo eftava algum dia o rio fundo, e fem damnos. Na verdade conjecfturo , que antes de chegar ao dito Penedo poderia fer diverfa antigamente a direccao da agua ; mas quaesquer que foflem as cir* cunftancias , o cafo he , que o Penedo nao fe pode tocar. XXXIX. Os damnos dcfte Penedo confiilem , em que Gg ii por 2^6 Memorias por caufa delle vai o rio depois roendo na volra do ca- nal , como diflemos ailima. El^a volta fc pode tirar , abrindo alveo novo em linJia recla , na qu;.d ie ganhao de abreviatura 900 bracas , na direcjao da ponta do Pe- nedo em direito da Figueira , e obrando do melmo mo- do , como fe diHe do campo de Mome-mor j mas em tnaior largura , por eilarmos ja vizinhos ao mar. XL. Para determinar o rio a entrar nas novas val- las , tanto nelle fido , como no priiicipiq do campo de Monte-mor , fera lem diivida neceiraria ellacada a travez do alveo prelente : efta fe faca com eftacas ccmpridas , quanto fejulgar conveniente , mas pregadas , ou battidas com macfico : pelo que julgo fer indifpeniavel hum ma- caco para fazer obra firme , e pregar as eftacas quinze , ou vinte palmos , e efte deve fer o primeiro penfamen- to da execujao. Fiquem pois as eftacas com o iimo a flor da agua clara , e nao mais altas , moftrando a ex- periencia , que ludo o que refta fora da agua em breve tempo fe desfaz , e apodrece : fallo porem das eftacas 210s referidos dous fitios , deixando a pericia dos execu- tores , o que ferd neceilario em outras occafi6es. XLI. Todo o prelente fyftcma fe refolve em fazer diligencia , para que as areas que agora entulhao o Mon- dego fejao levadas ao mar : mas ifto nao he poflivel , •dira alguem , porque efte rio do Pcnedo de Lares para baixo nao leva , ntm depofita areas , mas puro lodo , fi- carao por tanto as areas , fe la chegarem , entulhando a parte do alveo inferior ao dito Penedo , e talvez tam- bem o porto da Figueira. Reipondo : A parte do alveo de Lares para baixo tem duas fortes de enchentes , hu- ma quotidJana das mares , outra mais raia do Mondego. As mares nao Icvao area , mas fomente depofitao , e mo- vem o lodo ; e por ilfo quern oblerva a depolifao ordi- naria , e quotidiana , nao acha Iena6 lodo : e he efta coufa commua a todos os rios que defembocao no Ocea- no : mas vem no invcrno o tempo das verdadeiras cheas, € cnmo nas horas de baixamar he tal a forja da cor- reu« ECONOMICAS. 2^7 rente , que nao ha obllaculos que Ihe poflao refilUr. Ef- tes fao OS momentos , que conlcrvao livres do entulho todos OS portos aonde ha rios , e mares , e no Monde- go ha para iflTo rodas as circunftancias favoraveis. Em confirmacao narrarei huma obferva^ao que fiz , alguma legua abaixo de Lares , navegando eu pelo Mondego : era o vento rijo ■■, e as oiidas batcendo nas praias , def- faziao o lodo : e vendo cu que nos fitios do lodo def- feito apparccia coufn branca , mandei chcgar a barca , com efte mei'mo penfamcnto de certiticar-me , fe o que apparecia era verdadeira area , como eu i'ulpeitava ; e achei , que afTim era , e fiz recolher dclla alguns punha- dos , e obl'ervei , que era groITa , como a que tiaz o rio no fitio da barca de Montc-mor. N:!6 fe tcma por tan- to J que Jiaja de ier areado , e enrulhado por efta cau- fa , nem o aiveo do Mondego , nem o porto da Fi- gueira. XLII. Endireitado o alveo do rio , fera neceflaria at- tenjao na fua confervajao , para que nunca mais torne a arruinar-fe. A tal fini conliuero que fe podem fixar de quando em quando balif^s de pedra , as quaes , ou per fl mefmas , cu por infcrj^ao , tienotcm o lugar das mar- gens , a qual coufa tanro he mais necelTaria , quanto he facil que pofla tornar o inioffrivel abufb de cukivar as Infuas. Ha Jioje no Mondego o invejavel emprego de Provedor dos Maraclioes ; fe o no abaixar , como efpe- ro , fera fuperfluo efte emprego , e em feu lugar fera conveniente erigir oucro para confervar as margens , cu- ja lefidencia me parece mais propria em Monte-mor , e nao em Tentugal , por ficar a Villa de Monte-mor no mcio do campo entre o mar , e Coimbra , e balla iiuma fo pelfoa para ambas as margens. O feu emprego lera auihorizado fobre o plantar arvores nas margens do rio , que devem fer cheios de tamargueiras , falgueiros , fa- buguciros , marmeleiros , e outras boas ao intento , c de- vera tcr fempre apparelhado algum macaco para firmar fuiidas eltacas quando o, no minar as ribanceiras j por- que , 338 Me morias que , como ji difle , he impoffivel firmar boas eftacas com fimples mallio ; e em taes lugares nao deve efque- cer o ulo dos pinheiros deitados com toda a rama. Te- ra tambem cuidado de que fejao desfeitas todas a? In- fuas novas , nao demoliHdo-as d mao , o que he impof- fivel , e logo tornao j mas dirigindo o fio da agua obri- gado com eftacada , para que vi batter nellas , e as con- I'umma , o que he facil ; e efta coufa ieja bem notada , porque por falta do dito methodo no deftruillas , adverti ao § 5" , que OS fenhores das Infuas as podem gozar cada vez mais augmentadas fern fua culpa. Accrefcento tam- bem, que fe nas mefmas houverem arvores , fe devera eilas primeiro exterminar. C A P I T U L O VI. Conjiderao-fe outros diverfos pontos. XLIII. T T A nos contornos do Mondego muitos , e X JL vaftos paues , como ja notamos. Todos el- les , beneficiado o rio , efpero receberao tambem vifivcl beneficio. O paul de Foja , e o de Maiorca , dependem do que fuccedera para baixo de Lares ; os outros depen- dem todos de diverfos pontos do Mondego j e fendo todos elles intereflados , parece que todos deveriao con- correr para os gaftos. Sera talvez melhor marcar nos di- tos paues as terras que fe nao cultivao prcfentemente , jaara fe multarem depois conforme a utilidade recebida. Em cada paul pois ha particular , e propria determina- jao das fuas vallas , das quaes em geral nao fei propor fenao tres regras faceis de entender. Primeira , que fe guarde quanto he poflivel a linha red:a : fegunda , que liunca fe permitta que a agua va , como dizem , rindo , e ondeando entre as hervas , ou fobre o fundo \ mas em femelhantcs lugares , ou fe tirem as hervas , ou fe cave mais o fundo : terceira , que fe fa§a implacavel guerra a to- ECONOMICAS. 239 a toda a forte de hervas que nafcem na agua , e efla ter- ceira he a ma is difticultola. XLIV. Suppofta a nova difpofigao do rio , devein confiderar-le as aguas que nelle entrao em differentes par- tes , para que nao Jiaja delbrdem , ou alagaineiitos par- ciaes \ e rcflc(flindo nefte ponto , acho digna de men^ao particular a chamada Ribeira dos fornos , que vein des- de a Serra de Bullaco , e cntrava no alveo veiho na ter- ra da Geiria , mas agora fendo o dito alveo totalmente enxuto , e areado , nao ha outro remcdio , ou delafogo fenao detcnninar-lhe novo alveo nos campos da Univer- fidade , entro a Geiria , e Lavarrobos , e ajuntalla a ri- beira que vem de Anja : devendo porem atravelfar a ef- trada entre as ditas terras , ou fe Ihe fabrique ponte , ou fe mude a eltrada a volta dos outeiros. Todas as ou- tras aguas, quantas ha nas vizinhanjas do campo , nao requerem particular mcn^no relativamente ao Mondego , ainda que aigumas corrao tortas com pefllma direcgao das vallas : eltes males particulares fao alheios do pre- fente afliunpto ; fe bem fe deve retiedir , que nao de- veriao correr dcfordenadas , pois a tal fim ha no campo hum emprcgo chamado Juiz das Vallas com feu Eleri- vao , aos quaes fe pagao muiros moios de milho , nao obltante que todas as vallas fao abertas a culla dos ter- renos adjacentes ^ mas torno a dizer , que femelhantes ordens , ou defordens nao me pertencem , ainda que fe- jao notaveib. XLV. Sao accufadas para fima da ponte a Infua dos Padres Bentos , e di banda oppolla outra Infua do Co- nego Jofe Caetano Barata , como prejudiciaes ao eftado da ponte , e dos caes da Cidade. Quanto a In(ua dos Padres Bentos , em huma occafiao , que tive de oblervar huma meia cheia no dia ^50 de Outubro , conheci clara- mente , que a dita Infua determina o impeto da corrcn- te para o O da ponte , e o defvia dos arcos mais altos da banda da Cidade com prejuizo da navegajao ; por- que OS arcos daquelle lado nao fao em tempo algum ca- pa- 24^^^ M E M O R I A S pazes da dar paflagem aos barcos , eftando quafi de to- do fepultados na area , e tambem com perigo da mefma ponte nas grandes enclientes. Na outra Infua do Cone- go Barata nao notei outro mal , fenao o abufo alTima jndicado ao § 14 , de impedir ella quail totaltiiente a paflagem da cheia pelos dez arcos que ella occupa da banda de iima , e outras Infuas femeJhantes os occupao da banda debaixo. Nao nego ier conveniente ao bem pu- blico , que eltes , e outros rerrenos fejao antes terras fru- (ftiferas , do que eftereis areas j mas o paiTo dos arcos do rio he fern diivida publico , e nao parece bem im- pedillo com muros , arvores , feves , entulho , e tudo o mais que exifte nos ditos lugares. Concluo , fe no Mon- dego le fizer obra tal , que obrigue o alveo a abaixar- ie , e defentulhar-fe , nefte cafo moftrara a experiencia ate qual ponto poflao foffrer-fe eftas Infuas confinantes com a ponte , e a outra primeira , que difl'emos dos Pa- dres Bentos : mas fe o eftado do Mondego ficar qual he de prefente , tanto humas , como outras Infuas , ne- ceilitarao infallivelmente de refdrma. O mefmo fe enten- de de algumas Infuas atrevidas , fabricadas nas ameias, pouco abaixo da ponte , as quaes entrando pelo alveo do rio dobrao , e detem a corrente. Se taes coufas em toda a parte fad damnofas , muito mais o iao no cora- ^ad da Cidade , nem fe devem permittir. XLVI. Ha reprefentajoes, que para defeza das Ameias, e de toda a Cidade baixa , requerem hum caes , ou hum muro continuado , desde a ponte ate o campo do Bo- lao , ou ate onde fe julgar neceflario , com o qual fe conrenhao as clieias dentro do alveo fem alagar asruas, c as cafas. Refpondo : Quando nao houver outro rerae- dio , entao fera tempo de examinar as circunftancias , e pollibilidades do dito muro. Mas tratando-fe agora de rcmedio geral a todas as ruins qualidades do Mondego, parece "que primelro que tudo fe deve experimentar o efFeito da iua execucao , dilatando as coufas particulares para outro tempo. Per- ECONO MICAS. 241 XLVII. Pergunta-fe , quantos ferao os gaftos na cxe- cujao do piano projetflado ? Refpondo : As partes do piano que eu proponho , exccutadas na forma , que ago- ra direi , certamente nao podem cuftar Ibinma excefllva , quando nao haja enganos , nem defniazeJos. Devem con- temporaneamcntc fazcr-le tres obras j liuma valla no cam- po de Lares , depois do Pencdo , para tirar a volta do canal , larga 20 palmos , e funda 5 , ou 6 , quanto le vera que baila para correr por ella a agua , e comprida quanto todo o campo 12000 palmos a tenor do que fe dilTe no fim do § 37. Outra valla no campo de Monte- mor , femelhante a primeira pelo comprimento de 3:^00 bra^as , ou 33000 palmos. Eilas vallas na6 podem cuilar mais de 1000 reis , conforme me affirmao peflbas prati- cas , e importao em tudo ii25'o cruzados ; mas por cau- fa dos ajuntos , e das circunftancias nao previftas fuppo- nhamos que cuftem 25* mil cruzados. Acabadas as vallas deve dar-ie-lhes a agua , e das margens devem as mefmas vallas ir-fe aiargando botancio para dentro da corrente to- da a terra ate aquelle fundo onde fe acharem raizes de hervas , e ate a largura que i'e julgar conveniente , ef- perando depois que o rio mefmo alargue ate as balifas , o que iuccedera em hum , ou dous invernos , conforme for a quantidade das chuvas ; e com eftacas , quando for n.eceflario , fe deve impedir , que nao i'ejao pafladas as larguras das balifas : e cuftara cfta manobra, tanto como as vallas mefmas , 25" mil cruzados , e podemos accref- centar-lhe pelas difficuldades nao previilas outros 25: mil cruzados. XLVIII. Contemporaneamente paffada a Quebrada , deve cuidar-fe com eflacas., &c. como aflima foi notado, em que a agua corra junta ; e ella manobra , da qual po- rem nao fe pode lixar o juito preco , diHicultolamente palfara de 100 mil cruzados ; porque nao deve fer fenao ajudar a natureza , encanando o rio fem violencia , para que todo junto affbnde o alveo por fi mefmo , pois o affun- dallo a mao ferla cuito enorme. Completadas as fobredi- Tom. Ill, nil tas ^42 Memorias tas tres obras grandes , ferao neceflarias outras multas me- nores em diverlas partes , as quaes na prefente brevida- de fe uao podem defcrever ; e confiilem em eflacadas pa- ra apertar nas grandes larguras , e para endireitar nas voltas pequenas ; e tudo a feu tempo podera notar-fe , quando o prefente piano feja julgado digno da execugao. Por era podemos arbitrar para todas eftas coufas peque- nas loo mil cruzados , os quaes com os fobreditos das obras grandes , fazem a fomma de 275" mil cruzados. O que aqui fe deve defejar he bons executores, e fieis , os quaes fao raros. XLIX. Com as coufas ditas tenho completado o pia- no que fe me ordena , para fer prefente a S. Magelta- de , confiitente na6 em muros , ou tapadas de prego ex- ceillvo , mas em vallas que o Mondego , fendo obrigado a correr junto, tern certamente foifa para abrir com pou- co trabalho manual. Succedera no Mondego , fegundojul- go , o mefmo que fuccedeo no Tejo-novo nas vizinhan- cas de Villa-Nova da Rainha. Todo o mundo fabe , que o Tejo-novo foi no principio huma valla de pouco fundo , e na largura capaz de dous barcos fomente ; mas hoje lie fundo 50 palmos , e largo mais de tres mil palraos. Affim foi aberto o Tejo-novo fem empenho de obras ma- nuaes : affim fe abrira , e endireitara o Mondego aju- dado com alguma obra manual. Sejfao de 1^ de Dezemhro de 1790. ME-^ ECONOMICAS. 24; s-t a g iituu H iaitHiflBMauM M E M O R I A Sobre OS Juros relativametite a Cultura das Terras^ PoR Thomaz Antonio de Villa-Nova Portugal. ESte titulo moftra que eu nao me encarrego de for- mar iyftema , nem de tratar efta materia debaixo dos principios particulares , por que eila fe trata em varias I'ciencias. So os confidero fegundo a relafao que tern com a cultura j ifto he , em quanto a fua intro- ducjao , ou a fua taxa a favorece , ou a opprime. He hum principio geralmente adoptado que o Ef- tado que precifa ter differentes claffes de Cidadaos , pre- cifa ter fundos de diiferenres efpecies , que fejao baftan- res a fua fubfiftencia. Fundos naturaes , que fazem prin- cipalmente a fubfiftencia da Clafle Agricula : e fundos iirticios para as outras clafles. Que p6de erigir em fun- dos fiiflicios o dinheiro , porque elle reprefenta o valor dos fundos naturaes ; e affignar-lhe huma producjao de juros , affim como os fundos naturaes tern huma produc- ^ao de fruftos , pois fern iflb feria fomente valor , e nao fundos. Que pode erigir outra efpecie de fundos fi- , e Provil'ao 26. Tem quatro livros , como o do Tombo , do inventario , &c. O Provedor da Commarca toma conta todos os annos. O Morgado de Mendil dos Borges eili obrigado a dar cada anno para eile Holpital Iiuma cuberta de bu- rel nova de feis varas , e hum jantar aos pobres. Na mef- ma Capcila do Efpirito Santo a parte efquerda fe po- Zsi- i5'<5 Memorias zerao gravadjs em liuma cantaria as obrlgafoes do mel- mo Holpital , i'endo Provedor da Comarca o Doutor Luiz Rodrigues Saraiva em 1726. C A P I T U L O IV, Das Fontes. HE a Torre de Moncorvo muito abundante de aguas , e boas J o que coiicorre muito para o fazer hum paiz fertil , ameno , (adio , regado por rodas as partes .. e mefmo por meio das ruas correm regatos de agua , que dimannao das fontes , do que I'e fervem os habitan- tes para regarem feus pomares , e quintaes , deftribuin- do-a em proporcao competente. Contem em li a Villa fete fontes piiblicas , com muito bom preparo , cujos no- mes fao : Chafariz da Pra^a , Aveleiras , Fojtte de Sant- iago , Fonte do Carvalho , das Hortas , do Confelho , de Santo Antonio. Ha tambem huma Mai de agua naquel- ia Villa , para onde i'e recolhe a agua , a qual vem. do alto da Serra em dilbncia de quarto e meio de legua por hum bom canal de cantaria. Na pia interior aonde le ajunta a agua fe faz a divifao della em iinco partes \ quatro partes para as fontes de Santo Antonio , e cha- fariz da Pra^a , e a outra para a cerca dos Religiofos. Alem diflo , contem aquelles pomares em roda , e dentro da Villa J huma grande quantidade de excellentes fontes , e pojos , das quaes algumas fao ferreas , de que tem fei- to ufo para a Medicina , e por ilfo ha bons pomares , e de boa agricultura. Nao tem vizinho rio algum ; mas dentro em huma legua correm os dous famolos , Sabor , e Douro. I CA- ECONO MICAS. 257 CAPITULO V. Do Rio Sabor. HUma legua didante da Torre de Moncorvo para a parte do Norte , corre o Sabor por baixo de hu- ma grande , e excellcnte ponte. Conlta ella de fete olhaes, c tern de longitude 185 pafTos , e 5" de largura. D: am- bos OS lados ha luiina porjao de ponre iecca : de iuiiiia parte tern de longitude 34 piiflos , e de outra 28. Eite rio ie vai unir ao Douro em lium fitio da Villarjja , a que chaiuao Foz. Colluma o Sabor ter grandes , e empoladas enchen- tes , nao 1(5 pela abunda icia com que o Inverno Ihe faz crelcer a< luas rti-finas agaas , mas muiro principaimente pelo impedimento que aclia nas agiias do Douro para a i'ua enirada na Foz , e communicaj.io com elle. O Dou- ro nas tempeftades creice de forma , que na6 fo refille i entrada do Sabor , mas ainda ihe conmunica das fuas mei'mas aguas. D iqui fuccede huma notavel eftagna^ao , e retrocelTo nas aguas d(i Sabor , que faz chegar tile a par- tes bem diftantes da fua corrente ordinaria : clla enchen- te vai cubrindo , e alag.indo todos os campos da Villa- rica ate mei'mo ao Canafcal , fitio que difta legua e tneia da Foz do Sabor. Deile rebofe , e eftagnajao dos campos fuccedem fuas urilidades , c tambem feus grandes incom- modos. As utiiidades I'ao as feguintes : pelas paites donde palTa , iraz comfigo diverfos lodos , fediJiientos , ar- gillas , facs , que dcponlo-fe nos campos eilagnados , os rertili/a muito \ e tambem porque nos mcfmos campos , e terras ie faz huma levolujao , e movimento util , e de conicqiieiicia vantajoili a mefma fertiiidade. A cxperien- cia nioilra as vanragens que os campos da Villarica re- cebem com o rebofe , pois alguns annos que deixa de havello , que lad poucos , Ie conhece huma difflrenja Tom, III, Kk no- 1 icS Memorias notavel , c grande decadencia. AfTim como o rebofe tern efta grande vantagem , e uriiidade y afllm tambem caufa graves prejuizos. Os Barraes , e campos que fe achao lemeados , fao arrazados , e deftruidos pelas enchcntes , legundo a fua maior , ou menor for^a , e alguns annos tern fuccedido por efta caufa colher-le muito pequena quantidade de linlio canemo ; de forte , que o tornao a ' I femear , fe ainda o te.npo o permitte ; alias repetem a ! cubrir com milho , e feijao. A inconftante rota que to- ma a Sabor desde a ponte ate a Fez fern alveo ceno , j, caufa hum damno tanto maior , quanta lie a violencia com que confunde os dorainios dos predios , pois con-~ forme o vago caminiio que fegue , affim prejudica. Mui- tos annos toma para a parte direita , privando os fenho- res da utilidade das terras que cobre ; outros para a ef- querda caulando igual prejuizo : advertindo , que nefta mudanca fempre rcai miior utilidade o dono dos pre- dios oppoftos ao novo alveo , porque fempre agriculiad da fua parte are aonde o rio Ihe defcobre. AlTim , por exemplo , fe o rio toma novo alveo para a parte direi- ta , OS da efquerda agricultao ate a extremidade delcu- berta do feu lado j e ailim em contrario. Do Douro. O Rio Douro difta meia legua da Villa , c devide as Provincias de Tras-os Monres , c Beira : nefta diftan- cia tem huma barca para a paiTagem dos caniinhantes , chamada a Barca da Torre. Efta barca fazia cm outro tempo hum dos principaes rendimento's do Concelho j mas ha fete y ou oito annos que fe denunciou a Coroa» Sinco leguas da Villa elta o porto de Foftua , aonde fe ■podcm embarcar as fazendas ; e fe folTe navegavei ate a' barca de Alva , fari'a efta Provincia mais rica , e concor-i reria para promover mais e mais a fua induftria , que fe- augmentaria em propor^ao da facilidade dos tranfportes. | Forem o que faz obftacuio para fe navegar he o cele- bre ECONOMICAS. 25'9 brc cachao , diftante finco leguas , em que fe tcm j:i rra- balhado. Para fe obter huma obra tao intereflaiite , e de tao uceis confcqucncias , miii juftamente pagao os lavra- dores , e Companhia do Alto-Douro 40 reis por pipa. Ao Inlpcdlor i'e da por dia i(^200 reis. Tanto o Sa- bor , como o Douro neiles iltios , lao abutidantes de pei- xcs , como baibos , lampreas , faveis , muges , &c. Dos Lavradores. Os lavradores de Moncorvo fao como quafi todos OS da Provincia , faltos dos conheciuientos verdadeiros para a agricultura , trabalhando fempre pela fimples ro- ta , dcixada pelos feus maiores ; incapazes de innovar coufa alguma , ainda que Ihe pare^a util , nao fazendo experiencias novas , nem mais que o methodo fervil huma vez adoptado. Defconhecem algum outro genero de artes , em que fe podiao occupar , e ganhar dinhei- ro no tempo que Ihes rella da agricultura ; por iiTo fao nimiamente pobres. Para ifto concurre tambem nao ferem fcnhores das terras que trabalhao , das quaes pagao ren- das , e aJgumas bem avultadas. C A P I T U L O VI. Das Terras. A Torre de Moncorvo he huma das partes da Pro- vincia , que tern mais occupados os campos , e lao poucos OS que fe achao fem agricultura. O campo da Vilbrija he todo agriculrado , e faz o principal rendi- .mento , e vivcnda delta Villa. Partes ladeirofas , e gran- des valles , le achao cubertos de oliveiras , que tambem a enriquecem muito. A maior parte das terras que ro- deao a Villa fao ladeirofas , e mais aptas por ilTo a pro- duzirem lenteio. Nao obflante o clima fer favoravel , Kk ii cof- 26o M E M O R I A S coftuma haver frios , geadas , nevoas , chuvas ; mas nao fendo tempeftade maior , pouco damno caufao ; com tu- do no Maio Ihes fao mais funeftas. As nevoas fazem muito mal as fearas quando as efpigas eftao cheias , por- que entao as enche de ferrugem , e Ihes caufao graves damnos , e nao fabem remedio algum para as defende- rem de prejuizo femelhante. Nao obftante o ponderado , ainda deixa6 de lavrar terras excellentes , e muito me- Ihores que as ladeirofas. Eftas fao as terras de huma fer- ra contigua a Villa , as quaes fao muito aptas para pro- duzirem. A experiencia o tern moilrado , porque em al- gumas fortes que alii fe trabalhao , produz mais huma geira , que tres nas terras de ladeira , nao Ihe fendo pre- cifo mais que lan^ar-lhe alguma cinza para promover-lhe o calor. O Monte Roboredo , em cuja falda efta iituada a Villa, tern de comprimento huma grande legua , e hum quarto de largura. Confta de excellentes terras : he mui pouco fragofo , abundante em aguas j e hum fitio delle chamado a Cova de Mendel , he tanto mais excellente , quanto lamentavel que fe nao agriculie. Efte MonDe he inculto , produz matto , e lenhas , de que fe fervem os moradores da Villa para queimarem , e a propriedadc he do Conceiho. Defte Monte devia-fe ao menos agricultar a terja parte para o baixo , deixando o mais para as le- nhas , que feriao muito ballantcs para o ufo da Villa ^ por iflb que he tao liberal em produzir , he fern diivi- da que a induilria alii faria nafcer excellentes vinhas , bons pomares , e hortalices , e ainda mefmo trigos , fen- teios , &c. Quanto mais , tjue nada efte Monte produz que feja util lenao lenhas , nao fuftenta os gados , e ne- nhuma herva da que poifa intereilar as artes , ou com- mercio. Os principaes fru(flos que fe colhem , fao trigo, fenteio , feijao , mllho , azeite , vinho , linhos canemo , e mourifco : tem fuas amoreiras , pomares , e hortalices. Produzem fo huma vez no anno , e a maior parte del- las ficao de defcanjo para o anno feguinte , por ferenij del- i ECONOMICAS. l6l delgadas , e de pouco cliao. Eftas terras fao compoftas algumas abundando inais em argilla , e terra calcarea , como fao as da Viliariya , as quaes por ilTo fao tao produdlivas. A maior parte das fazendas delta Villa fao vinculadas , e OS lenhores dos vinculos as ccftumao arrendar. C A P I T U L O VII. Methodos de agricultar. OS lavradores que tern gados fe fervem delles para Ihe eftrumar as terras \ porem tambem ufao dos ef- trunies das beftas , e bois , principalmente nos chaos mais immediatos a Villa , e eltas terras dao dous fruiflos , o do vcrde , e depois canemo , ou millio , ou graos , &:c. Ignorao todo o genero de miflura de terras \ mas para pomares tambem fe fervem de eftrume de monturo. Na- da fabem da utilidade da miftura das argillas , cal , gre- da , e outros femelhantes obj 6(5105 , que fazem as ter- ras produiftivas. C A P 1 T U L O VIII. Dos Frucios. Pao. OS lavradores principiao a decruar as terras em No- vembro , fervindo-l'e do arado para as lavrarem. A ordinaria profundidade dos regos he de pouco mais de meio palmo j ficao primeiro os regos abertos , e depois OS tornao a iavrar em contrario , a que chamao ejlra- 'vejfar , de Alaio por diante. A fementeira comeja nos fins de Setembro continuando ate o lim de Novembro. Na6 ufao de algum preparo nas fementes , fo algumas vezes as efcolhcm , e feparao de heterogeneos. As fcifas come^ao no fim de Maio , e com [eitoiras cegao o pao , cue 2flos para os celeiros. O prejo ordinario dos jornaes das iegadas he a 120 reis , e de comer aos ho- mens ; 80 reis , e de coiner as mulheres ; porem mui- tas vezes chega a 200 , e a 240 reis , conforme o aper- to , e circunilancias. THuhas. Ha algumas vinhas em Moncorvo , ainda que eflas pl-anras nao forcnao o feu principal objedlo de agricultu- ra. Eftao plantadas nas ferras , e terras montanliofas , e poucas em planas , expoftas a maior parte mais a fom- bra do que ao fol ; a fua agricukura he a feguinte. P6- dao as vinhas de Novembro por diante ate ao meio de Marjo , feguiiido o fyftema , e reputando por melhor a poda feita nas luas velhas. Regularmente coftumao ca- var as vinhas de montao em Marjo , em Maio fe Ihe da a fegunda cava para as arrazar : vindimao nos fins | de Setembro , e principios de Outubro. Para a manufa- I cftura do vinho nao tern muito trabalho , pois para hu- ma lagarada andao regularmente feis homens dentro do- ze horas- O vinho que fe fabrica he fo de huma qua- lidade : as cubas em que o recoihem fao pequenas , le- vando as maiores ate 60 almudes \ a madeira de que fe fazem lie caftanho j as adegas , e armazens fao partes mais fubterraneas , e mais fiefcas. Azeite. Efte paiz he hum dos mais naturaes para a produc- cao do azeite , que forma o maior rendimeiito das ca- fas, r ECOMOMICAS. 263 fas , e vinculos. Ha muit:^s variedades de azeitona , a que chamao cordove%a , verdeal , madural , r.egrucha , car- rafca , lent if c a , borraceira , fevilhatia , &c. : a mellior deflas para o azeite he a cordoveza , c verdeal \ e para fe comerem , e confervarem em talhas , fa6 a borracei- ra , e levilhana. A fiia agriculrura , e manufa^llura he a fe'guinte. Coftumao fomente lavrar as terras em Marjo , advcrtindo que as terras melhores , e aonde a azeitona he de melhor rendimento iao as barrias. Algumas vczes fcmeao por entre ellas i'cvada , porem ifto caula baftan- te damno. O tenipo proprio em que phintao as olivei- ras he o principio de M;no ,, e a collieita nos fins de Dezcmbro. Ul'ao da cautela de aao vaiejarem as olivei- ras em tempo de nevoeiros , ou gcr.das , iem primeiro o (ol Ihes feccar o orvalho , o que dizem he de confe- quencia funeila , nao produzindo fru6lo iios annos futu- res. Nas tulhas dos lag;ires fe recolhe a azeitona , e fe conferva ate a fatflura do azeite. Hum boi he o que tra- balha no lagar , e fe farao em cada piada 20 alqueires de azeitona , que depois de bem moida fe mette em feiras , em que fe efprenie o azeite , que corre para as tarefas , aonde mais fe apura ,. e aflim manobrado le conlerva nos armazens ; fcndo a ordinaria colheita huns annos por outros na Villa de 2(|)ooo aliiuides. Cajianbeiros, He planta que nao fe produz na Villa , e fo no ter- mo aon.ie as terras fao mais fnas , e ordinariamente os caftanheiros querem terra de fcrra ; mas podiao plantal- los nas part-es da ferra , que fe acha inculta. Pomares, Ha bons pomares nefta Villa , cujas fru(flas fao pe- ras , macans , fereijas , ginjas , figos , abeberas , &c. Ha muitas qualidades de pcras , como fao vergamcta , pi- 264 Memoria* garga , niarmella , virgolola , de S. Bento , de ate aqui » &c. excedendo a todas com hum gofto delicado a ver- gamota , pigarja , e marmella. A lua agiicultura confifte em Ihe cavarem a terra , e regalias , havendo agua?. Ulao de duas qualidades de enxertos , a que chamao de piia , e anncl. Ha frusta de Inverno , e de Verao i aquel- Ja le colhe em Oatubro , ella quando fe acha madura. Ha tambz^m algumas arvores de elpinho , mas em peque- na quaiuidade , nao obilante fer o terreno muito boiii , e proprio para ellas , o que fe deve imputar tao idineii- te a incuria dos habitantes. Hortalices. A terra he propria para todo o genero de hortali- ces , as quaes fe fenao colhem , he por falra de induP- tria , e por nao innovarem , ua cerreza de que produzi- ria toda a qu.didade de couve , e de chicoria. Ha mui- ta abuiidancia de meloes , e de melan ias , de gofto de- IJcadilfiino , e fern diivida os mcihores que fe colhem no Riino , de forte , que em toda a pn'te fe celebrao OS meioes da Viilariga. Nefte campo ha quantidade de ir.eloaes , e de grande rendiuicnco. He facil a fua agri- cultura , do modo feguiiue. Lavra-le a terra por tres vczes , e no fi^n do uitimo arado fe deixa em fulcos , foraiando iiias covas aonde fe lan^ao as fementes. Ef- tas produzem mais hervas , que as precifas ; por iflb fe arrancao , deixando duas are tres , que crefcem , e fe augmentao com maior forja. Logo que ellas varas tem quatro ate feis folhas , fe fachao a primeira vez , e fe Ihe da ainda depois fcgunda facha , e aflim fe produ- zem grandes , -e exccUentes meloes , e melancias de no- tavel grandeza , e de excellente golto. Amoreiras. A terra he abundante de amoreiras pretas , nao as €n- ECONOMICAS. 265* enxertao , e f6 as coflumao plantar j ufao da foiha para creagao do ftrgo, Pajlos, Nao ha laineiras , nem feno algum , ufao fo de palha para as beftas : pafloreao os gados pelos mon- tes , e campos. C A P I T U L O IX. Do Campo da Villari^a , e das fuas producCoef. A Terra da Villarifa he das raelhores nao fo da Pro- vincia , mas do Reino ; tanto pela boa qualidade da terra deque fecompoe, como tambem por fer quail annualmente innundada pelo Sabor , e hum regato , que corre pelo meio da Villarifa , a que chamao Ribeiro da Villarica. Efta terra lie inilta de argilla , terra calcarea , e alguma area : com a chuva fe conglutina alguma coufa , e depois de fecca , e desfaz em p6 nos dedos , fendo a fua cor quafi cinzenta. Nao precifa de fer eftrumada , e afllin melino he muito produdiva , de forte , que he re- gular n'')S annos de innundajoes a cada alqueire de mi- liio da feaieadura , correfponderem 300 de colheita , e a cada alqueire de linhaja canema 10 pedras de linho. A terra que he fujeita a innundag6es , fe applica a cul- tura dos canemos , por fer muito mais producfliva , e agricultada com muito pouco trabalho , e as outras ter- ras , que fao muito barrias , rariffimas vezes fao innun- dadas , e por ilfo fc applicao para feijao , milho , tri- go , meloes , &c. A colheita ordinaria alii he de Trigo lo^ooo alqueires. Milho 12 ate i^^oco alq. Feijao 5" ou 6^000 alq. Canemo 10 ate iz^oco pedras. Tom. Ill, U Ef- 255 Memorias Efta toda efta terra devldida em porgoes , a que cha- inao courellas , pertencentes a cada hum dos fenhorios , OS quaes as arrendao por pregos avultados , dando-fe por courellas de no varas de largo i6o(^coo reis , e aiTim nas mais a proporjao da fua qualidade , e gran- deza. Eftas courellas eftao expoftas a contendas continuas, e perpetuas lidcs entre os lenhores delias. Aqui nao ha meios eftabelecidos , nem pode havellos por meio das ter- ras j porque as innunda^oes fazem huina notavcl revolu- cao nellas , defmarcando-as , e confundindo-as. O metho- do de que fe valem para demarcarem os predios a cada hum , he o feguinte. Exifte na Camara hum livro do Tom- bo , 110 qua! ha huma medicao de todos eftes campos re- gulando as varas que percencem a cada hum , e as cou- rellas , que lao contiguas , donde fe dcve coQiegar a me- dir , e lodos os anncs fazem eflas medigoes. Ha livros dcfle genero ; o primeiro feito no tempo de ElRei D. Filippe 111. em 1629, fendo juiz de Fora , e do Tom- bo Manoel de Soufa e Menezes : o fegundo he chama- do o Tombo Novo , feito ha pouco tempo por caufa das confusoes em que laborava, por fe terem ja tranfmettido a mukoo herdeiros aquellas courellas j foi feito em 1777 , fendo Juiz de Fora , e do Tombo Antonio Pin- to de Mefquita. CAPITULOX. Dos Tombos Novo , e Velho. Camara , e moradores da Torre de Moncorvo re- qucrerao a ElRei D. Fillppe III. fe procedcfle a fazcr hum Tombo nos Compos da Villarica , aonde le femeava o linho canemo , por quanto havia graude con- fufao naquellas propriedades , fem fe couhecerem os li- mites , e dominios de cada hum , por caufa das conti- nuas innundajoes que aiagayao os campos , e mudavao 3 pa- ECONOMICA?. 267 para as partes para onde eftava a area. Como tambeni pedirao , que fe reFormalTe o Tombo antigo, que liavia de hum prado do Concelho, no qual faltavao todas as con- frontafocs precilas. Havia nefle tempo tantas diividas , e deraandas , que alguns annos fe nao femearao as terras por effa caula , no que recebia grande prejuizo , n.io fo cada hum dos particulares , mas tambem a Real Feito- ria dos linhos entao exiftente nerta Villa. Procedeo-fe pois ao Tombo requerido , por Provilao de S. Magellade de 16 do Agofto de 1628. Obiervarao-fe todas as formal.i- dades em Direito requcridas , citando as partes , deci- dindo diividas por pappis , efcrituras , teftemunlias , Sec, e dando das decisoes particulares appela^ao, e aggiavo. Formarao autos de todas ;js divisoes feitas pclos lou- vados , e fe julgarao por fentenja em 5' de Junho de 1629. Achavao-fe no li'.'ro que fe tranfcreveo dos autos , e por donde fe regulao as decisoes , varias cotas , infor- macoes feitas pelas partem: , fern ncnliuma authoridade pu- blica J asquies forao juilamente rifcadas pelo Ju-iz de F6- Fora Jofe Pereira da Silva Manoel em 26 de Abril de 1766. A grande antiguidade defte Tombo , nao exiflindo ji fenao em herdeiros o dominio das courellas , e com maiores de.visocs , a confuiao , e ignorancia dos limites movida pclas continuas innundacoes do Sabor as deman- das , ufurpa^oes , duvidas , &c. derao caufa para que outra vez a Camara , e moradores defta Villa requeref- fcm novo Tombo ao Senhor Rei D. Jofe I. , o qual af- iim o mandou na fua Provifao do i. de Junho de 1775'. Procedeo-fe ao novo Tombo dos campos da Villarica com todas as circunflanclas , rcquifitos , e averigua^oes precilas em iemelhantes operacoes. Formarao-fe tambem autos , que julgou por fenterija o Doutor Antonio Pin- to de Mefquira Juiz de Fora delta Villa , ejuiz do Tom- bo por Provifao de S. Mageftade , cuja fentcnca fe acha dataJa em o i. de Outubro de 1777. Nao obitante toda LI ii a de- 258 H E M O R I A S a deligencia , c infpccjad de ta6 bom Miniftro , efte fe- gundo livro tern iiinda muita confufa6 : nelle fe deixa ainda n iiiias vezes o Direito faho as partes, fern Ihes limitar dcminios certcs , por nao poder em tao breve tempo averiguar-fe a legitima habilnafdo de herdeiros , e outras mais circunftancias prccilas para fe fcrmar hum Codigo certo das courellas , e limites de todo o campo. Paqui fuccedem varias lides ordinarias , que quafi fem- pre entretem o foro , e muito mais caufas de for^a. EP tas originao-fe , porqiie nas medifces tirao muito huris a cutros i e bafta que hum no principio do campo tire ao vizinho algumas varas , para ja haver huma grande confura6 em todo o campo ; porque os outros vjzinhos vao fempre medindo para diante as varas que Ihe da o Tombo , e afiim os outros , de forte , que o queixofo he ordinariamente fo o do fim , ficando prejudicado em tantas varas , quantas o primeiro accrcfcentou a iua cou- reJIa ; ou ainda em mais , fe os outros que fe feguira^ medirao alem das varas que Ihes pertenciao. Em fim , fuccedem daqui varias contendas , e demandas , que con-' linuamente occupa6 o foro , e perturbao a paz daquelles. donoa. ProjeSla. Na6 obftante a confufa6 , que parece inevitavel a efte refpeito ; o unico meio que julgo util para arranjar tudo na devida ordem he o feguinte. Primeiramente pro- ceder-fe a novo Torabo , para o qual fe devia fazer hu- ma averiguajao exacla a refpeito dos dominios de cada hum 5 ouvindo todos os intereffados , e as partes , e fa- zendo toda a poffivel diligencia por concluir todas as diividas occurrentes , para que depois houveffe menos , e ficaffe nenhuma occaiiao para as caufas ordinarias. Para-. evitar tambem as contlnuas defordens que fuccedem fo- bre as medi^oes , dando' materia para tantas demandas de for§:a , ja que as courellas nao foffrem em fi marcos que as limitem , nao pode haver arbit^io mais feguro a. ef- Economic AS. 26^ cfte refpcito , que o feguinte. Nos campos immcdiatos , e contiguos a eftas courellas , aonde a terra he firme, e livre de innundajoes , dc.via6-fc por marcos com toda a ieguranfa , com as diftancias correfpondentes ao domi- nio dc cada hum , limitando as varas que o novo Tom- bo tinlia deftribuido. Dcfcuberto o campo das courellas , e defcmpedido das innundajocs , para fe come^arem a dividir eftes predios , fe {angaria em linha reda hum cordel , desde a ponta do marco ate a propriedade , que fe quer dividir , o qual todos os annos daria com cer- teza , e fern confulao , os limites certos , e ja fc evita- va toda a violencia , que continuamenre fe ula de tirar as courellas vizinhas varas de terra que ihes pertencem i e alTim fc cortavao tantas demandas de foifa , pois fe alguma diivida occorrelfe , tornando a Ian jar o cordel do terrao refpedivo , vinha logo a declarar-fe fern mais cftrepito foreiife a verdade da coufa ; e quando amiga- velmente fe nao accommodaflem as partes , huma fim- ples veftoria cortava os fios a todas as lides. Ora tu- do ifto he muito facil de executar-fe , fegundo as obfervacoes que fiz , indo ver de propofito , e por oc- cafioes dc algumas vcftorias movidas por caufas feme- Ihante?. Em quanto fe naa da nova providencia , o unico ineio interino para evitar tantas diividas , era ir todos es annos o Juiz de Fora com dous louvados repartir os campos , conformc o Tombo novo , dando a cada hum a parte que Ihe toca , o que fe faz brevemente. Defta torma ninguem he ai-bitro da iua medica6 , cada hum^ agricuha o que o Tombo Ihc dii , fem fazer violencia ao> vizinho , e le evitao todas as accdcs de forja. CJt-^ 270 Memorias C A P I T U L O XI. Da Cultura dos Linhos Canemos da Villartca. ACuItura dos linhos he facil , e incommoda pou- co OS lavradores , por nao precifarem de ef- truiTies eftas terras , e iereiB muiro faceis ao arado pe- la continua commojao que Ihes caura6 as innundacoes. Da-fe-lhes o primeiro arado na Piimavera , e depois fe grada , paffados lo , ou 15' dias fe lavra outra vez , a que chamao ejlravejfar , e fe torna com a grade a ali- zar , palFados poucos dias fe repete a abrir com o ara- do , e entao fe fegue a fementeira da iinhaca nos regos que a grade cobre. Ordinariamente efta o linho 100 dias na terra , depois dos quaes fe arranca unindo-o em molhos no lugar, a que chamao tcndal ^ e palTados 8 dias fe ata em eftrigas pequenas , que fe facodem \ entao fe mette em agua 5" dias pa a o cortir , depois do que fe fegue a manobra de o tafcar. He fem diivida , que colhendo-fe ordinariamente 10 ate i2(|)ooo pedras de canemo , fe poderia eftender a muito mais a fua produc^ao , fe as manufafluras , e confummo o pediflem ; porque fuppof- to as outras terras precifaiTem de mais trabalho , e ef- trumes , tambem o produziriao excellentemente , e af- lim fe poderia fazer , e augmentar huma notavel co- iheita de linhos canemos. C A P I T U L O XII. Vi'veres. Torre de Moncorvo he abunJante em pao , vinho, carne de porco , caga , e pefca : os mantimentos fao muito bans , e fadios , poren raras vezes a mefmi caf a , e pefca fevenie, cada hum dos particulates a vai buicar para 11. A^uellas partes vizinhas fd6 muito abun- dan- E C O N O M I C A S. ' 271 dantes de pcrdizes , e mais aves , ainda mefmo ccntem baftantes porcos mcntezcs. O Sabor , e Dcuro oftcrccem as rtdes excellentes pcixes , ccnio lampieas , faveis , bar- bos , muges , tainhas , bogas , mas nos piiblicos do Con- ECONOMICAS. 27^ Concelho , e efte rendimenro fe arrcmata em pra^a pii- blica a quern mais da. Era efte Confelho muito mais rico , porque Ihe pertencia a barca do Douro , chamada Barca da Torre , a qual foi denunciada a Coioa , e veio a perder mais de 400(3^000 annua es. MONCORV^O. Produ^os. Trigo - - - Senteio - - Milho - - - Sevada - - - Serodio - - Feijoes - - Graos de bico Azeite - Vinho - La Qieijos Lin'-io - Cane mo Cordeiros Colheita. Prei^o. Alqneircs ?o<^cco I o,^cou 1 0^000 4(^ooo 400 5.^oco 2 CO Almudes 5^000 2(^COO Jinohas 500 180 100 ri^coo Cabei^as 1^600 300 200 240 120 :5CC 480 2(j&4CO 480 2^000 2^500 700 500 Somma. 9:000^000 2:ooo^coo 2:4CO(^coo 480^000 120^000 1:5001^000 2:ooO(^ooo 1:200^000 3^0<;^CC0 26C(j[JCOO 8:p00(2&coo 80C(^0no Somma - - ^0:^66^000 Tom. III. Mm CA- 274 -^ EMORIAS C A P I T U L O XV. Dos Ltigares do Termo. Acoreira. TEm fogos 100 , e peflbas dc Communhao 320. Dif- ta huma Icgua cite lugar da Villa : tern dc termo dc nafcente ao pocnte em longitude legua e meia , e de latitude de Norte ao Sul tres quartos de legua. Parte lie baftante fragofo , mas fempre fe agriculta quafi to- do , fuppofto que por cfta caufa fiquem terras por cul- tivar alguns annos. Tudo fe fiibrica de pao , mas nao ludo junto ; ametade cm hum anno , ametade em ou- tro : ufao nao fo de arado , mas ate de enxada nos lu- gares mais cfcabrofos. Junto ao Povo ha hum pedaco de monte chamado a Lamela , o qual ie nao coftuma agri- cultar , c he do Concelho , nem feri'a util agriculrar-fc , porqoc he ladeiruib , e expollo a grandes trovoadas j abriiido-le , cahiria a terra branda , e airuinaria as pio- pricdades que ag':ra rcfguarda. Produz cftc monte io- breiros , que fao muito uteis aos lavradores , porque Ihes miniftrao madeira para os feus arndos , e mais trem da r.grlcuhura. Collama fer coutado para as cabras , e ove- Ihas , e fo nos Invcrncs de grandes chuvas , c neves fe Ihes permiitte a paftagcm. Todos cs annos do nicz de Setembro para diante fe limpao algumas terras dc mat- to J que fempre na fee , como lao as piorneiras , carral- cos J e cutras qualidades , que fe nao podcm bem dcf- inontar , e i'egue-fe a fementeira , que dura dous me- 'zcs. Preparao as terras com cdrumes das cavalharices , de boii J de gados , e com cinza. Algumas que tern inatto para fe agriculrarem, fe Ihes corta no Verao , cu- jas cinzas fcrtilizao rauito. Eftas terras lao baflantemen- re fracas , a poder dc cftrumes , e trabalho , produzem pao. Tambem fe colhem ^Igumas Icntilhas , c miiho gioi- ECONO MICAS. 275* groflb , mas pouco. A coihcira Jie iimltada em propor- jao da fetnenteira , pois a lium alqueire de pao , cor- refpondem finco. Os methodns de agriculcar fao qua- il o mefmo que na Villa. He die lugar baflantemcntc mimofo de pomares , e por ilTo dos melhores do tcr- mo. Tein btflaiues laranjas , e limoes , fe isem que fo chegao a Primavcra : nao liie fazem outra agricultura mais , que regnlJas no Verao cada 15" dias. Ha outras varias fruclas , como peras , magans , Sec. , e boas hor- talices , i'uppofto que em pequena quantidade. Colhem alguma I'eda , mas pouca , porque tcm poucas amoreiras , advertindo , que o teireno he muiro proprio para ellas. FazciTj ulb dos Icus gados para eftrumar as terras , e queijos dos feus leites ; vcndem a la para a Serra de EftrelJa , e tambem fe veftem della. Os males que ata- cao OS gados faO bafquilba , rotihn , vial dc fanguc ( termos do paiz). Para a b^fquilha nao appHcao re- medio algum , e morre todo o gado em que dco. O mal de ronha o atiribuem as fomes , que em algum tempo paiTao. A medicina que Ihe applicao , he fum- mo de picrneiras , e giedas , amaffadas com urina ; nao ufao de azcitc zimbro , polio que cure , porque julgao que faz mal a la , e tem pelo melhor reme- dio o tabaco de follia mailigado , e applicr.do com fa- liva a parte enferma. O mal de fangue he curado com fangrias , alias morre o gado. A zangorreana he outro mal Ljue padocem , que as f^iz andar muito tempo doen- tes i algum. is efcapao , mas nao Ihe applicao algum ge- nero de remedio. K tinJjci he curad.i com azeite zimbro, e com OS alR'nlos das talhas do azeite. He o terreno abundantifTimo de aguas : tem quatro nafceiires dc corrente continua , e alem dilTo a Fontc do Concclho , o qu-? tudo da muita abundancia de aguas , que regao pomares , iiortas , linhos , &:c. advertindo , que lia muiras iiortas por todo o termo , c muitas fonie?. Efte lugar nao he dos mais pobres , c os lavradores defconhe- cem todas as mais artes. Mm ii A CO- 276 Memorias A C . R E I R A. Produdos. Colbeita. Prei^Q. Somma. Alqueires T • , 3<^50O ijOO 1^200 5C0 200 120 i;OsC(^ooo 1 8c Jooo 144J000 Senteio Sevada _ _ _ _ Anohas Quel) OS La Amendoa Linho - . - - i6 »5 20 ?^ Almudes 2Q&0CO 2^400 1^600 2^500 52^000 :56<^ooo ^2^000 80^000 Azeite Vinho - - - - 250 2<^400 800 1 480 Somma - - 600^000 ^ 84^)000 2:558^000 C A P I T U L O XVI. Do Lugar do P ere do. TEm 104 fogos , e :5^2 peffoas de Communhao. He bem fituado , difta dims leguas da Villa para a par- te do Sul. O termo nao he muito bom , e tem de com- primento huma iegua , e de largura meia : nellc muito poiico le agriculta , e vao fazer lavouras aos termos de tora , como a Urros , e Ajoreira. Tem fuas fontes , mas com poiica agua , principalmente no tempo de Verao. Os fru(ftos que colhem lao pao , vinlio , azeite, linho, amendoas. O mal que padece o gado he ronha , que fe cura com tabaco de folha , e azeite de zimbro ^ e mal de fanguc , que fe cura com fangrias. PE- ECONOMICAS. l-jy P E R E D O. VroAu^Oi. Colbeita. Prci^o. Sonmia. Alqimra Trigo .Senteio - - - - Sevada - - - - I(^9CO i^bco 2^000 Arrobas :5CO 2 CO 120 57C,^coo 24J(^OCO La ... - Amendoa - - - - Queijos - . - - Linho - - - - 120 120 50 20 Ahnudcs 2(j&4CO 1^600 2(1^000 2^500 288(^000 lyi^COO lOO^COO 50^000 Azeite - - _ . Vinho - . - . 2 GO 250 2(^4CO 480 480(^CCO I20<^0CO Somma 1:400^000 C A P I T U L O XVII. Do Lug-ar do Fe/rar. TEm de terrno mcia legua de Nafcente ao Poente , e de Norte a Sul fiiico quartos de legua : he dos maiores , e cnais nuinerofos dclte Concclho : ccnfta de 231 tbgos , e 730 pelToi.s : per entre elle pafla o Sabor. Tern niontes de pinliacs , que fao do Conleiho , e hum outeiro , a que cliamao C^lrfa de Mua. Elles na6 fao cultivados , porque o Concelho Ihes nao permitte licen- §a. Ha muitas terras afperas , per illo as nao cultlvao , e algumas das que cultiva6 he precifo deixallas de dei- canjo alguns aiinos. Nao pode deixar de fer-lhe muito fu- 178 M E M O R I A S funeila a grande trovoada fuccedida em 17 de Julho de 1784 , a qual fez eftragos de grande confequencia , le« vando gados , deftruindo propriedades , arvores , vinhas , pomares , chegando a dellruir trinta cafas de nioinhos , c cres pizoes , &c. , defgia^a que fez epoca entre elles. Eile lugar tem feus pomares de frucftas , amoreiras , &c. Abunda muito em aguas : corre pelo feu limite hucn ribeiro cliamado dos Moinhos , que rem feu principio do Souto defte termo , e fe recoihe i\o Sabor. Ha outros chamados Ribeiro da fardinba ^ do Oueixal. As fontes tem a did. Nogucira , que Janga ordinariamente huma te- Iha de agua ; outra do /'2r/ , que langara duas , e defla he que priiicipalmenre fe regao os pomares , hortalices , &c. Ha outra chamada de Maria Miga , que nao tem corrente , e em hum tanque ferve para beberem bois , beilas , &c. Havcra 1^000 cabej'^.s; de gado ; e poderia haver mals , e melhor , fe raaib-mi houveifem mais paftagens. As doengas que padecem I'ao malina , e ronha : a primei- ra nao labem curalla , e a ronha curao com azeite zim- bro , trovifcos pizados , tabaco de folha. Os lavradores ufao com pouca differenga dos me- thodos da lavoura , que em Moncorvo. Ha nefte lugar huma fiibrica de louja de barro grolTa , a qual he mui- to uril a cftas povoacoes vizinhas. Tem excellentes lameiras , muitas fruflas ; antes da trovoada tlnha mais de trinta moinhos , que mohiao o pao para toda cfta redondeza , mas rudo arruinou a tro- voada. He o melhor , e mais rico lugar do termo. FEL- ECONOMICAS. 279 1 ' E L G A R. PlOt'ti^OS, Coibcita. Pre<^o. Sovina. Alijttcires Trigo Senreio - - - - Sevada . _ _ _ Cartanha - - - - 1 8(ieiCCo 2^200 IcS>5CO Arrobns ^00 200 120 60 I50(^COO 5:6ccq&cco 264^000 Scda ... - La ... - Amendoa - - - - Linho . - - - 16 160 170 AUniides 8i,^fco 2(j&4CO i^6co 2^5CO 272 (^CCO 8C(^oco Azeite - - - - Yinho - - - - ?I0 600 S( 2<^4CO 48c Dmma - - 744^cco 288(^,000 7:(:05(^6co C A P I T U L O XVIll. Ma^ores. ^T"^ Em cftc lugar de tenno huma Icgua em quadrsdo ; X confta de 95 fogos , e 264 pelfoas dc Communhao ; alguraas terras que ie nao podem ngricuhar por bravas, ccmo o uionte vizinJio. As amorciras rcndem icO(^coo reis dc renda , e colhem algun:a I'eda. Curao a rorsha dos gados com fiimmo de piorneira , cu labaco de folha , c o gado cabium com azeite 'zur.biu. MA- 28o M E M R I A S M A C O R E S. Produitos. Colhdta. Pre^o. ■Somma. Alqu:ires Trigo Senteio - - - _ Sevada - - - - 2(i&300 ? 1-500 800 Arrobas :50O 200 120 690^^000 700,;^ 000 p6,;^000 Seda . - - - La .... Queijos - - - - ?o 50 80 Almudes 89^)600 z^^oo Z(^000 IZC^OOQ i60(^ooo Vinho - - - - Azeice _ _ . - 140 70 480 2400 67^200 168^000 Somm:^ 2:270(^000 C A P I T U L O XIX. Das Felgueiras. TEm fogos 108 , pefToas de Coramunhao :53c. O feu termo he de Nalcente ao Poente legua , e meia , e de Norte ao Sul huma legua. Efta povoacao nao le apro- veita do feu termo 16 para fi , mas os de fora deile tem alii muitas fazendas. Tem muiras terras de Monte maninhas , e por fe cultivar , e ierras bravas. Eftrumao as terras com o ga- do , e cinz^s. Nao tem amoreiras para a feda que colhe, compfao a follia fora. Tem 14 iiioinhos de moer pao , e fo 3 fao do po- vo. ECOMOMICAS. ^^l vo. Aqui fe vem moer o pao da Villa. Dao de rendi- mento cada hum 30 alqueires de pao livres. Nefte lugar tambem fazem carvao. He abundantiffimo dc aguas , tern mais de 25" fontes perenncs , e algutnas fcrreas : huma que eu obl'ervei he abundanclirima eai hetorogeneos mine- raes. O mai de tinha , e rouha que da nos gados , curao com azeite zimbro. Nao colhem azeite , nem amendoa , nem vinho , dizem , porque o nao permitte a terra?. F E L G U E I R A S. ProdtiLlos. Colheita. Pre^o. Somma. Jlijneires Trigo Senteio - - - - Caftanha - - - - 1^500 9(^000 Arrobas ^00 200 60 450^000 1:800^000 i80(^ooo Seda - - - - La .... Queijos - . . - 7 100 Almndes 2^400 2<^000 6iy^zQo 240(^000 50^000- Azeite - - - - Vinho .... 10 800 2(^5400 480 24^000 ^84(^000 Somma - - V755^'-oo CAP I T U L XX. De Urroz POdemos confidcrar o Lugar de Urroz , quanto ao feu termo , como hum circulo , porque o Lugar ella no ! meio , e tern em circumfercncia 6 leguas j he tambem hum Toiu. III. Nn do3. 282 M~E M O * 1 A S dos melhores , e numerofos lugares do Termo. Tern 243 fogos , 682 Peflbas ■■, diila 3 leguas de Moncorvo , pa- ra a parte do Sul , he o que colhe mais grao de todos OS do Termo; tern tambem algumas terras agreftes, co- mo fao as da Serra , e as que inclinao para o Douro. Tern baftantes aguas de fontes para beber , mas nao pa- ra regar. Quando fe achao os feus gados doentes, os cof- tumao meter no Douro a nadar , o qual difta pouco mais de meia legua. U R R z. ProduSlos. Colheita. Preco. Somma. Alqueires Trigo - - - - . Senteio , - - - Sevada - - - - IO<7»iOCO 20(^000 lO.^COO Arrobas :5CO 200 120 ?: 000^000 4:ooC(|&cco i;20o<|j)00o Seda = . - - La - - . _ Amendoa - - - - Queijos - - . - 4 500 200 AInmdes Sc)^6co 2(1^400 1^600 2^000 358(22^400 720^000 480(^000 400(|)000- A2eite _ - - - Vinho ., - - - 400 l(^000 S 2^6oo 2^^400 2(^)000 179(^200 240^000 40,i&C0© Azeice .... 80 2(jS)4CO 192(1^000 Somma - - CA- %26 M E M R r A s C A P I T U L O XXIV. Povoa. ESre termo efta mifturado com o de Eftevaes , tern de nafcente ao poente meia legua : he a maior parte cultivado , porem alguma per fer fragofa deixa de o fer 5 tudo o que fe difTe de Eltevaes , fe diz delle. POVOA. ProduSios. Colheita. Pre^o. Soruma. Trigo Senteio - - - - Seda - - - . La - - . - Queijos - - - - Azeite - - - - Alqncires 200 1^500 Arrobas 2 40 Almudes 15 :?00 200 2^400 2^000 2<^400 60^000 500^000 179(^200 ^Oc^OOO :j6<^ooo Somma •JOI^ZOO C A P I T U L O XXV. Cabeca de Monro. * TEm fogos 72, peflbas de confiflao 237, difla diias leguas de Moncorvo para o Poente , efta fituado na fummidade de huma afpera montanha , por onde fe vai por E CONOMlCAS. 287 por caminlio muito fragofo. Tcm de teriro de nafccnre a poente huma Jegua , e de largura ir.eia de noire ao Sul ; em muitas partes fe cultiva com enxada por fiao poderem Ja entrar bois , e arado. A terra he alguir.a arenofa , e Ihe chnir.ao fairrinht^. Pertence a efte iugar huma Quinta chamada Cabajias , diftanie cuafi huma Je- gua , fituada na falda da Serra , e efles habitantes ie occupao em cultivar os Campos da Viilrri^^a , que Ihes ficao contiguos. Tern junto a Serra huma perenne , e abundantiilima Fonte dc excellente agua , que tambem chega , alem do uio , para regar : o povo he pobre , muitas fazendas fao de fora : mas he proprio para crear gados. PeJos mezes d'Agofto , e Setembro j Goftumao ter luas doenjas nelles , e mortandades , por caufa das mui- tas gorduras , e calores , e por ilTo 6s paflao a terras altas J e frelcas. O limite he todo cultivado, e proprio a illb , de forte que quanto mais fragofo , mais natural he para fenteio : atiribuem as doenjas dos gados a paf- tagcm na Primavera , quando ainda antes das 11 horas fe acha a herva orvalhada. He Cabefa de Mouro muito fadia , por fer fituada no alto da Serra , aonde os ares gyrao livreiflente , e fao puros , porem os de Cabarras povo vizinho fao enfermos. CABECA DE MOURO. Produces. Trigo • Seftteio waho • Sevada Serodio Feijocs Gr&os Colhe'ua. Picco. Sonma. Alqmirci 6^coo ^00 i:8co|it:ob i::icco 200 z:4Cc^coo C^cco 240 i:44C<^CCO 2<|fiO0O 120 240,^CCO 200 400 So^cco 2(i»CC0 ;oo 6oC(>,cco 100 480 48